Noé
*
Por Marco Adolfs
Chove
torrencialmente ao longo de todo o rio. O instável período chuvoso
da Amazônia. Céus com nuvens formando lençóis negros. Temporais
fazendo as pessoas acreditarem em um novo dilúvio de Deus.
Na
pequena e insular comunidade ribeirinha, no interior de um igrejinha
toda em madeira, um corpo é velado. Três mulheres exercem o velório
do pequenino morto. Em lágrimas que escorrem acompanhando a
chuva lá fora.
Elas
olham na direção daquele rio encrespado de solidão. Ao
redor, a selva goteja tristemente. No caixão está o corpo de Noé.
Rodeado de flores e velas. Envolvido em um pano grosso que esconde as
pústulas que o mataram. Alheio e livre das dores de todos.
Uma
das mulheres, não aguentando a sua dor, levanta-se e começa a falar
em tom lamentoso.
-
Meu Noé morreu!... Morreu!... E não quero saber que ele seja
enterrado debaixo da terra!... Não quero!... Meu primeiro
filho...Deus!... Tu fostes muito cruel!
E
ajoelha-se ao lado do caixão, debulhando-se em mais lágrimas.
Lá
fora a chuva parece aumentar de intensidade. Uma das mulheres tenta
acalmá-la.
-
Não diga isso, minha irmã...Vem...Se acalme... Deus levou um
anjinho…
-
Não!... Não quero ele embaixo da terra. Deus pode querer. Eu, não.
Disse isso, olhando ainda na direção do rio, lá fora.
A
imensidão líquida daquele lençol de água a afronta. Água
embaixo; água em cima. Um lençol e uma cortina. Suas lágrimas. O
corpo líquido da terra. É quando ela, então, no meio daquele
torrente toda, divisa um barquinho. Vindo na direção da comunidade.
Lento, perdido. Um pontinho.
“É
o barco do velho”, pensa. Ela resolve esperar por aquele barco para
falar com o barqueiro. O velho. Fazer-lhe um pedido. Pagar o bastante
de suas economias, por um pedido ao barqueiro. Ela calcula que irá
demorar uns trinta minutos para o barco aportar.
-
Não pensa assim, mana! – diz uma das irmãs.
-
Estou só esperando aquele barco chegar. A outra irmã então
pergunta, querendo confirmar sobre a sua dúvida.
-
Pra quê?
-
Vou pedir pro barqueiro levar o meu filho para eu jogar no meio do
rio - ela responde.
-
Quero que ele vá para dentro do rio - continua. Que vire água,
também. Que não seja comido por vermes. Mas sim, por peixes. Os
peixes. Uma dádiva. Ele ficou nove meses no meio da água. Quero que
volte a ser livre. Na água. Da água veio, pra água voltará. Nada
de terra.
-
Mas mana!? Não se pode fazer isso! Ficou maluca? Volta-se para a
irmã. Olhar transtornado.
-
Fiquei. E eu posso fazer o que eu quiser com o meu filho. Quem vai
proibir? Não tem nem um padre aqui. Nem o prefeito. Todos estão
desaparecidos. Os outros todos dentro de suas casas, recolhidos. Ele
morreu em casa. E vocês fiquem caladas, viu!
O
barco aporta. Ela pega o corpo do filho e desce a barranca, seguida
pelas irmãs. Todas choram. Molham-se. O barqueiro recebe o dinheiro,
acomoda as três mulheres e mais o pequeno defunto. Começa a
manobrar o barco. E parte levando a todos. Na direção do meio do
rio.
A
chuva não para. O rio não para. A vida e a morte não param.
-
O senhor também, não conte nada a ninguém - a mãe diz, para o
velho barqueiro. Que balança a cabeça, concordando.
Em
determinado momento o barco a motor então para. O rio e a chuva
parecem esperar. Maria, a mãe, levanta-se com o pequeno corpo em
seus braços. Todas continuam chorando. Impossível parar. O
barqueiro fuma. Ela então se aproxima da popa do barco. Naquele
momento é difícil o equilíbrio, face aos banzeiros.
-
Para o rio, meu filho! - ela diz, antes de jogar o corpo do pequeno
Noé. Que flutua por alguns segundos, antes de desaparecer no corpo
tormentoso do rio.
O
ribombar de um trovão faz tremer a todos, de
susto. E todos partem. De volta ao porto.
* Formado em jornalismo, é
roteirista, escritor, produtor e diretor de televisão. Atualmente
trabalha na TV Cultura do Amazonas, produzindo documentários sobre
temas regionais e sociais. Nas horas vagas, escreve romance e contos.
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