Tradições, contradições 60
* Por Walter
da Silva
A
renúncia de um papa é prerrogativa prevista no direito canônico. O que não se
prevê é quem será a próxima vítima. A história da igreja católica, a única
agremiação cristã original com bilhões de sócios, registra estranhas
ocorrências. De um poder milenar tradicional e tradicionalista, porque
conservador, ela se dá o direito de propor moções imanentes. Uma delas, dentre
as mais recentes é a assunção da mãe de J. Cristo que subiu aos céus material e
espiritualmente.
Pois bem.
Há outras façanhas da liturgia, como exemplo a da transubstanciação. Assisti
muitas, inúmeras vezes a esse rito, posto que a mim era dado um inexplicável
prazer de ler o evangelho do púlpito, em voz alta. A uma antiga companheira de
subúrbio cabia ler a epístola. Em geral, lembro-me bem, os fiéis gostavam muito
de ouvir os textos atribuídos a Paulo, antes Saulo, última testemunha do
messias, sem jamais tê-lo visto. O novo testamento trata-o com subida
reverência, já que renunciara a seu provável agnosticismo, para aderir à nova
filosofia. É uma tênue metamorfose, da água para o vinho, de oito para oitenta.
Aliás,
Paulo ficou tão famoso que no Vaticano é venerado em imagens e outros totens
próprios duma religião que sobrevive até agora. Só não conseguiu ser Papa
porque a turma já havia decidido que Pedro seria o primeiro gestor. A
hierarquia católica é peculiaríssima. É tão representativa e tão levada a
sério, que no início da carreira, um professor universitário, obriga-se a
difundir e inseri-la no programa de Introdução à Administração, como factual
exemplo do fenômeno que denominamos linha/staff. Em miúdos: a cada linha
hierárquica corresponde um poder de cima para baixo, considerando as posições
de assessoramento numa estrutura organizacional, num organograma. Foi dessa
particularidade que surgiu a noção de unidade de comando: dois não devem mandar
em um.
Qualquer estudante do primeiro período sabe disso de olho fechado. Quando lecionava (ou lesionava?) esse fundamento, aceito e consensado pelos pares acadêmicos, fazia-o em nome da ciência e não da importância eclesial. Eu já era agnóstico, mas me portava profissionalmente, segundo o figurino científico. Diga-se por justiça que toda a história e os primórdios da administração contemporânea, jamais se constrangeram de comparar a hierarquização organizacional com a estrutura de cargos na Igreja Católica. Todos sabem que quanto mais poderosa uma corporação, mais crédito se lhe dão os adeptos.
Não sei
exatamente se por medo e extrema reverência, ou simplesmente por
desconhecimento do que seja a verdade organizacional. E o que é a verdade?
Corra ao narrador João e saberá.* Saiamos do campo das abstrações e vamos botar
de novo o pé no chão. Se no mundo organizacional, corporativo, as empresas
seguem regras específicas, na Igreja Católica também são cumpridos estamentos
milenares, dogmáticos, que entre seus “investidores”, devem ser acolhidos.
Afora os detalhes canônicos que por si só impõem obediência e cumprimento
compulsório inquestionável.
Se numa
empresa moderna ocidental, o CEO é alguém escolhido por um colegiado com prazos
e tarefas decididas consensualmente, na Igreja Católica, instituição regida não
somente pelos homens, mas inspiradas no sobrenatural, direitos e deveres são
inegociáveis. A rigor, quem assumir o cargo máximo votado em conclave - que
significa “a portas fechadas” - na eleição para pontífice, estará sujeito às
mesmas normas para desobrigar-se dessa função.
Por determinação colegiada, a assunção do principal administrador, ocorre de forma secreta, como na maçonaria, por exemplo. Com o atenuante de que a articulação política para a eleição de um Papa varia de acordo com as características de uma época. Chefe de si mesmo, o Pontífice, desde que em condições físico-mentais adequadas, prosseguirá ou não sua agenda, usufruindo o direito de esquivar-se diante de algum sério dano pessoal, renunciando ao mandato.
Durante
esses tantos séculos de papado e de hegemonia católica, sabe-se apenas que a
renúncia de se deu em pouquíssimas vezes. A última foi no século quinze. O
atual mandatário, homem que se diferencia do anterior por seu perfil de erudito
e de intelectual produtivo, já não corresponde humanamente às demandas pontuais
do cargo que ocupa. É portador de artrose crônica e este mal o impossibilita de
habilitá-lo ao trato administrativo e pastoral.
Alguns
especialistas atribuem a renúncia do Papa ao atual cenário da imagem negativa
da Igreja, com os casos de acusação de pedofilia por seus membros em alguns
locais do planeta. Outros acreditam que a fórmula de angariar mais prosélitos,
já atingiu seu estertor de difícil reversibilidade. Sem contar com a perda
progressiva deles para as igrejas protestantes, ávidas em arregimentar mais
ovelhas para seus rebanhos.
Hoje, distante dos ritos e do cerimonial idealista da pregação religiosa, me pergunto se vale a pena toda essa algaravia midiática, num mundo em que o sobrenatural perde cada vez mais terreno para o avanço inexorável da pesquisa científica e sua contribuição à sustentabilidade humana.
* Escritor
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