Estou enjoado de política
* Por
Rubem Alves
Olho para as notícias da política com absoluta indiferença. Por vezes o absurdo
é incomum e se torna ridículo. Aí o humor me provoca, por um curto espaço de
tempo, mas logo retorno à realidade. As notícias são de uma mesmice sufocante.
Os mesmos rostos, os mesmos lugares-comuns, as mesmas frases batidas que nada
dizem. Sou tomado por uma sensação física de paralisia e impotência. Nada posso
fazer, em nada posso acreditar. Meus pensamentos ficam pesados como blocos de
concreto: entidades inertes, mortas, das quais não surge nenhuma vida.
Nietzsche confessava haver se encontrado com o demônio, e que sempre que isto
acontecia todas as coisas leves ficavam pesadas e caíam. O que o levou a afirmar
que o demônio era o espírito da gravidade. Sinto o mesmo quando vejo as notícias
da política. O que me leva a suspeitar que é aí que o demônio mora. Por mais
que me esforce não consigo me lembrar da última vez que ouvi alguma coisa
inteligente da boca de um político. Pois a marca de uma coisa inteligente é o
seu poder para fazer o pensamento voar, abrir horizontes, tornar luminoso o mundo,
sugerir alternativas e abrir caminhos novos para o pensamento e a ação.
Não estou sozinho neste desencanto. Guimarães Rosa sentia a mesma coisa.
Dizia que jamais poderia ser um político “com toda esta charlatanice da
realidade. O curioso”, ele continua, “é que os políticos estão sempre falando
de lógica, razão, realidade e outras coisas do gênero e ao mesmo tempo vão
praticando os atos mais irracionais que se possam imaginar. Ao contrário dos
legítimos políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. Sou escritor e
penso em eternidades. O político pensa apenas em minutos. Eu penso na
ressurreição do homem.” Confesso que a minha alma gozava melhor saúde no
tempo da ditadura. Naqueles anos sombrios o pensamento brincava com a certeza
de que aquilo não poderia durar para sempre. Era impensável que o horror
durasse para sempre. Dietrich Bonhoeffer, numa das cartas que escreveu da cela
da prisão de um campo de concentração nazista, conta que o prisioneiro
desconhecido que o antecedera escrevera, na parede, a sua mensagem de esperança
desesperada: “Dentro de cem anos tudo isto terá terminado.” Muitas vezes
repeti a mesma frase, embora não me atrevesse a imaginar que o medo pudesse
persistir por tanto tempo. O horror chegaria ao fim e, com ele, um novo tempo.
“Apesar de você amanhã há de ser novo dia...” O pensamento dançava entre
o absurdo e a esperança. De um lado o noticiário político anunciava o presente.
Mas os poetas cantavam um futuro. O que fazia com que o presente fosse vivido
como tempo de espera, como gravidez, expectativa escatológica.
“Como dois e dois são quatro/ sei que a vida vale a pena,/ embora o pão
seja pouco e a liberdade pequena./ Como teus olhos são claros e a tua pela
morena,/ como azul é o oceano e a lagoa serena,/ como um tempo de alegria e por
trás do terror me acena,/e a noite carrega o dia no seu colo de açucena,/ como
dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena...”
Era noite mas se podiam ver no horizonte as cores da madrugada.
Por isto o pensamento era leve! Por isto as idéias voavam! Por isto se geravam
utopias! Por isto - apesar de tudo - os poetas falavam e o povo cantava:
“Caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, somos todos
irmãos...”. Não havíamos sido
abandonados pela beleza.
abandonados pela beleza.
Mas este tempo passou. O tempo do horror chegou ao fim mas o que nasceu foi
um novo horror.
Nosso tempo está vazio. Os poetas estão silenciosos. É noite, sem nenhum
anúncio de madrugada.
Noite sem canções, noite sem sonhos.
A psicanálise descobriu que nós somos sonhos feitos carne.
Músculos, ossos, sangue: sólidas realidades físicas que não podem viver sem
pão. Mas, como dizem os textos sagrados, “o homem não viverá só de pão”. Nossa
carne precisa de sonhos para viver. São os sonhos que moram neste corpo que
desenharão os seus gestos: se ele voará, leve, na direção das suas esperanças,
construindo caminhos e pontes e plantando jardins, ou se se deixará afundar no
charco da tristeza, fazendo apenas aquilo que a dura luta pela sobrevivência
exige. “Sonho, logo existo.”
Aquilo que é verdadeiro para os indivíduos também é verdadeiro para os
povos. Santo Agostinho já sabia disto e dizia que um povo é o conjunto de pessoas
que amam as mesmas coisas, que têm sonhos comuns. Muitos séculos mais tarde o
sociólogo Durkheim iria repetir a mesma coisa, dizendo que um povo não se faz
com coisas materiais. Um povo se faz com ideais, com esperanças partilhadas.
Estava certo o poeta Tagore quando dizia que o povo pedia canções. Há de haver
visões de beleza, utopias de jardins e de harmonia entre os homens e a
natureza, esperanças de paz e tranqüilidade, e o sentimento bom de que se está
construindo um mundo amigo a ser legado como herança aos nossos filhos.
É por isto que os noticiários políticos só me causam náusea. Pois se noticia
como se o destino do povo se tecesse nas artimanhas do poder. Mas um povo não
nasce do poder; ele é uma criatura do amor. E o poder só tem sentido quando é
uma ferramenta para a realização do amor.
Daí a nossa tristeza, pois o povo não acredita que o poder esteja a
serviço dos seus sonhos. E de tanto ver os seus sonhos abortados achou melhor
deixar de sonhar. Mas não é isto que deveria ser um político? Aquele que, por
ser do povo, sonha os seus sonhos e se dedica a transformá-los em realidade.
Lembro-me das palavras de Miguel de Unamuno: “Pelo que me diz respeito, jamais
de bom grado me entregarei, nem outorgarei a minha confiança a condutores de
povos que não estejam penetrados na idéia de que, ao conduzir um povo, conduzem
homens, homens de carne e osso, homens que nascem, sofrem e, ainda que não
queiram morrer, morrem; homens que são fins em si mesmos, e não meios; homens
enfim, que buscam a isso a que chamamos felicidade.”
A esperança é de que, distantes da pantomima do poder, os sonhos não tenham
morrido. Como na história da Bela Adormecida, eles dormem, mais profundos que
pesadelos do cotidiano. E um dia acordarão. E o povo, possuído pela sua beleza
esquecida, se transformará em guerreiro e se dedicará à única tarefa que vale a
pena, que é a de transformar os sonhos em realidade. Esta é a única política
que me fascina. Como o Guimarães Rosa, vivo na esperança da ressurreição dos
mortos.
* Escritor, teólogo e educador, membro da Academia Campinense de
Letras
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