domingo, 17 de janeiro de 2016

Os biógrafos e a biografia

* Por Luís Viana Filho


Na biografia como na história, muitos fatores concorrem para a precariedade e a falibilidade dos julgamentos e das observações na pesquisa da verdade em torno duma vida. Se os indivíduos mudam e são contraditórios, os biógrafos, diferentes entre si - como são todos os homens - jamais conseguirão ver e julgar de maneira igual determinado fato. Incapaz de sair de dentro de si próprio, incapaz de se despojar do seu "eu", cada biógrafo o apreenderá através do seu temperamento, e este, afinal, acabará por se refletir sobre o seu trabalho. Ainda mais: em conseqüência dessas diferenças, que separam um biógrafo de outro, aquilo que um terá como essencial, outro talvez julgue supérfluo, ou secundário. Daí as divergências, as discordâncias, as discussões. Poderemos pender para este ou aquele lado, julgar melhor esta ou aquela interpretação, preferir esta ou aquela biografia. Mas, ser-nos-á dado afirmar, com segurança, que a verdade está aqui e não ali?

Para fixar as maneiras diferentes por que o mesmo acontecimento pode ser visto por duas pessoas, Anatole France lembra o episódio evocado por Louis Bordeau sobre o sucedido a Walter Raleigh, que, preso na Torre de Londres, se ocupava em escrever a segunda parte da sua "História do mundo." Interrompido certo dia pela barulho duma querela, que se iniciava sob as janelas da prisão, Raleigh acompanhou com o olhar atento os incidentes da briga e acreditou tê-la fixado perfeitamente. No dia seguinte, tendo conversado sobre o ocorrido com um dos seus amigos, também testemunha do fato, e que nele havia até tomado parte ativa, foi por ele contestado em todos os pontos. Refletindo então sobre a dificuldade de conhecer a verdade sobre os acontecimentos remotos, quanto se pudera enganar sobre o que ocorria sob as suas vistas, lançou ao fogo o manuscrito da sua história.1

Não aconselhamos aos historiadores que queimem as suas histórias, nem aos biógrafos que atirem ao fogo as suas biografias. Até porque, no episódio, se há verdade, há também exagero. Desejamos apenas mostrar quanto terá de ser relativa a verdade contida em qualquer biografia, que represente tentativa de interpretação e compreensão duma vida, pois será bem pouco provável conseguirem dois autores percorrer sempre o mesmo caminho e chegar a conclusões idênticas.

Nem é outra, aliás, a causa, pela qual vemos o mesmo homem ser julgado de modos inteiramente diversos por autores perfeitamente honestos e sequiosos de encontrarem a verdade. Quem se poderia esquecer, no assunto, de Maquiavel, que sugeriria a um dos seus biógrafos, possivelmente atormentado ante a incógnita, a afirmação de não haver "um grande assunto sobre o qual o acordo tenha sido possível"?2 Não nos mostra Scherer como Ranke, Gervinus, Macaulay e Frank jamais se puderam conciliar em torno da personalidade do autor de O Príncipe?3 Aliás, é o mesmo Scherer quem, falando de Sainte-Beuve, recorda que "ele sentia que todo julgamento é necessariamente parcial e provisório, e que o único meio de o tornar menos imperfeito é retificá-lo, completá-lo, e, para isso, a ele voltar, uma vez, duas vezes, ininterruptamente".4 Mas, por mais que o biógrafo volte sobre os seus próprios passos e retome a figura do biografado, estudando-a e analisando-a nessa ânsia de se aproximar o mais possível dum ideal de verdade e de perfeição, jamais alcançará deixar de vê-la e julgá-la despido do seu temperamento, da sua maneira de encarar as coisas e os homens. Disso, exemplo típico é o de Metternich, em torno de cuja personalidade se desavêm escritores franceses, austríacos e alemães, todos eles possivelmente honestos, mas involuntariamente dominados pelo meio, que lhes formou a mentalidade.

Como escrevemos de certa feita, os biógrafos são vidros de graus diferentes. Graus representados pela maneira de sentir e compreender de cada qual, e que se reflete em qualquer trabalho histórico, pois ninguém pode fugir a essa contingência. Por isso, Voltaire, a propósito das críticas de Nordberg, ex-capelão do rei, à Histoire de Charles XII, escrevia a Schulenbourg: "Tenho medo, na verdade, que o capelão tenha algumas vezes visto as coisas com olhos diferentes daqueles dos ministros, que me forneceram os meus materiais".5

E é justamente pelo fato de ver "com olhos diferentes" que cada biógrafo, se confrontado com qualquer outro, transmite imagens distintas. Do mesmo modo que máquinas fotográficas munidas de lentes de refração diversa produzirão da mesma imagem fotografias desiguais. Realmente, em última análise, quando lemos uma biografia não fazemos mais do que ver a vida duma personalidade através dum biógrafo, e com todas as deformações, coloridos, restrições, e omissões daí decorrentes. E isso embora o biógrafo busque interferir o menos possível e se esforce, sinceramente, para não alterar a imagem do biografado, tal como tenha existido.

De qualquer forma, porém, o autor estará sempre presente, e a biografia sofrerá dele o reflexo do seu temperamento. Littré, falando do perfil de Plutarco feito por Amyot, lembra esta opinião de Sacy: "Amyot não tomou a fisionomia de Plutarco: deu-lhe a sua".6 E, com intensidade maior, ou menor, é o que acontece em todas as biografias. Poderemos, no entanto, dizer que o perfil de Plutarco esboçado por Amyot é menos verdadeiro do que o traçado por Langhorne ou Ricard? De que elementos disporíamos para afirmá-lo?

Realmente, essa diversidade nos modos de considerar e ver uma individualidade constitui contingência inseparável da biografia. Umas poderão aproximar-se entre si e ter pontos de semelhança; outras diferirão inteiramente. E todas poderão ser honestas e representar trabalho de pesquisa e de investigação. Lemaître, externando-se sobre divergências profundas em torno de Napoleão, não se eximia de escrever: "Isso prova apenas que há duas maneiras de se representar a pessoa e a obra de Napoleão. E há uma terceira, mitigada e temperada: a de Thiers. Há uma quarta. Há outras. Há mesmo a do velho Dupin, esse "chevreuil" dos vaudevilistas, a quem se perguntava se vira o imperador: "Sim, respondia, eu o vi. Era gordo, de aspecto comum." Nada mais. "E todas essas maneiras são boas", conclui Lemaître.7 Porventura, seria aquele velho Dupin, para quem o Imperador não passava dum homem gordo e de aspecto comum, menos sincero do que Heine, e cuja imaginação ficaria até à velhice impressionada pela figura de Napoleão, que vira na infância? Poder-se-ia mesmo dizer que qualquer deles fosse mais verdadeiro do que o outro, ou teremos de reconhecer que, apenas, graças a uma divergência de temperamentos, cada qual vira "com olhos diferentes"?

Isso não significa a inexistência da verdade ou que não a devamos procurar infatigavelmente. Até porque, aproximar-se dela o mais possível é a primeira tarefa do biógrafo. Revela, porém, que além de não possuirmos um ponto de referência capaz de nos proporcionar a certeza de a havermos encontrado, ela ficará sempre sujeita à interpretação e às mutilações decorrentes da tendência do biógrafo. Pierron diz de Tácito que "em toda a parte, e sempre, ele acredita no mal: é a sua regra".8

Macaulay afirma não haver retrato que seja igual ao original. É o que também sucede nas biografias. Mas, ele próprio, ante essa intangibilidade da perfeição, nos aconselha: "Assim como não há retrato que nos possa oferecer a verdade em toda a extensão da palavra, também não há história que esteja nesse caso; mas sempre serão os melhores retratos e as melhores narrativas aquelas nas quais certas partes da verdade se nos apresentem de tal modo que produzam da melhor maneira o efeito do conjunto".9 Cabe, porém, acrescentar que assim como um retrato nunca será perfeitamente igual ao original, oferecendo-nos a verdade em toda a extensão da palavra, também jamais dois retratos, ou duas biografias, por autores diferentes, serão iguais entre si. Ambos, no entanto, poderão ser honestos, pois o que ressai dessa variedade e diversidade, que existem até entre biógrafos igualmente informados e escrupulosos, é justamente a impossibilidade de vermos qualquer fato, e reproduzi-lo, senão através das nossas idéias e dos nossos sentimentos.

Realmente, sendo impossível reproduzir-se integralmente a vida de um homem, enquanto um biógrafo dará maior relevo a este ou a aquele aspecto, outro acentuará passagens diferentes, embora ambos conheçam perfeitamente o assunto e tenham a convicção e a preocupação de se subordinarem à verdade. E como poderia deixar de ser assim se em cada biografia se terá de refletir, com maior ou menor intensidade, o próprio temperamento do autor?

Aliás, nesse estudo da variação dos nossos julgamentos sobre a mesma individualidade, é necessário observar-se a influência exercida pelo tempo. Não só pelos novos elementos, que, por vezes, nos proporciona, senão também pela ação que exerce em nossa maneira de considerar a vida de qualquer homem. De fato, três fatores, principalmente, concorrem para modificar, através do tempo, o juízo sobre determinada personalidade: a) aparecimento de novos documentos; b) ampliação da perspectiva; c) alteração dos nossos critérios de julgamento.

Portanto, excetuado o primeiro caso, no qual a imagem do biografado, tal como emerge dos documentos, sofre substancial modificação devido ao concurso de novas informações, nos demais varia, apenas, a nossa visão, ou o nosso critério.

[...]

1. A. France, Oeuvres Complètes, VI, p. 440.

2. Gautier de Vignal, Maquieval, p. 7.

3. Scherer, ob. cit., VI, p. 99.

4. Scherer, ob. cit., IV, p. 110.

5. Voltaire, ob. cit., p. 6.

6. Littré, Littérature et Histoire, p. 59.

7. Lemaître, ob. cit., IV, p. 185.

8. Pierron, Histoire de la Littératire Romaine, p. 598.

9. Macaulay, Vida de políticos ingleses, p. 348.

(A verdade na biografia, capítulo IV, 1945.)



* Político e historiador, membro da Academia Brasileira de Letras.

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