sábado, 1 de novembro de 2014

Separatistas e anti-separatistas


* Por Viana Moog

O que temos a fazer é separar o Rio Grande afirma o promotor, olhos postos no prefeito como a pedir aprovação. E como visse que o chefe aprovava com a cabeça, acrescentou: O Norte é o peso morto do Brasil: só dá seca, impaludismo e febre amarela. Mas lembrando-se de que Geraldo era amazonense, procurou suavizar: Aqui o amigo não repare. Que diabo! Já come churrasco e toma chimarrão.

Está bem disse Geraldo, sem jeito. Não se constranja. Fale com toda a franqueza. Mas que vantagem vê você na separação?

Ora, ficávamos livres...

Não, o Rio Grande só ficava muito pequeno interrompe o secretário. Podíamos incorporar Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Precisamos de São Paulo por causa do café e das indústrias.

Ruben Tauben queria também o Rio de Janeiro. Cidade bonita, a mais bonita do mundo. Tinha um tio que conhecia Constantinopla e não a achara tão bonita quanto o Rio. Ele mesmo podia dar o seu testemunho. No centenário tinha ido lá com o tiro-de-guerra.

Karl Wolff procurava interessar-se, mas não conseguia. Um Brasil do Amazonas ao Chuí, limitando-se ao norte com Mampituba ou com o Oiapoque era-lhe indiferente. Ele mesmo não sabia, nem podia compreender como o Brasil chegava a constituir um Estado independente. Por mais que revolvesse a memória, esta só lhe restituía fatos vagos, imprecisos, esfuminhados, coisas da escola, dispersas, desconexas. Primeiro uma data, 1500, depois um nome, Pedro Álvares Cabral, o Seu Cabral das últimas canções carnavalescas; algumas guerras sem importância contra os franceses e os holandeses; o 7 de Setembro, onde aparecia um príncipe de espada desembainhada, cercado de cavaleiros, à margem de um riacho, como no motivo de tapete que acabara de ver na sala de honra do Centro; a guerra do Paraguai, que o Brasil não teria vencido se não fosse a ajuda dos primeiros colonos alemães; o 13 de Maio, que proclamou a libertação da negrada, uma gente que podia afinal de contas continuar escrava e não precisava andar por aí a faltar com respeito aos arianos. Depois, uma série de revoluções, de correrias, de requisições que só serviam para atrapalhar o comércio e a indústria, fruto exclusivo do esforço germânico.

Pois bem, incorporamos o Rio de Janeiro sentenciou o prefeito, pondo termo à discussão.

Sim, mas até agora ninguém me deu ainda as razões por que deva ser feita a separação insiste Geraldo. Que conveniência vêem os senhores em que o Rio Grande, São Paulo, Santa Catarina e o Rio de Janeiro para fazer a vontade aqui ao nosso amigo Tauben devam constituir um estado à parte?
Por favor, o senhor que é engenheiro e entende de números, então não está vendo logo? E o dinheirão que o Norte representa nas nossas despesas, sem entrar com quase nada para a receita? Veja as obras contra o seca?

O prefeito achava agora que talvez não fosse preciso fazer a separação. Eram todos irmãos. Mas opinava que vinte por cento da arrecadação devia tocar ao município. Não era justo que a Coletoria Federal de Blumental arrecadasse perto de 5.000 contos e não ficasse nenhum tostão desse dinheiro para o município.

Nesta altura o agente fiscal resolve intervir.

Quem paga diretamente são efetivamente os estados do Sul. Mas indiretamente quem entra com grande parte desse dinheiro é o Norte.

Mas, como? exclamou o promotor.

Muito simples. Aqui o Karl, que é o dono de uma fábrica de sandálias, sabe bem disso. Ele compra o selo na coletoria e sela as suas sandálias. E quem são os maiores consumidores dos artigos de Wolff & Filhos?

Karl estava neste momento pensando em que essa riqueza do Sul era produto exclusivo do trabalho alemão. Com os colonos alemães é que tinham aparecido as indústrias no Brasil. E considerava com orgulho a ascensão de Blumental, de mera feitoria há cem anos, até o parque industrial que lhe valia o nome de Manchester do Brasil. Tudo trabalho dos alemães, como dizia o pastor: "O que é o Sul do Brasil deve-o ao trabalho alemão. Se fizermos abstração dos alemães, restará uma mísera carcaça." Percebendo que o fiscal se dirigia a ele, Karl despertou, pedindo que repetisse a pergunta.

Quais são os maiores compradores de sandálias de Wolff & Filhos?

É o Norte responde Karl. Para ele o Norte era tudo quanto ficasse situado além do Mampituba.

Não, eu quero saber quais os estados.

Ah, os estados que mais nos compram são Pernambuco, Ceará, Sergipe, Alagoas e Paraíba. Quase toda a nossa produção é remetida para a nossa filial de Recife.

Compreendeu? volve o fiscal, virando-se para o promotor. Feitas as contas, o dinheiro do Norte, que paga, vai aparecer nos orçamentos como arrecadação de Blumental. O que se dá com as sandálias de Wolff & Filhos, meu caro, dá-se com o vinho, com os tecidos e com quase todos os produtos de exportação dos estados do Sul.

Resta ainda averiguar outra questão acode Geraldo. É se, sem o resto do Brasil, o Sul poderia manter esse grau de prosperidade que ostenta atualmente.

Ah, que podia, podia! assegura o promotor.

Tenho minhas dúvidas. Atualmente a exportação dos senhores para os países estrangeiros é diminuta. O verdadeiro mercado consumidor do Rio Grande é o Norte. Ele é que fica com o excedente da produção do mercado interno. Pergunto: teria o Rio Grande à sua disposição os mercados do país, no dia em que se constituísse estado independente?

O promotor vacila. Geraldo, respondendo à própria pergunta, afirmava que não deviam fazer-se ilusões. Na luta de concorrência contra os similares estrangeiros, em igualdade de condições, e os similares dos demais estados, protegidos então por suas tarifas alfandegárias, o Sul seria vencido. Ficaria sem mercado. Teria dentro de pouco tempo, na própria casa, o colapso pelo excesso, com todo o seu cortejo de crises. E havia mais ainda, acrescenta Geraldo, aprofundando a tese que ia desdobrando. Sob certos aspectos até podia sustentar-se que o Norte é que era o sacrificado.

Como? disseram a um tempo o prefeito, o promotor e Karl Wolff, agora interessado na discussão.

Tomo o caso do meu estado, o Amazonas. O nosso mercado normal é o exterior. Os nossos dois produtos quase que exclusivos são a borracha e a castanha. Vão para a Inglaterra, para os Estados Unidos, para Portugal, de quem, em compensação, não podemos comprar nada.

Não compram porque não querem, ora essa é boa! aparteia o promotor, atirando-se para trás na cadeira.

Não, não compramos deles porque somos obrigados a comprar dos senhores, porque a isso nos força o governo, impondo taxas proibitivas aos produtos estrangeiros que possam fazer concorrência à produção dos senhores. Tomo ainda o caso do vinho e do tecido há pouco lembrado por Armando. Acha o senhor que o vinho do Sul é do melhor do que o vinho português, o francês e o italiano? Que acontece? Por causa do imposto nas alfândegas, para se adquirir uma garrafa de vinho português, cujo custo real poderia ser de um ou dois mil-réis, paga-se três e quatro vezes mais. Com o tecido então nem se fala. A casimira inglesa custa os olhos da cara. E qual o resultado de tudo isso? O Norte, que só teria a lucrar com a supressão das tarifas, porque a regra da reciprocidade manda comprar de quem nos compra, está escravizado ao imperialismo das indústrias do Sul. Somos colônias do Sul conclui Geraldo.

Neste momento Karl Wolff tinha chegado a uma conclusão quanto às idéias do engenheiro: o homem era comunista.

Fazemos o que os outros países estão fazendo há mais tempo pontificou o prefeito delicadamente.

Isso é outra questão. Não quero dizer que se proceda de outra maneira e que haja alguma coisa a retificar. Hoje temos um tal amontoado de erros do passado acumulados pelos povos, à nossa revelia, que não há nada mesmo a fazer, senão acompanhar a marcha do mundo.

E o Norte por que não se industrializa? pergunta o promotor, que não queria deixar a discussão parar num ponto em que se sentia derrotado.

Geraldo não respondeu. Apenas deu de ombros, fatigado.

O promotor sentia agora o terreno mais firme. Vendo que Geraldo recuava, tomou novo impulso.
A prosperidade do Sul vem da raça. Somos um povo mais forte e decidido.

Geraldo permanece calado.

Então lá se pode comparar a nossa gente continuou o outro , uma mistura de açorianos, de charruas, de bandeirantes, alemães e italianos, com a mestiçagem do Norte? Note-se: falei em açoriano. Não confundir açoriano com português... É outra coisa. O açoriano é celta... Não, não me venha defender esse pessoal de perna fina e cabeça chata.

Geraldo quis reagir. Pensou, porém, na cena do bolão e continuou calado. Ruben Tauben, que vinha acompanhando distraído a discussão, quando ouviu falar em portugueses, acordou. Agora podia entrar na palestra. Sabia umas anedotas muito engraçadas de portugueses...

Mas o promotor não lhe deu tempo. Gesticulando com os braços curtos e magros, procurava novos aliados contra o engenheiro:

Aqui só dá isso: essa alemoada forte que você está vendo. E batia amigavelmente no ombro de Karl, que procurava fugir à intimidade. Desta gente não sai Antônio Conselheiro, nem Padre Cícero.

E os Muckers? avança Geraldo, sem poder dominar-se. Mas logo se arrepende. Em lugar de atingir o promotor, ia talvez ferir o irmão de Lore.

Era tarde para recuar. Já Karl Wolff intervinha, para explicar que a história dos Muckers estava mal contada. Fora escrita por um padre. Isso bastava para tornar o livro suspeito. O que ele pretendera fora desmoralizar os protestantes, quando entre os Muckers havia muitos católicos. Um livro parcial, cheio de exageros. Os Muckers não haviam sido o que eu dizia. No princípio fora uma simples luta entre colonos em torno da interpretação da Bíblia e de questões de terra. Jacobina queria reparar certas injustiças. Ele sabia, estava bem informado, tinha amigos, rapazes direitos, descendentes de Muckers. A culpa fora do governo, mandando a polícia para resolver o caso pela violência. Os padres também tiveram muita culpa. Os soldados agiram como verdadeiros selvagens. Não foram só os Muckers que mandaram matar e incendiar. Na picada dos portugueses os católicos fizeram o diabo. Acabaram om os protestantes. Mas isso tudo nada seria se não fosse a polícia. Os Muckers apenas se defenderam. Bem se podia ver que os colonos alemães por si mesmos não seriam capazes de barbaridades. Uma vergonha mandar prender os chefes e trancafiá-los nas cadeias de São Leopoldo e Porto Alegre, só porque dirigiam as cerimônias religiosas do Ferrabrás, umas festas inocentes de cantos e orações e leitura da Bíblia! E não havia nada que justificasse a remessa para lá de tantas forças do exército com o fim de chacinar os colonos, como bichos. Degolamentos à vontade. E o pior é que a história nunca seria contada direito. Os que restavam eram poucos e não podiam falar. Ele não queria fazer comparações... Mas o que se dissera contra os Muckers era mais ou menos o que os judeus contavam contra o nacional-socialismo. Pura mentira. Exagero. Eles é que envenenavam tudo. 
Hitler era um homem muito bom.

Armando aprestava-se para contrapontear, quando da porta Ben Turpin vem avisá-lo e a Ruben Tauben de que a roda já se tinha formado e só estava esperando por eles.
Karl Wolff sentiu um alívio. Já era quase meia-noite. Uma noite perdida, pensou. Podia ter ficado em casa, no seu canto, ouvindo no rádio as estações de Berlim. Mas sua mãe é que não devia saber onde estivera. Na certa havia de escandalizar-se quando soubesse que entrara no Centro, aquele antro de jogatina, e passara toda uma noite conversando com tal gente. Agora, felizmente, chegara a oportunidade de retirar-se.

Armando quis pagar a despesa, mas o prefeito não deixou. Não, aquela mesa era dele.

À saída, Becker, todo mesuras, respondeu aos boas-noites, de acordo com a hierarquia: para o prefeito e o fiscal foi uma saudação enfática, calorosa. Para Karl Wolff um pouco mais discreta. Para Geraldo, o secretário e o promotor, uma resposta cansada.

Quando ganharam a praça, o prefeito chega junto de Geraldo e diz:

É preciso preparar os homens da hidráulica. As eleições estão chegando.

Geraldo, sem saber o que havia de responder, apenas pôde murmurar, vago:

Pois não, não há dúvida.

Karl Wolff se aproxima para despedir-se.

Então estamos combinados. Sábado ou domingo, se não chover, podemos fazer a nossa partida.

Um vento forte levanta a poeira da rua. O grupo se dispersa. Ruben Tauben e o fiscal tomam o rumo do Centro. O major, o secretário e o promotor pendem para o ângulo direito da praça. Karl Wolff encaminha-se num passo largo e batido para o fim da rua. O engenheiro se recolhe ao hotel.

(Um rio imita o Reno, capítulo 7, 1938.)


* Escritor, membro da Academia Brasileira de Letras

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