Os biógrafos e a biografia
* Por
Luís Viana Filho
Na biografia como na
história, muitos fatores concorrem para a precariedade e a falibilidade dos
julgamentos e das observações na pesquisa da verdade em torno duma vida. Se os
indivíduos mudam e são contraditórios, os biógrafos, diferentes entre si - como
são todos os homens - jamais conseguirão ver e julgar de maneira igual
determinado fato. Incapaz de sair de dentro de si próprio, incapaz de se
despojar do seu "eu", cada biógrafo o apreenderá através do seu
temperamento, e este, afinal, acabará por se refletir sobre o seu trabalho.
Ainda mais: em conseqüência dessas diferenças, que separam um biógrafo de
outro, aquilo que um terá como essencial, outro talvez julgue supérfluo, ou
secundário. Daí as divergências, as discordâncias, as discussões. Poderemos pender
para este ou aquele lado, julgar melhor esta ou aquela interpretação, preferir
esta ou aquela biografia. Mas, ser-nos-á dado afirmar, com segurança, que a
verdade está aqui e não ali?
Para fixar as maneiras
diferentes por que o mesmo acontecimento pode ser visto por duas pessoas,
Anatole France lembra o episódio evocado por Louis Bordeau sobre o sucedido a
Walter Raleigh, que, preso na Torre de Londres, se ocupava em escrever a
segunda parte da sua "História do mundo." Interrompido certo dia pela
barulho duma querela, que se iniciava sob as janelas da prisão, Raleigh
acompanhou com o olhar atento os incidentes da briga e acreditou tê-la fixado
perfeitamente. No dia seguinte, tendo conversado sobre o ocorrido com um dos
seus amigos, também testemunha do fato, e que nele havia até tomado parte
ativa, foi por ele contestado em todos os pontos. Refletindo então sobre a
dificuldade de conhecer a verdade sobre os acontecimentos remotos, quanto se
pudera enganar sobre o que ocorria sob as suas vistas, lançou ao fogo o
manuscrito da sua história.1
Não aconselhamos aos
historiadores que queimem as suas histórias, nem aos biógrafos que atirem ao
fogo as suas biografias. Até porque, no episódio, se há verdade, há também
exagero. Desejamos apenas mostrar quanto terá de ser relativa a verdade contida
em qualquer biografia, que represente tentativa de interpretação e compreensão
duma vida, pois será bem pouco provável conseguirem dois autores percorrer
sempre o mesmo caminho e chegar a conclusões idênticas.
Nem é outra, aliás, a
causa, pela qual vemos o mesmo homem ser julgado de modos inteiramente diversos
por autores perfeitamente honestos e sequiosos de encontrarem a verdade. Quem
se poderia esquecer, no assunto, de Maquiavel, que sugeriria a um dos seus
biógrafos, possivelmente atormentado ante a incógnita, a afirmação de não haver
"um grande assunto sobre o qual o acordo tenha sido possível"?2 Não
nos mostra Scherer como Ranke, Gervinus, Macaulay e Frank jamais se puderam
conciliar em torno da personalidade do autor de O Príncipe?3 Aliás, é o mesmo
Scherer quem, falando de Sainte-Beuve, recorda que "ele sentia que todo
julgamento é necessariamente parcial e provisório, e que o único meio de o
tornar menos imperfeito é retificá-lo, completá-lo, e, para isso, a ele voltar,
uma vez, duas vezes, ininterruptamente".4 Mas, por mais que o biógrafo
volte sobre os seus próprios passos e retome a figura do biografado,
estudando-a e analisando-a nessa ânsia de se aproximar o mais possível dum
ideal de verdade e de perfeição, jamais alcançará deixar de vê-la e julgá-la
despido do seu temperamento, da sua maneira de encarar as coisas e os homens.
Disso, exemplo típico é o de Metternich, em torno de cuja personalidade se
desavêm escritores franceses, austríacos e alemães, todos eles possivelmente
honestos, mas involuntariamente dominados pelo meio, que lhes formou a
mentalidade.
Como escrevemos de
certa feita, os biógrafos são vidros de graus diferentes. Graus representados
pela maneira de sentir e compreender de cada qual, e que se reflete em qualquer
trabalho histórico, pois ninguém pode fugir a essa contingência. Por isso,
Voltaire, a propósito das críticas de Nordberg, ex-capelão do rei, à Histoire
de Charles XII, escrevia a Schulenbourg: "Tenho medo, na verdade, que o capelão
tenha algumas vezes visto as coisas com olhos diferentes daqueles dos
ministros, que me forneceram os meus materiais".5
E é justamente pelo
fato de ver "com olhos diferentes" que cada biógrafo, se confrontado
com qualquer outro, transmite imagens distintas. Do mesmo modo que máquinas
fotográficas munidas de lentes de refração diversa produzirão da mesma imagem
fotografias desiguais. Realmente, em última análise, quando lemos uma biografia
não fazemos mais do que ver a vida duma personalidade através dum biógrafo, e
com todas as deformações, coloridos, restrições, e omissões daí decorrentes. E
isso embora o biógrafo busque interferir o menos possível e se esforce,
sinceramente, para não alterar a imagem do biografado, tal como tenha existido.
De qualquer forma,
porém, o autor estará sempre presente, e a biografia sofrerá dele o reflexo do
seu temperamento. Littré, falando do perfil de Plutarco feito por Amyot, lembra
esta opinião de Sacy: "Amyot não tomou a fisionomia de Plutarco: deu-lhe a
sua".6 E, com intensidade maior, ou menor, é o que acontece em todas as
biografias. Poderemos, no entanto, dizer que o perfil de Plutarco esboçado por
Amyot é menos verdadeiro do que o traçado por Langhorne ou Ricard? De que
elementos disporíamos para afirmá-lo?
Realmente, essa
diversidade nos modos de considerar e ver uma individualidade constitui
contingência inseparável da biografia. Umas poderão aproximar-se entre si e ter
pontos de semelhança; outras diferirão inteiramente. E todas poderão ser
honestas e representar trabalho de pesquisa e de investigação. Lemaître,
externando-se sobre divergências profundas em torno de Napoleão, não se eximia
de escrever: "Isso prova apenas que há duas maneiras de se representar a
pessoa e a obra de Napoleão. E há uma terceira, mitigada e temperada: a de
Thiers. Há uma quarta. Há outras. Há mesmo a do velho Dupin, esse
"chevreuil" dos vaudevilistas, a quem se perguntava se vira o
imperador: "Sim, respondia, eu o vi. Era gordo, de aspecto comum."
Nada mais. "E todas essas maneiras são boas", conclui Lemaître.7
Porventura, seria aquele velho Dupin, para quem o Imperador não passava dum
homem gordo e de aspecto comum, menos sincero do que Heine, e cuja imaginação
ficaria até à velhice impressionada pela figura de Napoleão, que vira na infância?
Poder-se-ia mesmo dizer que qualquer deles fosse mais verdadeiro do que o
outro, ou teremos de reconhecer que, apenas, graças a uma divergência de
temperamentos, cada qual vira "com olhos diferentes"?
Isso não significa a
inexistência da verdade ou que não a devamos procurar infatigavelmente. Até
porque, aproximar-se dela o mais possível é a primeira tarefa do biógrafo.
Revela, porém, que além de não possuirmos um ponto de referência capaz de nos
proporcionar a certeza de a havermos encontrado, ela ficará sempre sujeita à
interpretação e às mutilações decorrentes da tendência do biógrafo. Pierron diz
de Tácito que "em toda a parte, e sempre, ele acredita no mal: é a sua
regra".8
Macaulay afirma não
haver retrato que seja igual ao original. É o que também sucede nas biografias.
Mas, ele próprio, ante essa intangibilidade da perfeição, nos aconselha:
"Assim como não há retrato que nos possa oferecer a verdade em toda a
extensão da palavra, também não há história que esteja nesse caso; mas sempre serão
os melhores retratos e as melhores narrativas aquelas nas quais certas partes
da verdade se nos apresentem de tal modo que produzam da melhor maneira o
efeito do conjunto".9 Cabe, porém, acrescentar que assim como um retrato
nunca será perfeitamente igual ao original, oferecendo-nos a verdade em toda a
extensão da palavra, também jamais dois retratos, ou duas biografias, por
autores diferentes, serão iguais entre si. Ambos, no entanto, poderão ser
honestos, pois o que ressai dessa variedade e diversidade, que existem até
entre biógrafos igualmente informados e escrupulosos, é justamente a
impossibilidade de vermos qualquer fato, e reproduzi-lo, senão através das
nossas idéias e dos nossos sentimentos.
Realmente, sendo
impossível reproduzir-se integralmente a vida de um homem, enquanto um biógrafo
dará maior relevo a este ou a aquele aspecto, outro acentuará passagens
diferentes, embora ambos conheçam perfeitamente o assunto e tenham a convicção
e a preocupação de se subordinarem à verdade. E como poderia deixar de ser
assim se em cada biografia se terá de refletir, com maior ou menor intensidade,
o próprio temperamento do autor?
Aliás, nesse estudo da
variação dos nossos julgamentos sobre a mesma individualidade, é necessário
observar-se a influência exercida pelo tempo. Não só pelos novos elementos,
que, por vezes, nos proporciona, senão também pela ação que exerce em nossa
maneira de considerar a vida de qualquer homem. De fato, três fatores,
principalmente, concorrem para modificar, através do tempo, o juízo sobre
determinada personalidade: a) aparecimento de novos documentos; b) ampliação da
perspectiva; c) alteração dos nossos critérios de julgamento.
Portanto, excetuado o
primeiro caso, no qual a imagem do biografado, tal como emerge dos documentos,
sofre substancial modificação devido ao concurso de novas informações, nos
demais varia, apenas, a nossa visão, ou o nosso critério.
[...]
1. A. France, Oeuvres
Complètes, VI, p. 440.
2. Gautier de Vignal,
Maquieval, p. 7.
3. Scherer, ob. cit.,
VI, p. 99.
4. Scherer, ob. cit.,
IV, p. 110.
5. Voltaire, ob. cit.,
p. 6.
6. Littré, Littérature
et Histoire, p. 59.
7. Lemaître, ob. cit.,
IV, p. 185.
8. Pierron, Histoire
de la Littératire Romaine, p. 598.
9. Macaulay, Vida de
políticos ingleses, p. 348.
(A verdade na
biografia, capítulo IV, 1945.)
*
Político e historiador, membro da Academia Brasileira de Letras.
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