De Nei para Alex
* Por
Woden Madruga
Volto às gavetas
desarrumadas na vã e repetida tentativa de ordenar as coisas ali jogadas há
décadas. Pra começo de conversa, dou de cara com um exemplar da revista Status,
com o selo ”Extra
Inédito”, no frontispício da capa onde está estampado o título “Vinte contos
latino-americanos”. No rodapé, lê-se: ”Com vinte ilustrações
de Aldemir Martins”. Ainda na capa os nomes dos vinte contistas selecionados.
Sete são brasileiros: José J. Veiga, Rubem Fonseca, Sérgio SantAnna,
Ricardo Ramos, Dalton Trevisan, Roberto Drummond e Nélida Piñon. Quatro
mexicanos: Juan Rulfo, José Revueltas, Juan José, Carlos Fuentes. Três
argentinos: Julio Cortazar, Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. Dois uruguaios:
Eduardo Galeano e Juan Carlos Onetti. Um peruano, Vargas Llosa; um boliviano,
Augusto Céspedes; um paraguaio, Augusto Roa Bastos, e um cubano, Alejo
Carpentier.
Procuro a data da
edição. Passo e repasso todas as páginas. Não encontrei. Nem na capa nem na
contra-capa nem na lombada. No expediente, também não. Confiro que os editores
são Domingos Alzugaray e Luís Carta que, também, é o diretor editorial. O
redator chefe, Gilberto Mansur. Entre os colaboradores, destaco: Paulo Francis,
Ignácio de Loyola, Daniel Más, Joelmir Beting, Odylo Costa Filho, Mauricio
Kubrusly e Lew Parrela. Timaço. No índice dos contos, têm duas notas. A
primeira: ”O
humor deste número é do cartunista mais sofisticado de nossos tempos: o francês
Sempé”. A segunda nota diz assim: ”Todas
as ilustrações são de autoria de Aldemir Martins que dispensa maiores
comentários”.
O grande artista cearense.
O texto de abertura,
assinado por Gilberto Mansur, com o título ”Um
Status Literário”, começa assim: ”A partir deste momento,
o leitor vai conhecer - em sua própria língua - alguns dos contos mais
importantes da literatura latino-americana”. Para mais adiante, esclarecer: ”Algumas
ausências - de estrangeiros e brasileiros - se deve apenas ao fato de que, no
momento, não havia nada de inédito desses autores: é o caso - para citar apenas
dois exemplos - de Garcia Márquez e de Murilo Rubião, que breve estarão nas
páginas dos números normais de ’Status’”.
Acho que essa edição
especial de Status, toda dedicada à literatura (são 130 páginas), é dos meados
dos anos 70, aí por 1974/1975. A Status
era uma revista masculina, criada pela Editora Três, fundada por Domingos
Alzugaray em 1974. Tempos depois seria engolida pela Playboy. A revista IstoÉ,
criada em 1977, pelo mesmo grupo, sobrevive e está entre as principais revistas
semanais do país. A Editora Três tem outros títulos, como Planeta e Dinheiro
Rural.
Entre as páginas dessa
edição especial de Status, encontrei uma carta de Nei Leandro de Castro
endereçada a Alex Nascimento. Tenho mania (o meu analista ainda não descobriu o
porquê) de guardar bilhetes, cartões, cartas, recortes de jornais, entre
páginas de livros e revistas. Também não sei explicar por que esta carta de Nei
para Alex veio aparecer agora entre as
páginas de Status. Não é cópia, não, é o texto original. Bom, na próxima sessão com o analista, Professor
Seabra, tentarei uma explicação.
Da carta
Hoje, dia 15 de agosto,
consagrado a São Roque (que dedicou a
sua vida a ajudar os enfermos em todas as cidades onde viveu), transcrevo por inteiro a carta de Nei (onde é
citado Carlos Drummond de Andrade) que foi escrita no Rio de Janeiro em 14 de
janeiro de 1987:
"Alex, mon amour,
Faz um calor igualzinho
ao de Jucurutu. Em compensação, as mulheres estão quase nuas, com as tetas ao
léu, como se diz além-mar. Algumas das ditas cujas tetas chegam a puir as
blusas sob as quais elas as tetas
bicam e balançam. Ai, Jesus.
Para compensar ainda
mais esse calor jucurutuesco (pior do que o senegalesco), acabo de receber um
cartão de Drummond que, aos 84 anos, quem diria, caiu de quatro pelo caboclo
Ojuara. Segue xerox, para as devidas providências, como você as julgue
providenciais.
Estou mandando dois
Pascas. Um procê (a alemãzinha precisa aprender a nossa língua, via sacanagem),
outro para o pasquineiro WM, mais amigo do peito do que o velho Bromil.
Me diga uma coisa, seu
sacana: você já sabe o novo significado de altruísta? Eu ouvi mal ou o puto do
César já andou dizendo coisas e lousas? Porra, ninguém pode confiar em
confidentes de mesa de bar. São todos uns lulas guimarães, uns danilos bessas,
uns redes rasgados.
Olha, por via das
dúvidas, passo a limpo as palavras do mestre Drummond. Diz ele:
“Obrigado pelo
que se diz sobre Tempo Vida Poesia. E também sobre a remessa-relâmpago da
declaração de rendimentos.
Não vamos trocar
elogios, mas quero reafirmar a primeira impressão de leitura de As Pelejas de
Ojuara. O diabo do livro me prendeu e fascinou. Sou sensível, antes de tudo, à
arte da escrita, e tocou-me a graça do seu estilo, que torna a leitura uma
festa. A gente vive o personagem, suas aventuras, seu destino. E isso é ficção
da boa.
Quanta coisa aprendi na
riqueza do seu vocabulário!
Abraços, com a admiração
do Drummond”.
A remessa-relâmpago, se
você quer saber, diz respeito a um trabalho que o poeta fez para um cliente da
Assessor. No mais, é um ego tão dilatado pela mensagem recebida, que chegou a
um vigésimo do tamanho do ego de Franklin Jorge em posição de descanso.
Abraços. Beijo na alemãzinha, com um demorado acento de ternura. Escreva, seu
puto!
Nei.
João Ubaldo
Outro bilhete de Nei,
agora manuscrito, datado de 16 de outubro de 1981. Pelo jeito e pelo papel de
redação da TN, acho que foi escrito em Natal:
“Woden amigo,
Tudo bem? A gente
precisa se encontrar. Recebi uma carta (excelente) do João Ubaldo e gostaria de
mostrar a você.
Na próxima, eu apareço
na TN.
Abraços, Nei”.
* Jornalista e colunista do jornal Tribuna do Norte
de Natal/RN
Nenhum comentário:
Postar um comentário