Extremos da eternidade
O
futuro, entre tantos símbolos abstratos que o engenho humano criou com a força
do seu raciocínio, é um dos mais incompreendidos e desvirtuados. Poucos são os
que se dão conta de que se trata, meramente, de um “potencial”. Ou seja, pode,
ou não, acontecer. No entanto, as pessoas têm o hábito inconsciente de projetar
suas esperanças, sonhos e desejos nesse tempo ainda não ocorrido e que, para
elas, pode sequer ocorrer. Algumas, inclusive, deixam de se empenhar para a
realização dos seus projetos e obras no presente, no aqui e agora, quando estão
vivas, saudáveis e têm a oportunidade de fazê-lo, adiando-os indefinidamente.
Acreditam que circunstâncias novas, que
surgiriam no porvir, as favoreceriam, sem que precisassem sequer se esforçar
para obter o que querem. Claro que as coisas não são bem assim e que isso, se
acontecer, será um fato raro, cuja probabilidade real, matemática, é de nunca
ocorrer. É um risco sem limites que se corre, portanto, o adiar, do que quer
que seja, para o futuro.
O padre Antônio Vieira, no sermão da
“Quarta Dominga do Advento”, pregado na Capela Real de Lisboa, em 1652, nos
lembra: “Quantos amanheceram e não anoiteceram! Quantos se deitaram à noite e
não se levantaram pela manhã! Quantos postos à mesa os afogou um bocado!
Quantos indo por uma rua os sepultou uma ruína! A quantos levou uma bala não
esperada! Quantos endoideceram de repente! A quantos veio a febre junta com o
delírio! A quantos um espasmo, a quantos uma apoplexia, a quantos infinitos
acidentes, que, ou tiram o uso da razão, ou a vida! Todos estes cuidavam que
iriam morrer de uma morte ordinária, como vós cuidais; e quem vos deu a certeza
de que vos não há de suceder o mesmo?”.
Quando buscamos racionalizar essa
atitude e mostrar a estupidez de se projetar nossos sonhos e projetos para um
futuro incerto; quando buscamos alertar para o quanto ela é insensata e tola,
baseados na inflexível lógica, de imediato nos colam na testa o rótulo de
“pessimistas”. Pessimismo? Não! Realismo! O que quer que se pretenda fazer,
mandam o bom-senso e a razão – aos quais quase sempre relutamos em atender –
deve ser feito no aqui e agora. A menos que...
Na verdade, ninguém admite, em seu
íntimo, mesmo que o diga da boca para fora, a hipótese de não ter futuro. E,
mais do que isso, dele não ser radioso, próspero, bonançoso e feliz, muito
melhor do que o presente. Associa-se, sempre, a esse tempo meramente potencial,
a idéia de progresso, de evolução, de felicidade, de prosperidade pessoal e da
comunidade em que se está inserido: cidade, Estado, país e mundo. A realidade,
porém, é bem outra. O futuro, diz a mínima lógica, está intimamente vinculado à
decadência, à decrepitude e, finalmente, à morte.
Reitero que se deve valorizar e
aproveitar ao máximo o fugaz presente, que é concreto, é real e é palpável, por
pior que se nos apresente. Afinal, é nele que iremos construir, ato a ato,
idéia a idéia, emoção a emoção, momento a momento, a nossa biografia. Cada
segundo desperdiçado, pois, torna-se irrecuperável. O tempo é um precioso e
inestimável patrimônio para este animal cuja existência média, nos casos mais
otimistas, beira os 75 anos.
Em circunstâncias muito excepcionais,
há pessoas que conseguem passar dos cem. Meu avô Hilarion, por exemplo, viveu
105 anos. Isso não me assegura, todavia, idêntica longevidade, pois esses casos
são extremas raridades. E onde estaria o nosso amanhã? O poeta sérvio, Milorad
Pavitch, nos dá uma indicação de como antecipá-lo e encontrá-lo no livro “O
Dicionário de Kazar”: “O caminho mais reto para se chegar ao futuro é seguir
sempre na direção em que o nosso medo cresce”.
Pessimismo? Não! É sabedoria e
bom-senso! Afinal, o que ainda pode (ou não) acontecer é absoluta incógnita.
Tanto pode nos trazer a recompensa dos nossos esforços do presente (logicamente
supondo-se que estes estejam sendo feitos e nos limites das nossas forças e da
nossa capacidade), quanto a nossa inexorável extinção. A morte jamais manda
aviso, não marca hora e muito menos antecipa o momento da sua chegada. Colhe
suas vítimas, qualquer que seja a sua situação ou posição, como bem lembrou o
padre Vieira no sermão a que nos referimos, nos momentos e locais mais
inesperados: durante o sono, ao longo de uma refeição, no trabalho, no lazer,
no amor, numa briga, numa conversa informal com os amigos e em milhares de
outras circunstâncias e lugares. Pois, como concluiu com sapiência o escritor
Vladimir Nabokov (autor do best-seller “Lolita”), “nossa existência não é mais
do que um curto-circuito de luz entre duas eternidades de escuridão”.
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Nenhum comentário:
Postar um comentário