À
espera do outono
* Por Denise
Tavares
Nas noites frias em que a melancolia
pode vir à tona sem ter receio de ser desprezada, o silêncio é fiel companheiro
para olharmos, com placidez, o passado, nos embrulharmos, delicadamente, de
presente e, sem medo, erguermos a cabeça bem devagar, apertando os olhos, e
assim iniciarmos o delicioso mergulho na fabulação de futuro. Mas o frio, neste
outono estranho, ainda não chegou. Ao contrário. O calor tem se mostrado em
fúria, arrancando à pele todo o suor que deveria estar soterrado corpo adentro.
Faltar o outono é, então, sobrar
incompletudes. É viver ciclos que não se fecham e que, por isso, têm o péssimo
hábito de buscarem algum fim, algum desfecho que deixe a alma envolta em suaves
nuvens a aspirar um novo estado físico. Quem sabe podem ser fachos
transparentes para melhor acomodarem a luz do sol suave, também sol exclusivo
do outono? Mas, nada disso. O que há agora é o corpo desassossegado com este
banzo esquisito, fora de hora, que se revela em descompasso com a vida e os
amores, claro, acontecem confusos.
É esta explicação que Júlia deu a si
mesma para esperar, mais uma vez, Bernardo. Semana inteira ele embalou-a em
delicioso cântico: “Ah, este sábado! Me espere, querida, me espere inteira, me
espere, me espere...” Ela esperou. Não, sem antes experimentar um novo ritual,
garantia de ótimo encontro, segundo sua melhor amiga, Carla. Seqüência simples:
banho gelado que aliviou boa parte do dia que havia grudado, bem teimoso, do
cabelo aos pés, deixando-a pegajosa. Em seguida, despejar caneco de água
fervida com sete punhados de sal grosso e 21 pétalas de rosa vermelha. Por
último, secar ao vento – mais imaginado do que real – que chegava anêmico pela
janela escancarada do banheiro. Como extra, Júlia optou por pedir, em fervor
intenso, ajoelhada, que tudo desse certo.
E foi se trocar.
Sobre a cama, a dúvida a espreitava com
um sorriso entre cínico e complacente através das duas brechas miúdas – vielas
construídas graças às três alternativas de roupas que se prontificavam a
deixá-la linda, linda, linda – e assim encantar, talvez definitivamente,
Bernardo. Seria possível já descartar alguma só de olhar? O relógio em cima da
penteadeira, olhos arregalados, lhe dizia que sim, que era urgente ser esta a
decisão. Júlia ignorou o conselho e rapidamente enfiou o vestido vermelho,
muito justo, com alças finas e decote ótimo para seu par de seios ávidos por ar
e olhares. Aprovou, só que achou mais sábia uma comparação, mesmo que muito
rápida, com o verde tomara que caia que, se não marcava tão bem o corpo, tinha
a vantagem de facilitar o movimento.
No final, enfiou os dois vestidos de
volta ao cabide e optou pela blusa preta, estilo chinesinha, combinando com a
saia também preta, de babado de renda na ponta. Com esta roupa podia se mover
com tranqüilidade sem perder o comando do corpo que balançaria, tinha certeza,
ao ritmo rápido da respiração entrecortada do seu doce amor. E foi à varanda,
já de salto e maquiada, à espera de Bernardo. Que não chegou.
Tivesse realmente chegado o outono,
Júlia se recolheria à melancolia azul estrelada e pediria aos anjos que
estremecessem seu desejo, embaralhando-o a ponto dela nunca mais conseguir desenhá-lo.
Fosse, de verdade, outono, Júlia abraçaria o joelho, enterraria a cabeça entre
eles, choraria um bom tanto, mas, rápida, ligaria para Carla, muito brava, pela
ineficiência do ritual e arrumaria uma boa cama para esquecer. Se não estivesse
tão ausente este outono, Júlia, enfim, seria uma jovem lúcida, capaz de
perceber que os verbos que rodeiam o amor, hoje, estão gosmentos, disformes,
embaçados e fazem deste sagrado estremecer – corpo e espírito a perderem-se de
si, a se re-encantarem entre sombras e silêncio –, um não-habitante do solo do
afeto sem-fim. Solo que quanto mais se percorre mais se aspira, intensamente, nele
permanecer. Seja lá a estação que for.
* Jornalista, professora e diretora da
Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas
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