O
escudo de Minerva
* Por
Humberto de Campos
Mão
nervosa e febril, Fídias sonha e trabalha.
A
alma paira, genial, nas alturas serenas,
E
o cinzel, a ranger, morde a matéria, e talha
A
figura imortal da Senhora de Atenas.
Trabalha.
A fronte, o braço, a alta cabeça, o escudo,
E
a petrina, a guardar dos seios o tesouro,
Surgem,
formando a deusa, hirta e solene; e tudo
É
talhado em marfim, cortado em pranchas de ouro.
E
a estátua, um dia, enfim, no alto templo descansa;
O
peito colossal quase ofega e respira.
E,
apinhada a seus pés, sob a base da lança,
A
helênia capital, sábia e inteira, delira.
Todo
o que olha, em respeito, aqueles trinta e nove
Pés
de altura de Atena, evoca os tempos, quando,
Assim
bela, ao surgir da cabeça de Jove,
Pela
glória da Hélade andara batalhando.
O
gesto, a calma, o olhar, a firmeza do porte,
A
face do broquel e a lança em que se apoia,
Dizem
bem quem levou o estrago, a angústia, a morte,
Pelo
braço do grego, às falanges de Troia.
A
audácia de Patroclo e a doida valentia
Da
heroica multidão que os impérios invade,
Vieram
da proteção e da Sabedoria
Da
Senhora Imortal da Grécia e da Cidade.
E
ei-la, ali, bela e só, como vinda doutra era
Ao
báratro sem fim das misérias terrenas,
Para
ver, e abençoar com a presença severa,
As
conquistas da Grécia e a grandeza de Atenas.
O
lábio que inspirara o discurso de Ulisses
E
da nau de Jasão dera o modelo novo,
Era
ali, belo e moço, austero e sem meiguices,
Mas,
na sua mudez, a beijar seu povo.
De
repente, porém, olhando o escudo sobre
O
alvo pulso de Atena, alguém, afeito a insídias,
Espantado,
e a gritar, à multidão descobre,
Na
face de broquel, a figura de Fídias.
O
soberbo escultor, na alta febre que o inspira,
No
seu orgulho hostil, de artista intemerato,
Mão
tremente, olhar louco, em delírio, esculpira,
No
divino broquel, seu humano retrato.
***
Assim,
ó sonhador, que te acolhes na dobra
Do
amplo manto de Apolo, e erras, em sonhos, a esmo,
Deixa
sempre, insolente, impresso na tua obra,
Um
traço da tu’alma e um pouco de ti mesmo.
Esquece,
ao trabalhar, as humanas perfídias,
Mostra
o teu coração, esculpe a tua ideia:
Como,
outrora, imortal, o retrato de Fídias
Gravado
no broquel de Palas Ateneia!
In:
CAMPOS, Humberto de. Poesias Completas. Rio de Janeiro: W. M. Jackson
Inc., 1951. (Obras Completas, 1). p. 215-217. Ortografia atualizada.
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Jornalista e escritor, membro da Academia Brasileira de Letras.
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