domingo, 2 de novembro de 2014

Sou ignorante, tenho medo

* Por Donald Malchitzky

Mesmo que as pessoas disfarcem, o preconceito permeia as relações com portadores de doenças, e isso aumenta na razão direta do tamanho da ignorância ou dos ignorantes.  Quando a AIDS começou a ser conhecida e analisada, muita gente já havia morrido por causa dela, mas o fato de descobrir-se que uma forma de transmissão era por via sexual,  e mais, detectada num comissário de bordo gay, bastou para estabelecer o estigma: era castigo pelo duplo pecado: de fazer sexo e de ser gay. Disso ao medo de se aproximar de um homossexual, foi um passo.

Esse preconceito ignorante e maldoso perdurou por muito tempo, e suas sequelas continuam até hoje, apesar de a ciência ter desvendando a origem da doença, todas formas de transmissão e até remédios avançadíssimos de controle. A ciência descobriu e disponibilizou conhecimento e remédios, as pessoas decentes divulgaram os avanços, tornando-os acessíveis à toda população.  Algumas denominações religiosas ainda se negam a aceitar a verdade.

Em nosso País de todas as cores, o vírus do Ebola ainda não chegou, mas já inoculou o preconceito e a maldade em brasileiros. Um cidadão de Guiné foi atendido pelo serviço de saúde  de Cascavel, no Sudoeste do Paraná, com suspeita de estar com a doença. Encaminhado para hospital de referência, o diagnóstico foi negativo, mas, por ter havido uma suspeita, o preconceito e a discriminação  mostraram  suas garras e atacaram com ferocidade.

De uma vez, sumiram os empregos para negros estrangeiros na cidade; as agências enviam os candidatos mas a maioria, por ser negra, sequer é atendida nas empresas. Nos ônibus, os negros ouvem ofensas e mensagens xenófobas do estilo: “Saiam de nossa cidade, voltem para seu país”, e dificilmente alguém senta ao lado de um negro. As pessoas guardam distância deles e os olhares se tornaram hostis. O vírus do Ebola também não chegou no Haiti, país da América Central que fica mais longe da África do que o Brasil, mas os haitianos – milhares deles vivem em Cascavel -, por serem negros e falarem uma língua estrangeira ou com sotaque, são alvos constantes dessas maldades.

O preconceito é o filho predileto da ignorância e da maldade, a ignorância é o não saber; combinada com a maldade, ela não deixa saber, e assim,  nasce o preconceito, um serial killer social.

E o Brasil se orgulha de sua pluralidade étnica!

* Escritor


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