Senhores da vontade
A afirmação que, amiúde, mais ouço por
aí, notadamente dos jovens (mas não somente deles, é verdade), quando
admoestados por algum erro cometido ou quando se rebelam contra alguma ordem
(justa ou injusta, não importa) é: “ninguém manda em mim! Sei o que faço e não
preciso que fiquem me dizendo o que, quando e como fazer”. Claro que é uma
baita tolice. Não existe (e provavelmente jamais existiu) alguém que seja ou
que fosse totalmente auto-suficiente e, mais do que isso, senhor absoluto da
sua vontade.
Temos (todos nós, sem exceções) que
prestar, sempre, algum tipo de contas dos nossos atos a alguém, por um motivo
ou por outro. Quando jovens, por exemplo, temos que nos reportar (gostemos ou
não) para os pais e/ou professores. Quando adultos, para a esposa; os chefes,
no nosso trabalho; os políticos, para seus eleitores e vai por aí afora. Até os
ditadores têm que se explicar para os que os apóiam e mantêm, sem cuja força e
apoio não se sustentariam no poder sequer por minutos.
Mas não é dessa “vontade” que vou
tratar hoje, nestas descomprometidas reflexões, mas de outra, mais sutil e mais
onipresente do que se pensa, que é a de não se deixar escravizar por nenhum
tipo de vício, seja ele qual for. Raras são as pessoas que não têm
absolutamente nenhum. Se não recorrem às drogas e ao álcool (que reputo os
piores, por afetarem a consciência), são escravas do cigarro, cujos malefícios
todos conhecem e, ainda assim, não conseguem se livrar desse nefasto hábito (é
o meu caso). Ou, então, têm compulsão pelo jogo que, via de regra, lhes
determina a ruína, material e moral. Ou são viciadas em outra coisa qualquer,
por mais inocente e inócua que seja, mas que está acima da sua vontade.
Frise-se que alguns vícios são quase
tão antigos quanto o próprio homem. Ninguém sabe determinar com precisão, por
exemplo, quem foi que fabricou a primeira bebida alcoólica. Bebe-se, de forma
desregrada e compulsiva, creio que desde as cavernas primitivas (quando,
acidentalmente, com certeza, nosso ancestral primitivo fermentou algum cereal,
bebeu a infusão, tomou gosto por ela e... se viciou).
No livro de Gênesis, na Bíblia, há o
relato de um porre homérico de ninguém menos que o patriarca Noé (que inspirou
tanto Michelangelo Buonarroti quanto Giovanni Bellini a pintarem suas preciosas
e conhecidas telas sobre o tema). Tão logo colheu as primeiras uvas que
plantou, após as águas do Dilúvio haverem baixado, esse santo e exemplar homem
produziu, com elas... o vinho. Com certeza, antes dele, a bebida já era
conhecida e, mais, era muito popular e consumida em profusão. Se assim
não fosse, o redator do Gênesis, certamente, teria assinalado esse fato. Noé não
foi, pois, o seu inventor (ou descobridor, como queiram). Embebedou-se e, como
sempre acontece com quem se embriaga, deu vexame. Ficou nu e expôs a nudez ao
filho Cam.
Este (como acontece via de regra com
quem se depara com algum bêbado), fez chacota com a embriaguez do pai. E, por
haver desrespeitado o patriarca (num tempo em que este tinha o poder de vida e
de morte sobre sua prole) foi amaldiçoado por ele, tão logo o porre passou,
maldição esta que teria recaído sobre toda a sua descendência. Alegoria, ou
realidade, trata-se de um dos primeiros registros escritos sobre alcoolismo e seus
nefastos efeitos. Nenhum de nós, portanto, é pleno senhor da vontade. A rigor,
nem pleno e nem parcial. Se houver alguém que o seja (detesto generalizações),
este será uma raridade, digna de admiração e, sobretudo, de imitação.
Pessoas com baixa estima, desajustadas,
rebeldes – daquela rebeldia estúpida, por ser sem causa – são mais propensas às
compulsões, que invariavelmente descambam em vícios. E não se trata,
apenas, de “perdedores”, mas também de homens e mulheres brilhantes, que chegam
a inscrever seus nomes na história, por notáveis obras que produzem. São muitos
os escritores, por exemplo, que se notabilizaram por serem alcoólatras, ou viciados
em drogas, ou tabagistas contumazes. Não os citarei, nominalmente, pela
reverência que me merecem, pelos livros que produziram e que me ilustraram e
ilustram o espírito todos os dias.
Cito, apenas, um notório jogador, que
perdeu fortunas em carteado, nos dados ou na roleta, nos diversos cassinos da
Europa, para a alegria dos proprietários dessas casas de jogos. Refiro-me ao
escritor russo Fedor Dostoievski, autor, entre tantas obras-primas, de livros
como “Crime e Castigo”, “Os Irmãos Karamazov”, “O idiota” e “Recordação da casa
dos mortos”, entre tantos outros.
Em suas cartas, ele procurou, em várias
ocasiões, explicar aos parentes e amigos o inexplicável. Tentou justificar o
que o movia a agir dessa forma, mas, invariavelmente, acabou admitindo (e nem
poderia ser diferente) que seu vício era, na verdade, enorme deficiência de
caráter. Claro que isso não desmerece seu talento e muito menos sua obra.
Cito-o, reitero, somente para exemplificar o quanto um vício, seja lá qual for,
anula nossa vontade a ponto de nos escravizar.
Em sua correspondência com o irmão
Mikhail, datada de setembro de 1863, remetida de Turim, na Itália, por exemplo,
Fedor Dostoievski comenta sua compulsão pelo jogo. Inicia a referida carta
dessa maneira: “Você pergunta em sua carta como um homem pode apostar o seu
último kopek, especialmente quando está viajando com alguém que ama. Permita-me
dizer-lhe, caro Misha, que em Wiesbaden (Alemanha) eu engendrei um sistema de
jogo que testei e me rendeu 10 mil francos”.
E prossegue: “Mas na manhã seguinte, em
meu excitamento, deixei de ater-me ao meu sistema e perdi tudo. À noite voltei
ao meu sistema, ative-me rigorosamente a ele e rapidamente e sem esforço ganhei
novamente 3 mil francos”. E apresenta esta justificativa (esfarrapada, é claro)
do por que jogava: “Agora diga-me, depois de isso acontecer, como é que eu
poderia querer ir embora, como poderia deixar de acreditar que, enquanto fosse
ágil com o meu sistema, a felicidade estaria ao meu alcance? E eu preciso de
dinheiro – para mim, para você, para minha mulher, para capacitar-me a escrever
minha novela”.
Desculpas, desculpas e mais
desculpas... Todo viciado, seja qual for seu vício, invariavelmente, tem uma
engatilhada para justificar sua fraqueza. Claro que, por mais verossímil que
pareça, não justifica coisíssima alguma. Aldous Huxley tenta explicar a
compulsão que descamba em algum vício, em um dos seus romances (não me recordo
qual, mas, provavelmente, é no “Admirável mundo novo”), colocando a seguinte
observação na boca de um dos seus personagens: “A maioria dos homens e mulheres
leva uma vida tão sofredora em seus pontos baixos (e tão monótona, em suas
eminências), tão pobre e limitada, que os desejos de fuga, os anseios para
superar-se, ainda que por uns breves momentos, estão e têm estado sempre entre
os principais apetites da alma”. Como se vê, até explica, mas não justifica.
Somos, pois, senhores absolutos da
nossa vontade? Ou, pelo menos, relativos? Pensamos e fazemos apenas o que
queremos? Não, não e não! Quem faz isso? Apontem-me um, um único desses seres
tão poderosos e autodisciplinados, a ponto de serem auto-suficientes e
dominarem, com total firmeza, suas fraquezas deficiências e paixões, e lhes
apontarei um santo! Da minha parte, confesso, não conheço ninguém que sequer se
aproxime desse padrão.
Boa leitura!
O Editor.
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