Educação nas redes sociais
Por Mara Narciso
Quando me aventurei nas salas de bate-papo, os chats eram uma terra de
trogloditas, e toda a sorte de ofensas e palavrões ocorria no aberto diante de
rejeições ou conflitos. Pior era no reservado, mas sem plateia não tinha graça.
Bastava sair da sala e voltar com outro nickname. Mas o gostoso era ficar
conhecido pelo mesmo apelido e fazer amigos. Trago alguns deles desde os idos
de 2001, que conheci no chat Terra, idades, 40/50. Por essa ocasião o ICQ
existia, com seu gritinho rouco que avisava quando uma mensagem chegava. Lento,
era o precursor do Messenger, depois conhecido como MSN. Logo foi possível
postar fotos, ver através de webcam, assim que novas tecnologias foram sendo
incorporadas.
No começo do Orkut, nome do indiano, radicado nos Estados Unidos, dono
do site, só se podia entrar depois de se preencher um cadastro-convite enviado
por um amigo que já participava. Pretendia ser um clube fechado, uma espécie de
granfinos da internet. Virou mania nacional e teve seus dias de glória, como
também conheceu a decadência e há tempos está morrendo. Na época áurea, com
suas comunidades, as pessoas, certas do anonimato, se sentiam livres para
explodir como bem entendessem, sem peias e sem freios. Qualquer desavença era
desculpa para ofensas pesadas. Não havia censura, sendo possível difamação
online, com a maior liberdade, pois o ofendido desaparecia.
Uma vez, na comunidade “Espancadores de Teclados”, que pretendia agregar
pessoas que escreviam, li e comentei um texto no qual vi sinais de déficit de
atenção. Talvez na época eu estivesse com ideia fixa, ou pelo menos predisposta
a pensar nisso, pois tinha escrito um livro sobre o tema, com lançamento
recente. Fui mal interpretada, pois o texto era na primeira pessoa. Resultado:
toda a comunidade ficou contra mim, com falas contundentes. Vi o tamanho do
preconceito que existe contra o diferente. Retruquei, me aborreci, e me
desvinculei. Demorei a retornar ao Orkut, decidida a não mais fazer qualquer
tréplica.
No Facebook existem leis. O usuário sabe que, mesmo com perfil falso,
poderá ser rastreado e descoberto, e que existem normas de civilidade para se
usar na rede. Em tese, todos podem postar o que quiserem, porém, se algum dos
seus contatos se sentir ofendido com seu post ou comentário, o usuário recebe
sanções e suspensões, e dependendo das reincidências poderá ser expulso do
site. Abusos continuam a acontecer, porém em escala menor. Ainda assim, há quem
pense que possa fazer o que bem quiser.
Quando o jornalista Reginauro Silva morreu, seus filhos mantiveram seu
jornal virtual “A província” por algum tempo, lá sendo colocadas homenagens.
Também o seu mural do Facebook recebeu elogios. Algum tempo depois, a família
excluiu seu perfil. Recentemente o também jornalista Eduardo Lima faleceu, e
pouco depois aconteceu o seu aniversário. Muitos contatos, que não sabiam da
morte, enviaram desejos de felicidades, saúde e vida longa. Senti-me
constrangida com o fato, e pergunto: será que ele gostaria que seu perfil
continuasse ativo?
No dia 7 de fevereiro, clico no ícone de aniversários e se abrem pelo
menos meia dúzia, pois tenho 2900 contatos. Lá encontro o nome do saudoso
professor Genaldo Pinto de Oliveira, morto recentemente e que recebeu inúmeras
homenagens por ocasião da sua morte precoce. Vou a sua página e vejo várias
felicitações. Escrevi sobre meu constrangimento com o fato. Patético? Mórbido?
Mas duas pessoas não gostaram e me atacaram. Uma delas disse que eu cuidasse da
minha vida e deixasse a vida dos outros em paz. Embora contrariando a minha
decisão de não retrucar, escrevi que não se tratava de deixar a vida dele em
paz, e sim sua morte. Esse alguém continuou sua cruzada ofensiva, mas eu me
calei. Não preciso vencer discussões. Ele me deletou e bloqueou, mas antes colocou
na página do falecido a minha postagem, tendo o cuidado de retirar os seus
próprios comentários equivocados. Houve quem entrasse na discussão, assustado
com tanta agressividade. Não deletei nada. Estão lá no meu mural, exceto o que
o autor excluiu.
O aborrecimento foi momentâneo, mas
existiu. Online, tenho os mesmos pontos de vista e educação do mundo real.
Posiciono-me sempre, e releio tudo antes de enviar, buscando clareza, mas vejo
que muitos dos que leem e escrevem nas redes sociais, não sabem ler. Vendo o
que não está escrito, tomam as dores de uma situação que não existe. O assunto
está encerrado, mas volto a ele para solicitar ao Facebook que encontre uma
maneira de excluir murais de quem já morreu. Mesmo quando a família desconhece
a senha. Meu pedido pessoal já está na fila.
Todos nós merecemos respeito, vivos ou
mortos. Aprendo com o fato e deixo aqui minha experiência aos demais, embora
aceite outras formas de pensar.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras de Montes Claros e autora
do livro “Segurando a Hiperatividade” – blog http://www.teclai.com.br/
A internet em si ainda não se "conhece" claramente, quanto mais seus códigos de conduta...
ResponderExcluirMuito pertinente sua colocação, Mara. Um grande abraço.
Estou começando a compreender como me comportar diante de explosões. Calar é o melhor caminho. Obrigada pela força de sempre, Marcelo.
ExcluirMara,
ResponderExcluirsobre o assunto " perfil dos mortos" já tínhamos até comentado no seu mural.
Realmente é uma falta de gosto dar parabéns para quem já morreu.
Eu mesma vi duas pessoas da minha lista que , continuavam na lista, e haviam
morrido, recebendo parabéns.
Acho positiva a sua atitude em pedir para excluir " mortos" do Facebook.
Não sabia do ' barraco" virtual que havia acontecido.
Fato é, Mara, que existe muita gente mal educada e recalcada no mundo real e
no mundo facebokiano .
Ainda acho que o problema do mundo é a falta de educação, de comunicação e porque não
dizer, de interpretação. Passando pela " tolerância".
Faz bem em se calar. Na verdade eu " morro de rir" com gente doida, que xinga,
que defende pontos de vista de maneira exagerada.
Nunca me arrependi de ter me calado. Aliás, atitudes no mundo virtual refletem no
mundo real. E vice-versa.
Eu mudei muito depois de passar a conviver virtualmente com as pessoas.
Ganhamos com o silêncio.
Obrigada, Celamar, pela passagem e atenção. Responder aos desaforados, leva ao desabafo momentâneo e uma chateação duradoura. Ganhar a discussão só era indispensável quando eu era uma menina insegura. Agora não preciso mais disso.
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