Casa com cheiro de flor
* Por
Urda Alice Klueger
Eu não faço ideia,
ainda, de tudo o que possa vir a ser, vir a sentir aqui neste lugar – só sei
que agora é setembro, e nas noites, quando o trânsito lá da rua principal se
acalma, minha casinha fica mergulhada num oceano com cheiro de flor. Fazia
décadas que não sentia nada parecido, que não vivia nada tão perfeito: nas
manhãs, saio pelas muitas redondezas a passear com meu cachorro, e em um mês
aqui, já consegui mapear, creio, as tantas laranjeiras que crescem nos mais
diversos quintais das mais variadas casas deste lugar que se desdobra sobre
colinas atravessadas por ruas calmas, onde há placas que dizem: “Atenção!
Respeite: Zona Residencial – velocidade máxima 40 km”, e onde custa a passar um
carro.
Então sei das
laranjeiras, e há algumas tão na beiradinha da rua que paro minha andança para
ficar a aspirar seu perfume do qual eu quase não lembrava mais – só que há
tantas, em tantos quintais, e tantas árvores em tantos jardins e terrenos
baldios, e pedaços de mata virgem, como bem ali detrás da minha cozinha ou lá
na ponta da colina que vejo lá adiante, e como é setembro, tudo está florescido
de alguma forma e tudo que é flor tem algum aroma que chama à fecundação e
atrai insetos e gente – eu, pelo menos, estou altamente sintonizada com esta
floração toda, que vai dos mais tímidos capins à mais encorpada árvore.
Nos dias, com o sol
quente e as tantas emanações de toxinas pelos automóveis que passam lá na rua
principal, algo de tanto perfume se perde, apesar de os dias serem lindos, como
hoje, que é feriado, e o vizinho quase da frente pinta de branco a cerquinha do
seu terraço, naquele marasmo de feriado, onde um amigo conversa com ele com uma
cerveja na mão, e a cortina de seda amarela da janela do meu quarto baila no
vento, sobre as primeiras flores coloridas que fiz florescer no meu minúsculo
jardim. É lindo estar aqui, e só falei de dois ou três detalhes – não posso
deixar passar mais um: lá no horizonte, por detrás das colinas, há uma
distância de morros azuis, bem da cor da nostalgia, como descobri que era aquela
cor, ainda na minha infância. De noite, há a lua, que será cheia hoje ou
amanhã, e que demora horas inteiras atravessando meu novo horizonte, novidade
para quem veio do sul deste município, onde o caminho dos astros, no céu, é
sempre tão limitado pelos morros! E se espero para dar a última voltinha com o
meu cachorro lá pelas onze da noite, quando já se acabou o trânsito da rua
principal e parece que tudo se acalmou, então mergulho no oceano de perfume
onde minha casa fica submersa, e é de estontear a densidade que há em tal
mergulho. Saio fruindo o máximo de cada inspiração, encantada e fascinada
demais para tentar entender o que a natureza está fazendo, como que flutuando
num sonho colorido, mas assim de dia fico pensando nas tantas razões da natureza:
no silêncio da noite, ela cria aquela imensidão de perfumes onde mergulha minha
casa, já montando como que um engodo para os insetos da manhã não esquecerem
das suas tarefas de fecundação enquanto setembro está aí – e quem sai ganhando
sou eu, que agora tenho uma casa com cheiro de flor – e flor de laranjeira,
ainda por cima!
Blumenau, 02 de
setembro de 2009.
* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e
doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de mais três dezenas de livros, entre
os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12
edições).
Depois de exalar tanto perfume e enaltecer as belezuras do lugar, ficou fácil vender sua casa, pois sei que se decidiu por morar na praia.
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