Tempos felizes (4) – Animaizinhos na floresta
* Por
Urda Alice Klueger
(Excerto do livro "Meu cachorro
Atahualpa", publicado em 2010)
Estamos em outra primavera, porém, e muitas dascoisas da primavera
passada estão se repetindo, embora já não haja as construções próximas, onde os
gambás reinavam soberanos. Lá na floresta, no entanto, há muito mais vida do
que a gente consegue ver de dia. Quando a noite cai e se adianta, uma população
invisível de dia anda em plena euforia, namorando, noivando e decerto casando
sob as árvores e fazendo barulho nos fundos de casa. Estou sempre dizendo que
irei comprar uma lanterna para tentar espiar melhor o que se passa lá atrás,
mas ainda não o fiz. O fato é que há um tropel danado de animais de diversos
tamanhos correndo em todas as direções lá atrás, sem a menor preocupação de
pisar de mansinho, e se eu, que sou apenas humana, consigo ouvir aquela
bicharada fazendo seu festival no mato, imaginem só o que ouve Atahualpa, com
seus sensíveis ouvidos caninos!
A coisa funciona mais ou menos assim: eu fico no computador (o
escritório é nos fundos da casa) trabalhando, enquanto Atahualpa dorme
sossegadamente ao meu lado numa das suas camas, até que começa a haver ruídos
de animais. Ao menor estalido de uma patinha pisando num graveto lá na
floresta, ele desperta e dá um primeiro latido de alerta – dependendo dos
ruídos que vão se repetindo e aumentando (alguns animais de porte bem maior que
os que vejo de dia andam por ali à noite. Sei disto pela barulheira que fazem
ao caminharem ou decerto brincarem uns com os outros) Atahualpa aumenta os
latidos que me chamam para prestar atenção ou mesmo os grossos latidos que
pretendem espantar aquela malta dali de perto de casa. Em algum momento, diante
da aflição dele, eu largo o computador e lhe digo:
- Tem bicho, tem, Atahualpa? Tem bicho lá fora?
E então ele muda o tom da voz, e os novos latidos soam com a sonoridade
do badalar de um grande sino, e eu sei que ele está me dizendo:
- Deixa-me ver, deixa-me! Eu sei que tu podes!
E tão sonoros e agoniados são aqueles latidos de quem pede para ser
levado à janela, que eu o pego carinhosamente no colo e o levo para espiar a
noite escura lá fora, onde não se vê nada, mas onde há cheiros que eu não sinto
mas que ele sente, e que seu nariz que parece um periscópio capta com ânsia.
Como tenho trabalho me esperando, depois que ele cheira um pouco a noite
escura, explico-lhe:
- Não é nada, não, Atahualpa! São só os bichinhos da floresta, os
animaizinhos silvestres! – explicação que ele aceita de bom grado e que o
acalma, e então posso pô-lo de novo na cama e continuar o que estava fazendo...
até que um novo estalido ou outro ruído volte a despertá-lo, e então tudo se
repete, às vezes dez ou vinte vezes numa noite, e eu entendo o que ele diz, e
ele entende o que eu digo, e a gente se entende perfeitamente.
Normalmente, lá pela meia noite, ele se aborrece de estar a me pajear ao
computador e resolve que é hora de ir dormir – então se transfere para o nosso
quarto, normalmente para a minha cama, e de lá fica dando uns rosnados
engraçados que dizem:
- Tu não vens dormir? Está na hora, estou cansado!
E eu fico dizendo:
- Já vou, já vou! Espera só mais um pouquinho!
Mas é só quando vou dormir de verdade que ele sossega. Muito
eventualmente aceita dormir na minha cama, ao lado dos meus pés – no geral,
dorme numa cama noturna que preparo para ele perto da minha, usando dois
grandes blocos de espuma daqueles para os quais Rovena costurou as capas, sobre
os quais vai uma antiga coberta de penas que era minha, um travesseiro de
penas, uma manta andina (se é inverno) ou algo mais fresco, se é tempo quente,
e mais algumas coisas, conforme a estação. Vale dizer que Atahualpa veste
camisetas infantis tamanho 4, e que possui diversas, desde regatas até moletons
e blusinha de lã, sem contar as capas de chuva e as capas de feltro que andei
costurando para ele. Uma das capas de chuva a Neide trouxe de um lugar chique
de Curitiba; outra, eu mesma a fiz com um tecido impermeável. Também fiz as
capas de feltro: uma azul, com luas e estrelas amarelas, dentro da qual ele
parece um feiticeiro; e outra amarela, com toda uma paisagem marinha em azul ,
com direito a barquinho à vela navegando nas ondas, gaivotas voando no céu e
peixinhos e cavalo marinho sob as águas.
Claro que ele não usa nada quando o tempo é quente – mas quando esfria
um pouquinho ou um poucão ele aceita a roupa de acordo com aquela temperatura,
desde uma camisetinha regata bem maneira até uma capa de feltro, que às vezes
usa até para dormir.
Disse que ele sossega quando eu vou dormir, mas tal expressão é
relativa. Sossega em relação aos animais que existem nos fundos da casa – fica
extremamente atento, no entanto, com o que acontece no interior deste nosso
pequeno condomínio, onde conhece cada pessoa, cada visitante habitual, os
homens que trabalham na construção de uma casinha, cada cachorro. No decorrer
da noite, basta acontecer algo novo ou que desconhece, como um entregador de
pizza aparecer por aqui, por exemplo, para ele se acordar de imediato, passar
correndo por cima de mim para chegar à janela, abrir a cortina com o focinho e
avisar em altos brados que algo de diferente se passa.
Às vezes faz tal alarde que acabo indo à janela espiar também, mas, no
mais das vezes, já ouvi o barulhinho da moto do rapaz das pizzas ou outro sinal
do que acontece e me limito a dizer, ainda dormindo:
- Está bem, Atahualpa, não é nada. Pode ir dormir, é só o entregador de
pizzas!
Então, parecendo se dar por satisfeito com a minha ciência quanto ao que
ocorre, ele sossega e volta a dormir.
*
Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR
O olfato canino é 300 vezes mais potente que o nosso. A nossa capacidade de cheirar perto da deles beira a anosmia. Linda interação entre vocês dois.
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