Patriotismo à brasileira
* Por Fernando Mariz Masagão
Hoje não
acordei nublado, como vinha acontecendo nas últimas semanas. Hoje levantei
otimista e patriota como a imensa maioria das pessoas. E isso porque hoje é o
dia do jogo de estréia do Brasil na Copa do Mundo. É irresistível falar no
assunto, pelo menos para mim que sou um viciado confesso no ópio comum do Gol.
O país já está quase inteiro em estado de embriaguez coletiva. Bandeirinhas
tremulam para fora dos carros, das casas e prédios, nos muros e nos postes. As
ruas foram enfeitadas. Por todo lado só se vê a bandeira da Seleção Brasileira.
Sim, porque de
acordo com uma amiga minha, o brasileiro pensa que a bandeira com a qual, de
quatro em quatro anos, desafoga o peito oprimido é a bandeira da Seleção. De
fato, é difícil identificar a flâmula verde e loura com qualquer outra coisa,
mesmo com o país. Ela até me confessou que não entendia porque erguiam a
bandeira do time do Pelé na frente de tudo quanto é prédio público. E é
verdade. Se não, qual outra explicação se dá ao fenômeno de só sermos
patriotas, neste grau de ufanismo dionisíaco, quadrienalmente? Segundo o
catedrático de São Januário, o professor José Paulo Lanyi, isso se dá pelo fato
de que só de quatro em quatro anos somos a potência inconteste.
E qual outro
evento nos causa a mesma comoção? O carnaval? O 7 de setembro? A proclamação da
República? O ano novo? Não. A resposta é óbvia. Só na Copa o brasileiro pode
ser desavergonhadamente patriota, porque na Copa temos todos os motivos para tanto.
Querer que esse sentimento aflore em qualquer oportunidade imbecil é querer que
o brasileiro seja burro, e nós não somos.
Muito se fala
na “baixa auto-estima” do brasileiro. Mas o brasileiro é na realidade um
impiedoso autocrítico. E a sua “baixa auto-estima” não passa de vaidade
exacerbada. Uma vaidade sombriamente podada pelas circunstâncias. É a dor
inconsciente do ser e não ser. Isso nos indigna, mas não nos desperta. Seguimos
ao sabor do vento e das piadas. E mesmo que finjamos não sentir, isso tudo nos
espicaça. Toda vez que uma criança come lixo; toda vez que alguém morre sem
socorro numa fila de hospital; enfim, toda vez que fingimos não ver o que 500
anos de ganância e corrupção estúpidas fizeram conosco, a frustração cresce
silenciosa e maligna como um tumor. Por isso dizermos que temos vergonha de ser
brasileiros. Estamos supurando um sentimento de amor ferido, de vaidade
machucada, de decepção. É a face oposta da medalha. A Copa prova isso.
Basta vermos nossas melhores características triunfarem
para comungarmos uma alegria por nosso povo e nossa cultura. Muitos exemplos no
passado poderiam servir como um fator de união tão poderoso para o nosso país
quanto o futebol (e muitos ainda por vir poderão também fazê-lo). Mas para isso
teremos que acordar da ressaca em que vivemos e colocar a mesma paixão e
seriedade que devotamos ao futebol na construção de nossas vidas. Está na hora
do brasileiro se embriagar do Brasil. Me desculpem o patriotismo, ou o
patri-otimismo (não resisto a trocadilhos). Deve ser efeito do ópio.
*Fernando Mariz Masagão é músico, dramaturgo, poeta e colaborador de
publicações online sobre arte, com crônicas e críticas musicais. Guitarrista e
vocalista de bandas de rock'n'roll, tem formação clássica
vigorosa, em cursos de regência sinfônica, apreciação musical e
instrumentação.
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