Pudor da adolescência
A adolescência é um momento crítico na
vida de qualquer pessoa. É mais difícil para uns, mais tranqüilo para outros,
mas é sempre complicado. É a fase caracterizada pela incompreensão. A do
adolescente, até que é justificável, mas a do adulto não. Chega a ser
paradoxal. Afinal, todos, algum dia, já passamos, ou vamos passar, por esse
período.
Será que os que julgam os jovens com
excessiva severidade não se lembram como agiam nessa fase da vida? Parece que
não. Criou-se um estereótipo do adolescente (chamado, por muitos, de
“aborrecente”) de rebelde, abusado, sem pudor ou autocrítica.
Claro que é uma avaliação equivocada e
até burra, porque descamba para a generalização. O psicanalista argentino,
Juan-David Nasio, acostumado a lidar com jovens em sua atividade profissional
(portanto, sabe o que fala) traçou o perfil do adolescente-padrão, em
entrevista publicada no caderno “Mais!” da Folha de S. Paulo, em 9 de abril de
2000.
Entre outras conclusões, destacou:
“Penso que o que define a adolescência é o pudor excessivo, a vergonha. O termo
adolescência define um momento na evolução da pessoa do ponto de vista
temporal, mas não do ponto de vista psíquico. Psiquicamente a adolescência é o
momento em que há uma excessiva autocrítica do super-eu”.
Estudantes... É o que, na verdade,
todos somos, adolescentes ou adultos, mesmo que não freqüentemos nenhuma escola
e até já sejamos profissionais liberais esclarecidos e bem-sucedidos em nossas
respectivas profissões.
Gostamos de ostentar nossos títulos de
graduação, pós-graduação, doutorado etc. e não há mal nenhum nisso. Afinal, são
comprovações de sucessos obtidos em nossa busca por conhecimento e
especialização. Contudo, por mais ilustrados que sejamos, sempre teremos algo
para aprender.
Até o analfabeto não deixa de ser um
perpétuo estudante. Estuda, no seu caso, como sobreviver sem o grande acervo de
conhecimento contido nos livros e lhe é inacessível. O indigente, por sua vez,
é um estudante até mais aplicado do que a maioria, pois tem que garantir a
sobrevivência. Estuda, entre outras coisas, meios para conseguir seu próximo
prato de comida ou maneiras de arranjar um abrigo que o proteja da chuva, vento
e frio.
Estudantes. É isso o que sempre fomos,
somos e seremos, enquanto estivermos vivos. Na escola da vida, ninguém é
diplomado jamais. Não são, pois, apenas os adolescentes que têm que conviver
com contínuo aprendizado, que lhes confira a necessária experiência para
enfrentar crises e obstáculos.
Muitos podem se mostrar surpresos com
as conclusões de Nasio, enfatizando que a adolescência se caracteriza pelo
pudor excessivo, pela vergonha. A idéia que prevalece é, justamente, a
contrária. Ou seja, a de que o adolescente é despudorado e atrevido. Que quebra
padrões de decência, estabelecendo costumes e comportamentos contrários aos que
herdaram de gerações anteriores. Na verdade, isso não passa de mito.
O tempo é que interfere decisivamente na
maneira das pessoas se comportarem. Transforma vários princípios morais, tidos
e havidos como intocáveis em determinadas épocas, para melhor ou para pior,
dependendo das circunstâncias. Raros são os valores que permanecem intactos,
não por milênios ou séculos, mas até mesmo por décadas ou somente por um par de
anos.
Aquilo que muitas vezes consideramos
como dogma incontestável em determinada época, com as novas experiências de
vida que temos, não raro cai por terra, substituído por novas convicções.
Melhores? Piores? É impossível de avaliar. E esse processo de transformação não
se dá, apenas, no terreno da moral, mas em tudo o que somos, pensamos e
fazemos. Porquanto o tempo, muitas vezes, age como um químico desastrado,
desses que misturam substâncias erradas e explodem o laboratório.
Já que julgamos, com tamanha severidade
e preconceito, os adolescentes, como as futuras gerações irão nos julgar? Vão
compreender nossas limitações e ignorância e nos perdoar por lhes legarmos um
mundo tão imperfeito e cheio de contradições, injustiças, violências e
rancores, a despeito da refinada tecnologia e dos avanços científicos que
obtivemos e lhes legamos?
Podem chamar-me de visionário, mas
acredito numa época em que o homem será amigo do homem. Em que o egoísmo será
banido e substituído pela solidariedade e na qual reinarão, soberanas, a paz e
a harmonia entre os povos, irmanados numa só nação, a Terra.
Claro que não espero que isso ocorra já
amanhã, ou mesmo na presente geração. É questão de tempo, de muito tempo. Por
isso, faço minhas as palavras de Bertolt Brecht, nestes versos de encerramento
do poema “Aos que virão depois de nós”:
“Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para
a/amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons
amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de
compreensão”.
Mas para que isso ocorra, temos que
começar já a derrubar as barreiras do preconceito e entender o adolescente como
de fato é. Só assim poderemos lhe dar a necessária orientação e não ter os
jovens, apenas porque viveram menos anos do que nós, como antagonistas, que na
verdade não são. Ou, pelo menos, não deveriam ser.
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Respeito em primeiro lugar, e, como foi dito, abaixo as generalizações.
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