Apropriação
de personagens
O
que você acha da nova tendência que começa a se manifestar na
literatura, de um determinado escritor se apropriar de personagens
criados por outro, embora (como seria de se esperar) tenha estilo
muito diferente do que os criou? Da minha parte, não gosto.
Considero, até, como uma espécie de plágio. Além do que, revela
falta de imaginação para criar seus próprios tipos. Mas,
acompanhando o noticiário do mundo das letras, fiquei sabendo de
pelo menos dois casos desses, e não de apenas um, revivendo
personagens famosos e já consagrados.
Na
Inglaterra, por exemplo, o personalíssimo detetive Sherlock Holmes
volta à ativa, vivendo novas aventuras de mistério e de suspense,
mas, desta vez, não através da pena hábil e inspirada de seu
criador, o escritor Arthur Conan Doyle, mas de seu compatriota e
admirador Anthony Horowitz. O romance, com esse ícone das histórias
policiais foi
lançado em setembro de 2011. O livro, que ainda não tem título em
português, provavelmente
vendeu bastante, até em
decorrência da curiosidade. Leitores compulsivos de Conan Doyle,
entre os quais me incluo, certamente leram
ou irão ler a história
do “renascimento” de Sherlock Holmes em busca de semelhanças e
diferenças do original.
Posso
estar sendo muito severo e radical. É bem possível que os leitores
discordem da minha opinião (o que, aliás, é bastante saudável,
desde que essa discordância ocorra em alto nível, de forma educada
e respeitosa), mas considero a atitude de Horowitz, escritor bastante
jovem (tem 53
anos de idade), uma grande apelação. É verdade que ele não se
apropriou, sem mais e nem menos, do célebre personagem, mas obteve
autorização para agir assim dos detentores dos direitos autorais de
Conan Doyle. Ainda assim... Está aí um bom assunto, suficientemente
polêmico, para vocês opinarem.
Mas
não foi,
apenas, Sherlock Holmes a
ser “ressuscitado”, na
indefectível companhia do seu excêntrico e fidelíssimo parceiro, o
Doutor Watson. James Bond, o acrobático e cheio de truques agente
007, criado pelo também britânico Ian Fleming, teve,
igualmente, esse “privilégio” (ou seria “desgosto”?). O
escritor que escreveu
um novo romance, contando suas aventuras, é o norte-americano
Jeffery Deaver. Este livro, ao contrário do de Horowitz, tem
o título de
“Carte Blanche”. Foi
lançado, simultaneamente, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos no
mesmo dia (se não fosse, aliás, não seria simultâneo, não é
mesmo?), em 26 de maio de 2011. As editoras, porém, foram
diferentes. No reino da Rainha Elizabeth II, é a Hodder &
Stoughton. Já na terra de Tio Sam, a publicação ficou a cargo da
Simon & Schuster.
Jeffery,
a exemplo de Horowitz, também contou
com a autorização dos detentores dos direitos autorais de Ian
Fleming. Mas há uma diferença entre ambos. O primeiro, foi apenas
“autorizado”. Ou seja, tomou sozinho a iniciativa de reviver o
Sherlock. Já Deaver ressuscitou
James Bond a pedido da família de seu criador. E o agente 007 vive
sua nova aventura na localidade da moda atual, ou seja, em Dubai, nos
Emirados Árabes.
Aliás,
recentemente, Sebastian Faulks já trouxe o espião cheio de truques
do serviço secreto britânico de volta, no livro “Devil Mary
Care”, que logo, logo estará nas telas do cinema. A bem da
verdade, embora ninguém tenha informado a respeito, estou certo de
que o enredo de Jeffery logo, logo, também ganhará sua versão
cinematográfica.
No
caso do excêntrico detetive inglês, Horowitz observou, em recente
entrevista que concedeu à rede BBC de rádio e televisão, em
Londres: “Apaixonei-me pelas histórias de Sherlock Holmes quando
tinha 16 anos e eu as leio e releio desde então muitas vezes”. O
escritor, porém, assumiu solene compromisso com os amantes deste
conhecidíssimo (e amado) personagem: “O Holmes será exatamente o
Holmes dos livros de sir Arthur Conan Doyle. Não quero tomar
liberdade com um personagem tão icônico”.
Mas
isto é possível? Afinal, os contextos e circunstâncias de vida dos
dois escritores são absolutamente diferentes. E, por consequência,
as mentalidades de ambos. Conan Doyle viveu em uma Inglaterra
poderosa, governada pela Rainha Vitória, que centralizava um império
“onde o sol jamais se punha”.
Horowitz\,
por seu turno, nasceu e vive num país que perdeu muito da sua
importância internacional, que agora se restringe, praticamente, à
sua ilha e um ou outro território fora dela . Está longe, muito
longe, de ser a potência que já foi. Teve que abrir mão de
praticamente todas suas colônias, que, a rigor, sustentavam seus
luxos e extravagâncias no passado.
Da
minha parte (e não me entendam mal, não quero me comparar nem a Ian
Fleming e muito menos a Conan Doyle), não gostaria que ninguém, por
mais talentoso que seja e por melhores que sejam suas intenções a
meu respeito, se apropriasse de personagens que já criei, estou
criando e que ainda vou criar. Que cada qual invente suas histórias,
e seus protagonistas, sem se apropriar das ideias
de ninguém (e principalmente das minhas que, embora canhestras, são
muito íntimas e particulares). Mas que Deaver e Horowitz têm tudo
para faturar alto e engordar ainda mais suas respectivas contas
bancárias, ah, isso têm de fato, não dá para negar.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Não sabia dessa moda de apropriação indevida ou devida.
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