Sou ignorante, tenho medo
* Por
Donald Malchitzky
Mesmo que as pessoas
disfarcem, o preconceito permeia as relações com portadores de doenças, e isso
aumenta na razão direta do tamanho da ignorância ou dos ignorantes. Quando a AIDS começou a ser conhecida e
analisada, muita gente já havia morrido por causa dela, mas o fato de
descobrir-se que uma forma de transmissão era por via sexual, e mais, detectada num comissário de bordo
gay, bastou para estabelecer o estigma: era castigo pelo duplo pecado: de fazer
sexo e de ser gay. Disso ao medo de se aproximar de um homossexual, foi um
passo.
Esse preconceito
ignorante e maldoso perdurou por muito tempo, e suas sequelas continuam até
hoje, apesar de a ciência ter desvendando a origem da doença, todas formas de
transmissão e até remédios avançadíssimos de controle. A ciência descobriu e
disponibilizou conhecimento e remédios, as pessoas decentes divulgaram os
avanços, tornando-os acessíveis à toda população. Algumas denominações religiosas ainda se
negam a aceitar a verdade.
Em nosso País de todas
as cores, o vírus do Ebola ainda não chegou, mas já inoculou o preconceito e a
maldade em brasileiros. Um cidadão de Guiné foi atendido pelo serviço de
saúde de Cascavel, no Sudoeste do
Paraná, com suspeita de estar com a doença. Encaminhado para hospital de referência,
o diagnóstico foi negativo, mas, por ter havido uma suspeita, o preconceito e a
discriminação mostraram suas garras e atacaram com ferocidade.
De uma vez, sumiram os
empregos para negros estrangeiros na cidade; as agências enviam os candidatos
mas a maioria, por ser negra, sequer é atendida nas empresas. Nos ônibus, os
negros ouvem ofensas e mensagens xenófobas do estilo: “Saiam de nossa cidade,
voltem para seu país”, e dificilmente alguém senta ao lado de um negro. As
pessoas guardam distância deles e os olhares se tornaram hostis. O vírus do
Ebola também não chegou no Haiti, país da América Central que fica mais longe
da África do que o Brasil, mas os haitianos – milhares deles vivem em Cascavel
-, por serem negros e falarem uma língua estrangeira ou com sotaque, são alvos
constantes dessas maldades.
O preconceito é o filho
predileto da ignorância e da maldade, a ignorância é o não saber; combinada com
a maldade, ela não deixa saber, e assim,
nasce o preconceito, um serial killer social.
E o Brasil se orgulha
de sua pluralidade étnica!
*
Escritor
Nenhum comentário:
Postar um comentário