A moça famosa
* Por
Danielle Giannini
Se não fosse a padaria, a
vida no bairro não teria curso. Pelo menos ninguém saberia do curso
da vida do bairro sem a padaria. Foi lá que ouvi falar de muitas
pessoas que não conhecia, embora as visse com freqüência, ou
passei a notá-las após ouvir falar sobre elas. Myrella foi uma
dessas. Um mulherão para marmanjo algum botar defeito. Pelo menos os
marmanjos que não freqüentavam a padaria, pois lá sabia-se tudo
sobre ela. Até a verdade que lhe era mais cara.
Foi um choque para o chapeiro
quando ouviu pela primeira vez a revelação, foi uma bomba que
estilhaçou seus brios masculinos. Demorou cinco segundos para se
recompor do susto e fazer a notícia chegar ao caixa, não sem antes
passar pelos rapazes do balcão de pães e atordoar o moço que corta
frios; quase perdeu o dedo na máquina, o coitado, tamanho assombro.
Justo ela, uma mulher tão linda, tão alta, tão simpática,
aparecia na televisão todos os dias e não era cheia da metidice de
alguns artistas famosos. Conversava com os meninos da padaria sem
economizar sorrisos.
Quem contou tudo foi a Zefa,
do salão de beleza instalado no meio do quarteirão, entre a padaria
e o ponto de táxi. Zefa sabia de tudo porque as clientes, na falta
do que dizer, contavam seus segredos. Sabia-se de tudo, então só
podia ser verdade. Pensando bem, até que Myrella era mesmo estranha,
não notou as orelhas, o jeito de colocar o cabelo. E a sobrancelha,
então, aquela linha de pêlos sobre os olhos dizia tudo.
Na tarde em que Zefa do salão
entrou na padaria para contar o segredo da moça bonita do bairro,
artista de televisão e uma simpatia, o assombro se fez sentir no
lanche vespertino em muitas casas. Não teve pão que prestasse. O
padeiro beirou o colapso, justo ela que o inspirava na sua tarefa
rotineira. Amassava o pão como se fizesse carinhos para ela. Fato é
que a receita desandou, aliás desandou toda sua lógica de homem,
macho, valente. O pão não cresceu nos dias que se seguiram e os
prejuízos já ameaçavam a padaria quando eu soube do caso, caso
tremendo. Lembro-me de tê-la visto na televisão na noite anterior
balançando os cabelos com brilho de comercial de shampoo. Mas se a
moça quis assim, que assim fosse, ou pelo menos parecia ser, sim,
pois dessa vez ninguém precisou contar nada a Zefa, ela viu tudo com
seus próprios olhos, ou julgou ter visto algo além do esperado.
O que ninguém esperava é que
a moça bonita e famosa, artista de TV e educadíssima, com um cabelo
que brilhava, resolvesse ir embora. Com tamanho burburinho sobre algo
tão pessoal, Myrella mudou-se do bairro sem deixar pistas a não ser
o rastro dos comentários que se seguiram à mudança; partiu sem se
despedir de ninguém, nunca mais colocou os pés na padaria, nem no
salão de beleza, só aparecia mesmo no programa da TV.
A indignação foi geral; era
tão boa moça. Até esquecerem o assunto, ninguém deixou Zefa em
paz. Zefa, você viu direito? Vi, sim, tá duvidando? Foi quando eu
depilei a perna dela. Tinha um volume estranho. Eu tô te dizendo,
essa moça é homem. Vocês estão tudo arrastando a asa é pra cima
de um homem. Azar de vocês. Mas Zefa, você viu a coisa? Vi foi o
volume, o que mais você queria? Desaforada!
*
Jornalista – blog http://www.lugaresdomundo.com
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