A mãe e a manha
* Por
Ângelo Monteiro
Todos se encontram, ao
longo da vida, à sombra da mãe ou da manha: a mãe representando a pátria e a
partilha, enquanto a manha - que ora é dengo, ora astúcia - junta com precisão
as imagens do covil e da matilha. A mãe pode ser a religião, a arte e a
filosofia, mas a manha não passa, via de regra, de uma ideologia marcada pela
ausência de valores e posta a serviço duma economia aparentemente solidária e
duma política que não distingue a malandragem do crime. Onde há mãe não costuma
faltar uma visão ampliadora do tempo e da história, e onde há manha predomina,
ao contrário, um horizonte uniforme e cinzento que se nega a qualquer promessa
de luz.
Os inspirados pela mãe
vivem em constante sintonia com o tempo, ainda quando tentam, cada um a seu
modo, alterá-lo e, às vezes, dilatá-lo, os instigados apenas pela manha não se
distanciam nem um pouco da água estagnada em que refletem a anônima face. Na
diferença fundamental entre os inspirados e os instigados é que repousa o
destino dos que escolheram a mãe ou a manha: os manhosos ou avessos à mãe,
embora se sustentem das raízes e das fontes ao redor, não conseguem enxergar
nada além delas, ao passo que os inspirados por sua presença não descansam nem
os pés nem a cabeça na perseguição de outras raízes e fontes, já que os ventos
da surpresa não deixarão de acompanhá-los.
Entre a mãe e a manha
se traçam tanto os caminhos mais próximos quanto os distantes daqueles que,
dispondo da própria experiência, terão forçosamente de seguir um rumo em
conformidade com o que dita a voz do seu coração. Enquanto muitos fazem, de
acordo com a manha, as manobras típicas do seu projeto existencial, alguns se
abrigam no nicho materno de uma busca que jamais se afastará do objeto de sua
escolha. Como haveremos de esquecer a preciosa sentença pronunciada por Jesus
de Nazaré - "Onde está teu tesouro, aí também estará o teu coração"
-, de uma vez que cada um de nós em verdade vale por aquilo que considera sua
medida de amor e de conhecimento?
*
Poeta, ensaísta, cronista e filósofo.
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