segunda-feira, 3 de junho de 2013

Um aceno emocionado

* Por Daniel Santos


Herdei de meu pai um apego quase avaro por pregos, porcas, parafusos e demais itens de tal natureza, porque – e aqui repito suas costumeiras palavras – “sempre se pode precisar”, do que nunca duvidei.

Graças a esses pequenos acessórios de metal, mantivemos de pé durante décadas a casa de estrutura vacilante, construída numa curva desbarrancada pelas chuvas da estrada que ligava a cidade à sua periferia.

Enquanto lá moramos, ouvíamos à noite a madeira estalando, as dobradiças rangendo, o vento e a chuva uivando pelas frestas. Parecia uma velha roufenha a implorar uma colherzinha, ao menos, do expectorante.

E foi sempre assim! Mas, se a pintura ressecava ou havia infiltrações, meu pai acorria com seu acervo de peças valiosas, muitas catadas na rua, à porta de oficinas mecânicas, para os devidos reparos.

Quando o velho morreu, deixou-me a casa de herança e, embora não se pudesse mais morar nela, vibrei como quem contabiliza grande fortuna. Afinal, ela inteira era uma lição de resistência e acolhimento.

Ainda hoje, mostro a casa aos amigos e elogio os reparos de papai.  Se passo sozinho de carro, paro e observo. Me parece que, com a força do vento, ela se move num aceno a mim. E eu respondo. Emocionado.

* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.


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