Sabedoria e humor
As
grandes verdades da vida, as pérolas de sabedoria, podem ser ditas
de forma bem-humorada e brincalhona, ou exigem uma linguagem
rebuscada, supostamente erudita, que não raro descamba para o
pedantismo? Entendo que não apenas podem, como devem ser expressadas
assim, para que façam o efeito desejado e atinjam corações e
mentes dos leitores. Mark Twain fez isso, pelo menos em boa parte da
carreira, e se deu bem. É verdade que muitos o contestam, mas sem
nenhum fundamento.
Esse
escritor, que morreu há cento e sete anos, aos 75 anos de idade,
teve uma velhice cruel, atribulada e triste, após uma série de
tragédias familiares, entre as quais a morte prematura da filha
favorita, Suzy, com a qual tinha profunda afinidade, vitimada pela
meningite, aos 24 anos, ou seja, na flor da idade.
Isso
arrasou-o. Tornou-o amargo, sombrio, ácido e arredio. Pudera! Aliás,
ela não foi a única dos seus filhos a morrer antes do pai.
Anteriormente, já havia perdido a primogênita, que morreu aos dois
anos de idade, de difteria.
Quando
lemos a respeito de alguém bem-sucedido, somos tentados a achar que
sua vida foi sempre um mar de rosas, sem espinhos, aflições, perdas
e aborrecimentos. As coisas, no entanto, não são bem assim. Alguns
até têm esse privilégio, mas são raros, convenhamos.
Mark
Twain teve que “ralar” muito, até conquistar o estrelato.
Precisou conciliar, por exemplo, a carreira de jornalista, que
exerceu por toda a vida, com a de escritor, o que não é nada fácil.
Aliás, começou, como tantos outros homens de letras, em redações
de jornais, viajando incansavelmente à procura de notícias.
Poucos
sabem, por exemplo, que foi num texto jornalístico, num artigo, que
usou, pela primeira vez, o pseudônimo que o tornaria famoso e pelo
qual seria conhecido pela posteridade. Raros, raríssimos leitores de
hoje conhecem-no pelo seu nome de batismo. “Mark Twain”, no
jargão dos barqueiros do Mississippi, era uma espécie de sonda para
medir a profundidade do rio e impedir que os barcos encalhassem em
bancos de areia.
Inicialmente,
seus textos, eivados de humor e ironia, sequer eram levados muito a
sério. Era encarado mais como humorista do que jornalista e,
principalmente escritor. Muitas de suas tiradas tornaram-se célebres
e são citadas, fartamente, mundo afora, notadamente na internet e,
não raro, sem a menção da autoria. Há muito “escritor” que se
vale a todo o momento do “Ctrl C – ctrl V” e assume, na maior
cara dura, escritos alheios como sendo seus.
Uma
de suas tiradas engraçadas é esta, que fala sobre o jogo: “Há
duas ocasiões em que o homem não deve jogar: quando não tem
dinheiro e quando tem”. Bem que essa recomendação caberia como
uma luva para o escritor russo Fedor Dostoievski, um jogador
compulsivo e inveterado.
Outro
dos seus aforismos famosos é o que diz: “Há três espécies de
mentiras: as mentiras, as mentiras sagradas e as estatísticas”.
Divirto-me com suas tiradas e costumo citá-las, em rodas de amigos,
como esta: “Deixar de fumar é a coisa mais fácil do mundo. Sei
muito bem do que se trata, já o fiz cinqüenta vezes”. Nisso,
contudo, superei-o: já deixei de fumar mais de uma centena de vezes.
Querem
mais? Há uma infinidade de outras “saborosas”, como esta: “A
boa educação consiste em esconder o bem que pensamos de nós
próprios e o pouco bem que pensamos dos outros”. Ou esta: “Creio
que o nosso Pai Celeste inventou o homem por estar desapontado com o
macaco”. Ou esta: “Um clássico é algo que toda gente queria ter
lido, mas que ninguém quer ler”. Ou esta: “Se estiver zangado,
conte até cem: se estiver mesmo muito zangado, blasfeme”.
Como
se vê, suas tiradas não são apenas engraçadas, mas refletem muita
sabedoria e verdade. Enquanto Mark Twain escrevia assim, no entanto,
os críticos (esses chatos mal-humorados) não o levavam a sério,
embora o público leitor se divertisse, como nós nos divertimos ao
ler seus aforismos. Retrataram-se, porém, após sua morte. Tanto que
um deles escreveu, em seu obituário: “Mark Twain evoluiu de cômico
brincalhão a uma das grandes figuras literárias do nosso tempo”.
Só
gostaria que essa gente me explicasse a razão de um escritor não
poder expressar as grandes verdades da vida de uma forma leve,
descontraída e brincalhona, como George Bernard Shaw também fez,
sem chatices, rabugices, ranhetices e sem um festival de pedantismo,
tão do agrado dos basbaques e dos que se julgam sábios, embora
sendo idiotas de carteirinha.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Pegou pesado com os pedantes, que existem aos montes.
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