Faça o que você quiser
* Por Gustavo do Carmo
Dia
desses estava na sala de espera para fazer um exame de função respiratória e
peguei uma revista Quem para ler. A publicação de celebridades tinha uma
matéria sobre a briga da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. Lendo os
detalhes da discussão, li que o Zezé disse para o irmão, que ameaçava se
separar:
- Faça o
que você quiser!
Imediatamente
lembrei da discussão que tive com uma ex-colega de pós-graduação, quando ela
fazia corpo mole para fazer os trabalhos em grupo comigo. Eu me cansei e disse
que ia fazer sozinho. D., vamos chamá-la assim, disse:
- Faça o
que você quiser!
Expressão
de gente que tira o corpo fora. Antes, eu já tinha reclamado quando D., que já
fazia corpo mole junto com outro ex-colega, B. para realizar um trabalho
anterior, combinou com um terceiro ex-colega (N.) sobre o trabalho que eu
queria fazer. Detalhe: depois que eu saí cedo de um dia de faculdade. Enquanto
eu estava na aula, D. se dizia indecisa. Ou seja: ela não queria era fazer
comigo.
Assim, eu
reclamei com D., ameacei sair do grupo e fazer sozinho. Ela disse:
- Faça o
que você quiser.
Como era
esse corpo mole? D. sempre dava um jeito de adiar e até nem combinar o que
fazer nos grupos dos trabalhos. Logo D., que dizia que éramos um grupo. Acho
que quis dizer que o grupo era ela e B., que estou cismado que estão tendo um
relacionamento amoroso.
Bem,
quando eu dizia "Vamos fazer o trabalho?", D. gaguejava e prometia
combinar durante a quinzena de folga. Nesse período, eu mandava e-mails
organizando o grupo e ninguém respondia. Na aula seguinte, D. faltava. Na
outra, o rapaz "namorado" dela. Na terceira, D. de novo. Na quarta,
ela chegou atrasada.
Foi nesta
quarta aula que eu saí cedo e D. combinou o grupo pelas minhas costas. Eu não
ia assistir à aula do professor A. porque estava envergonhado com a bronca que
ele tinha me dado na quinzena anterior. Somente na sexta-feira seguinte que D.
mandou um e-mail coletivo falando do trabalho e materiais que tinham combinado
pelas minhas costas. Me senti traído.
Reclamei,
mas, como sou uma pessoa insegura, fiquei com medo de ser desprezado na
faculdade por eles. Acabei pedindo desculpas. Grande erro.
Fiz o
trabalho sozinho. Tanto eu quanto eles entregamos para dois professores. Me saí
melhor do que eles. Eu acho.
Veio o
meu aniversário. Ninguém me deu parabéns. Estava esperando isso para fazer uma
limpa no meu facebook. Esperei até a manhã do dia seguinte. Nada. Somente à
noite que D. me desejou feliz aniversário. Ainda assim, porque eu tinha
perguntado se ela ia fazer o trabalho da professora G. comigo ou não. Ela disse
a famosa frase.
- Faça o
que você quiser.
Respondi
dizendo que eu cansei de fazer com eles. D. repetiu a frase.
No sábado
da aula da professora G., D. me vem com uma camisa de malha de presente. Só que
o presente não foi pelo meu aniversário. Ela deu também para o
"namorado" B.. Minutos depois, quando G. perguntou como seria o
grupo, D. disse que eu ia fazer sozinho porque eu queria produzir um programa
cultural (era o trabalho prático final) e ela disse que odiava falar de
cultura, com direto a tom de nojo. Me deu uma raiva!
Fui
educado e tentei me juntar a D. e B.. Mas como não entendo nada de política,
tema sobre o qual D. queria produzir, me senti deslocado. Me senti num grupo
falando sânscrito. Resolvi rascunhar sozinho um espelho de um programa
cultural. Só que G. exigiu uma pauta mais completa.
Ora! Como
vou fazer um trabalho de produção, sem a garantia de equipamentos da
desorganizada faculdade e sem saber como solicitar sozinho? Na aula da tarde,
uma prática de apresentação em TV, outra professora, L., mandou formar um grupo
para relembrar o 11 de setembro.
D. mais
uma vez não confiou em mim. E fez com uma outra moça, T.. Eu fiquei com B. e
mais um outro rapaz, U., que ficou inseguro e não conseguiu fazer o papel de
repórter que entrevistaria um dos sobreviventes dos atentados ao World Trade
Center, interpretado pelo "namoradão" de D.. Eu fui o apresentador do
telejornal. Acabei gaguejando. E cuspindo. A professora L. me criticou bastante
e me botou lá em baixo. Disse até que a minha dicção era péssima. Ela tinha
razão. Ah, se eu tivesse aproveitado a oportunidade de mandar tudo pro espaço e
a turma para a merda! E jogar a camisa na cara de D. Semanas depois, dei a
camisa para um jornaleiro de confiança em Copacabana.
Somente
na terça-feira depois desta aula, D. me manda um e-mail me pedindo o endereço
eletrônico da professora L. Desabafei. Ou melhor, explodi. Sem xingamentos,
acusei-a de ter me barrado do grupo da matéria da manhã e que ia largar o curso.
D. respondeu que eu dissera com todas as letras que não ia levar ninguém para a
vida, inclusive ela, que tinha lido um post no meu Twitter, que ela dizia que
nem usava. Mentirosa! Então falou a célebre frase:
- Faça o
que você quiser.
Mais uma
vez errei e pedi desculpas. Insegurança, burrice e infantilidade minha. Em vez
de dizer que aceitava as minhas desculpas, D. respondeu com um frio e-mail,
quase anunciando o namoro com B., falando mil maravilhas dele. Foi mais
calorosa pra isso. Sobre eu anunciar que ia sair definitivamente da
pós-graduação, mesmo faltando apenas uma matéria, o que eu fiz mesmo, D. disse
pela última vez:
- Faça o
que você quiser. E tirou o corpo fora para sempre. Nunca mais falou comigo.
* Jornalista e publicitário de formação e escritor de
coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São
Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos” pela Editora
Multifoco/Selo Redondezas - RJ. Seu
blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores
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