Um aceno emocionado
* Por Daniel Santos
Herdei
de meu pai um apego quase avaro por pregos, porcas, parafusos e demais itens de
tal natureza, porque – e aqui repito suas costumeiras palavras – “sempre se
pode precisar”, do que nunca duvidei.
Graças
a esses pequenos acessórios de metal, mantivemos de pé durante décadas a casa
de estrutura vacilante, construída numa curva desbarrancada pelas chuvas da
estrada que ligava a cidade à sua periferia.
Enquanto
lá moramos, ouvíamos à noite a madeira estalando, as dobradiças rangendo, o
vento e a chuva uivando pelas frestas. Parecia uma velha roufenha a implorar
uma colherzinha, ao menos, do expectorante.
E
foi sempre assim! Mas, se a pintura ressecava ou havia infiltrações, meu pai
acorria com seu acervo de peças valiosas, muitas catadas na rua, à porta de
oficinas mecânicas, para os devidos reparos.
Quando
o velho morreu, deixou-me a casa de herança e, embora não se pudesse mais morar
nela, vibrei como quem contabiliza grande fortuna. Afinal, ela inteira era uma
lição de resistência e acolhimento.
Ainda
hoje, mostro a casa aos amigos e elogio os reparos de papai. Se passo sozinho de carro, paro e observo. Me
parece que, com a força do vento, ela se move num aceno a mim. E eu respondo.
Emocionado.
* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e
redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de
São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou
"A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e
"Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o
romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para
obras em fase de conclusão, em 2001.
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