Lições da arte
A arte, essa manifestação de
criatividade, capacidade de observação, perícia e habilidade do
espírito humano se esgota por si só ou tem alguma finalidade maior,
mais relevante, nobre e profunda do que em geral lhe atribuímos?
Serve, apenas, para satisfazer os sentidos ou atua como catalisadora
de reflexões e emoções? Tem limites precisos e definidos, ou seu
campo potencial de atuação é o infinito e o eterno? Vocês já
imaginaram o mundo sem artes? Seria, certamente, muito mais feio,
prosaico e sem sentido do que já é.
Por mais trivial que a música,
por exemplo, possa ser, fico sempre pasmo face à capacidade dos
compositores de reunir sons dispersos e que, isoladamente, são até
desagradáveis, em sinfonias e canções melodiosas, com harmonia e
beleza, que me despertam reflexões e incontida admiração.
Espanta-me a capacidade dos intérpretes de reproduzirem, exatamente
como os autores conceberam, e quantas vezes lhes der na veneta, essas
composições. Penso, sempre que ouço alguma canção bem-feita e
magistralmente interpretada por terceiros: “como eles (os autores e
intérpretes dessas façanhas) conseguem?”.
Minha admiração não é
menor diante de um quadro bem-pintado. Ou ao apreciar uma escultura
harmoniosa, como a do David, de Michelangelo – que só falta andar
e falar, de tanto que se aproxima da perfeição. Ou de um poema de
Rilke, de Shelley, de Lamartine e de tantos e tantos e tantos outros
bons poetas, que “pintam” telas que se aproximam da perfeição,
tendo por instrumento essa coisa tão frágil e de tão difícil
manejo: a palavra.
Tudo isso, todo esse
esbanjamento de perícia e criatividade teria um fim tão prosaico e
trivial, qual seja, o de apenas despertar admiração em quem aprecie
essas obras e nada mais? Entendo que não. Considero a arte um
alimento essencial ao espírito, assim como outras tantas iguarias o
são para o corpo. Sem ela, definharíamos, espiritualmente, nos
embruteceríamos e ficaríamos por conta, exclusiva, dos instintos da
fera, que de fato somos. A arte (refiro-me ao conceito e não a
alguma aptidão artística específica) é, sobretudo, a grande
testemunha, o distintivo, a comprovação inequívoca da nossa
racionalidade.
Você conhece, porventura,
outro animal que a pratique? Já viu algum cão compositor, algum
gato cantor ou algum burro instrumentista? Já soube de algum
papagaio que compusesse algum poema? Talvez você me responda que já
houve gorilas “pintores”. Mas eles tinham, de fato, noção do
que faziam? Apresentavam o mínimo senso de harmonia de cores, de
jogo de luz e sombras, de simetria de figuras e vai por aí afora?
“Pintavam”, pelo menos, algo sequer parecido com o que existe?
Claro que não. Limitavam-se a “sujar” de tinta as telas que lhes
eram apresentadas, sem a menor noção do que faziam.
Para que fosse possível a
mais rudimentar noção artística, os outros animais teriam que
contar com um mínimo de racionalidade. E, claro, com o máximo de
habilidade que, evidentemente, não têm. William Somerset Maugham,
um dos meus romancistas preferidos, que a cada livro seu que leio
mais e mais me ensina sobre as pessoas, notadamente sobre o
comportamento humano, escreveu, em um de seus romances (não me
recordo em qual): “A arte, um dos grandes valores da vida, deve
ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e
magnanimidade”..
E por que nos compete aprender
esse elenco específico de lições? O artista descobre, por si só,
no curso da elaboração da sua obra que, na verdade, não cria coisa
alguma. Limita-se, tão somente, a reproduzir o que já existe, com a
matéria-prima ao seu dispor.
Quem cria, de fato, é a
natureza, da qual ele é filho e com a qual jamais haverá de
rivalizar. Aprende, com a arte, a ser tolerante com as fraquezas
alheias, espelhando-se nas suas próprias, comprovadas sempre que
atinge seu limite e se vê impotente para ultrapassá-lo.
Com a humildade e a
tolerância, adquire condições de se aproximar da sabedoria.
Aprende a ser observador, a fazer analogias, a entender o
funcionamento da natureza e tentar imitá-la, no que lhe for
possível, fazendo projeções (de sons, imagens, formas, cores
etc.), da melhor maneira que conhece.
E, finalmente, absorve a lição
maior, a da magnanimidade. Ou seja, da mesma forma que a natureza lhe
provê do essencial para sobreviver, e de graça, sem cobrar coisa
alguma por isso, partilha o fruto da sua criatividade e talento com
aqueles que o cercam. Ou, pelo menos, é o que deveria fazer.
Boa leitura!
O Editor.
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Degustar a arte, sempre, pois sem ela somos miseráveis.
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