Como e porque sou romancista
* Por
José de Alencar
[...]
Foi essa leitura
contínua e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito
a tendência para essa forma literária que é entre todas a de minha predileção?
Não me animo a resolver esta questão psicológica, mas creio que ninguém contestará
a influência das primeiras impressões. Já vi atribuir o gênio de Mozart e sua
precoce revelação à circunstância de ter ele sido acalentado no berço e criado
com música. Nosso repertório romântico era pequeno; compunha-se de uma dúzia de
obras, entre as quais primavam a Armanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas,
Celestina e outros de que já não me recordo.
Esta mesma escassez, e
a necessidade de reler uma e muitas vezes o mesmo romance, quiçá contribuiu
para mais gravar em meu espírito os moldes dessa estrutura literária, que mais
tarde deviam servir aos informes esboços no novel escritor.
Mas não tivesse eu
herdado de minha santa mãe a imaginação de que o mundo apenas vê as flores,
desbotadas embora, e de que eu somente sinto a chama incessante, que essa leitura
de novelas mal teria feito de mim um mecânico literário, desses que escrevem
presepes em vez de romances.
O primeiro broto da
semente que minha boa mãe lançara em meu espírito infantil, ignara dos
desgostos que preparava a seu filho querido, veio dois anos depois.
Entretanto é preciso
que lhe diga. Se a novela foi a minha primeira lição de literatura, não foi ela
que me estreou na carreira de escritor. Esse título cabe a outra composição,
modesta e ligeira, e por isso mesmo mais própria para exercitar um espírito
infantil.
O dom de produzir, a
faculdade criadora, se a tenho, foi a charada que a desenvolveu em mim, e eu
teria prazer em referir-lhe esse episódio psicológico, se não fosse o receio de
alongar-me demasiado, fazendo novas excursões fora do assunto que me propus.
[...]
Um ano depois parti
para São Paulo, onde ia estudar os preparatórios que me faltavam para a
matrícula no curso jurídico.
Com a minha bagagem,
lá no fundo da canastra, iam uns cadernos escritos em letra miúda e conchegada.
Era o meu tesouro literário.
Ali estavam fragmentos
de romances, alguns apenas começados, outros já no desfecho, mas ainda sem
princípio.
De charadas e versos,
nem lembranças. Estas flores efêmeras das primeiras águas tinham passado com
elas. Rasgara as páginas dos meus canhenhos e atirara os fragmentos no
turbilhão das folhas secas das mangueiras, a cuja sombra folgara aquele ano
feliz de minha infância.
Nessa época tinha eu dois moldes para o
romance.
Um merencório, cheio
de mistérios e pavores; esse, o recebera das novelas que tinha lido. Nele a
cena começava nas ruínas de um castelo, amortalhadas pelo baço clarão da lua;
ou nalguma capela gótica frouxamente esclarecida pela lâmpada, cuja luz
esbatia-se na lousa de uma campa.
O outro molde, que me
fora inspirado pela narrativa pitoresca de meu amigo Sombra, era risonho,
loução, brincado, recendendo graças e perfumes agrestes. Aí a cena abria-se em
uma campina, marchetada de flores, e regada pelo sussurrante arroio que a
bordava de recamos cristalinos.
Tudo isto, porém, era
esfumilho que mais tarde devia apagar-se.
A página acadêmica é
para mim, como para os que a viveram, riquíssima de reminiscências, e nem podia
ser de outra forma, pois abrange a melhor monção da existência. Não tomarei
dela, porém, senão o que tem relação com esta carta.
Ao chegar a S. Paulo
era eu uma criança de treze anos, cometida aos cuidados de um parente, então
estudante do terceiro ano, e que atualmente figura com lustre na política e na
magistratura.
Algum tempo depois de
chegado, instalou-se a nossa república ou comunhão acadêmica à Rua de São
Bento, esquina da Rua da Quitanda, em um sobradinho acachapado, cujas lojas do
fundo eram ocupadas por quitandeiras.
Nossos companheiros
foram dois estudantes do quinto ano; um deles já não é deste mundo; o outro
pertence à alta magistratura, de que é ornamento. Naqueles bons tempos da
mocidade, deleitava-o a literatura, e era entusiasta do Dr. Joaquim Manuel de
Macedo, que pouco havia publicara o seu primeiro e gentil romance - A
Moreninha.
Ainda me recordo das
palestras em que o meu companheiro de casa falava com abundância de coração em
seu amigo e nas festas campestres do romântico Itaboraí, das quais o jovem
escritor era o ídolo querido.
Nenhum dos ouvintes bebia esses pormenores com
tamanha avidez como eu, para quem eram eles completamente novos. Com a timidez
e o acanhamento de meus treze anos, não me animava a intervir na palestra;
escutava à parte; e por isso ainda hoje tenho-as gravadas em minhas
reminiscências, a estas cenas do viver escolástico.
Que estranho sentir
não despertava em meu coração adolescente a notícia dessas homenagens de
admiração e respeito tributadas ao jovem autor da Moreninha! Qual régio diadema
valia essa auréola de entusiasmo a cingir o nome de um escritor?
Não sabia eu então que
em meu país essa luz que dizem glória, e de longe se nos afigura radiante e
esplêndida, não é senão o baço lampejo de um fogo de palha.
[...]
Naquele tempo o
comércio dos livros era como ainda hoje artigo de luxo; todavia, apesar de mais
baratas, as obras literárias tinham menor circulação. Provinha isso da escassez
das comunicações com a Europa, e da maior raridade de livrarias e gabinetes de
leitura.
Cada estudante, porém,
levava consigo a modesta previsão que juntara durante as férias, e cujo uso
entrava logo para a comunhão escolástica. Assim correspondia S. Paulo às honras
de sede de uma academia, tornando-se o centro do movimento literário.
Uma das livrarias, a
que maior cabedal trazia à nossa comum biblioteca, era a de Francisco Otaviano,
que herdou do pai uma escolhida coleção das obras dos melhores escritores da
literatura moderna, a qual o jovem poeta não se descuidava de enriquecer com as
últimas publicações.
Meu companheiro de
casa era dos amigos de Otaviano, e estava no direito de usufruir sua opulência
literária. Foi assim que um dia vi pela primeira vez o volume das obras
completas de Balzac, nessa edição em folha que os tipógrafos da Bélgica
vulgarizam por preço módico.
[...]
Tendo meu companheiro
concluído a leitura de Balzac, a instâncias minhas, passou-me o volume, mas
constrangido pela oposição de meu parente, que receava essa diversão.
Encerrei-me com o
livro, e preparei-me para a luta. Escolhido o mais breve dos romances, armei-me
do dicionário, e tropeçando a cada instante, buscando significados de palavra
em palavra, tornando atrás para reatar o fio da oração, arquei sem esmorecer
com a ímproba tarefa. Gastei oito dias com a Grenadière, porém um mês depois
acabei com o volume de Balzac; e no resto do ano li o que então havia de
Alexandre Dumas e Alfredo de Vigny, além de muito de Chateaubriand e Victor
Hugo.
[...]
Foi somente em 1848
que ressurgiu em mim a veia do romance. Acabava de passar dois meses em minha
terra natal. Tinha-me repassado das primeiras e tão fagueiras recordações da
infância, ali nos mesmos sítios queridos onde nascera.
Em Olinda, onde
estudava o meu terceiro ano, e na velha biblioteca do Convento de S. Bento a
ler os cronistas da era colonial, desenhavam-se a cada instante, na tela das
reminiscências, as paisagens do meu pátrio Ceará.
Eram agora os seus
tabuleiros gentis; logo após as várzeas amenas e graciosas; e por fim as matas
seculares que vestiam as serras como a arazoia verde do guerreiro tabajara.
E através destas
também esfumavam-se outros painéis, que me representavam o sertão em todas as
suas galas de inverno, as selvas gigantes que se prolongam até os Andes, os
rios caudalosos que avassalam o deserto, e o majestoso S. Francisco
transformado em um oceano, sobre o qual eu navegara um dia.
Cenas estas que eu
havia contemplado com olhos de menino de dez anos antes, ao atravessar essas
regiões em jornada do Ceará à Bahia; e que agora se debuxavam na memória do
adolescente, e coloriam-se ao vivo com as tintas frescas da palheta cearense.
Uma coisa vaga e
indecisa, que devia parecer-se com o primeiro broto do Guarani ou de Iracema,
flutuava-me na fantasia. Devorando as páginas dos alfarrábios de notícias
coloniais, buscava com sofreguidão um tema para o meu romance; ou pelo menos um
protagonista, uma cena e uma época.
[...]
(Como
e por que sou romancista)
*
Advogado, jornalista, político, orador, romancista e teatrólogo, membro da
Academia Brasileira de Letras.
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