Pasteis de Belém – O segredo
* Por
Marcelo Sguassábia
- Que bom que veio.
Sente-se.
- Obrigado.
- Como já deve saber,
é um cargo vitalício. Nossos chefes de cozinha, uma vez admitidos, ficam
conosco a vida toda. E ganhando muito bem.
- Muito bem quanto?
- Não se preocupe com
isso. Dinheiro não é problema. O que precisa ficar bem claro é que, a partir do
momento em que você entrar aqui, vai morrer a serviço do negócio. E de boca
fechada.
- Sim, mas quanto?
- Diga-nos o que você
imagina ser um salário astronômico. Esse salário dos sonhos nós multiplicamos
por seis, para não perdermos tempo discutindo assuntos assim, tão sem
importância. Tá bem para você?
- Não imaginava que
isso desse tanto dinheiro. Ora pois...
- São milhares de
pastéis vendidos por dia, que as pessoas comem em pé, depois de horas na fila.
Em alguns domingos, chegamos a vender 45 mil unidades. Todos tentam copiar
nossa especialidade, aqui em Lisboa e mundo afora. Os resultados são
constrangedores. A nata utilizada nas outras receitas tem gosto de nada, a
massa resseca, empelota e desanda. E olha que eles vêm tentando uma imitação
que preste desde 1837...
- Que intrigante esse
mistério.
- O segredo não está
escrito em lugar nenhum, por medida de segurança. Ele é revelado verbalmente
pelo dono da confeitaria ao cozinheiro chefe, em uma sala sem janelas e com
isolamento acústico. O cozinheiro só sai da sala fechada após decorar de
memória a receita completa. Isso feito, nosso proprietário vai com ele até um
cartório de Lisboa, para lavrar um termo de compromisso onde o novo contratado
jura guardar o segredo, responsabilizando-se criminalmente caso ele seja
divulgado.
- E depois?
- Depois vem um
estágio probatório que dura de dez a doze anos, onde, dentre outros desafios, o
novo guardião será obrigado a fazer a receita no escuro e com apenas uma das
mãos. Esse é apenas um exemplo, as provações são diárias e de dificuldade
crescente. É, o pastel é doce mas não é mole não.
- Compreendo.
- Nosso guardião do
segredo, que estava no posto há 47 anos, faleceu há 3 dias. Precisamos eleger
com urgência o novo pontífice de Belém. Nossos headhunters apontaram você por
unanimidade, levando em conta dois critérios: maestria confeiteira e
personalidade discreta. Basta que você aceite e a gente manda soltar a fumaça
branca na chaminé da cozinha, he he he...
- Certo.
- Só não podemos
esperar muito. Em 72 horas sem pastéis, já constatamos um espantoso número de
cancelamentos de pacotes turísticos para Lisboa. Sem exagero algum: a falta dos
pastéis de Belém na cidade vai provocar um abalo sísmico na balança comercial
portuguesa. E você não quer ser o responsável por isso, concorda?
- Bom, acho que agora
preciso contar o meu segredo para você. Na verdade, estou aqui só escutando e
me fingindo desentendido. Sou obcecado pelos pastéis de Belém, e minha vida se
resume a desvendar sua fórmula. Saio do trabalho e me debruço em incontáveis
ciclos de tentativa e erro, até cair exausto no sono. Descobrir o segredo
assim, de mão beijada, seria perder o resto da motivação que ainda tenho. Nem
todo o dinheiro do mundo pagaria a satisfação de decifrar por mim mesmo o
mistério dessa lenda lusitana. Ainda que tenha que morrer tentando. Agora, se
me dá licença, são seis da tarde e tenho programadas mais dezoito tentativas
antes de dormir.
* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Pois é, não se pode confiar em ninguém. Mistério: quem é o mantenedor do segredo, já que o último cozinheiro morreu após 47 anos no trabalho (quase atingiu os 49 exigidos pela reforma da previdência)? Alguém de cem anos?
ResponderExcluirOi, Mara. Respondendo: digamos que seja alguém da nova geração de proprietários - que por herança ouviu do pai, no leito de morte, a receita lendária. Sendo que este já tinha ouvido do avô e o avô do fundador, em 1837. É verossímil???? Rsrsrsrsrs... Abraços!
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