A última ceia
* Por Daniel Santos
Após
mais de uma década entre a vida e a morte, a velha emitia, finalmente, sinais
terminais. Sua acompanhante comunicou a iminência do óbito aos familiares e,
naquela mesma noite, a casa encheu-se deles.
Alguns
até choraram, mas a maioria deixara de acreditar que a velha morreria algum
dia, porque, pouco antes do suspiro final, acontecia de se recuperar, assim,
sem mais nem menos, como a própria fênix.
Mas
agora, não. Agora agonizava, de fato. Só que se demorava demais para
estrebuchar. Sua agonia e a dos demais prolongavam-se num suplício
desesperador. Foi quando a acompanhante resolveu tudo.
Disse
que na sua cidadezinha do interior, quando o moribundo se negava a morrer,
preparavam-lhe uma refeição com tudo o que o médico proibira. Assim, com prazer
irrecusável, ele se entregava para sempre.
Saíram,
então, às compras com mórbido entusiasmo. Pretendiam preparar um banquete para
toda a família – um banquete de despedida! Embutidos, malaguetas, defumados ...
de nada faltou às exéquias.
Da
cama, a velha sentia o buquê tentador que tomava todo o ambiente e, não tardou
muito, uma das filhas trouxe-lhe a refeição proibida. O quarto encheu-se de
familiares, cada um com seu prato.
Comeu
com apetite de gironda. E repetiu! Abriu, então, um sorriso, parecia que ia
dizer algo. Todos se aproximaram, mas tudo o que ouviram foi um arroto
encorpado, pleno de satisfação. E a velha caiu morta.
* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e
redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de
São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou
"A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e
"Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o
romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para
obras em fase de conclusão, em 2001.
Morte feliz. Então, funciona mesmo. Não sabia.
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