Atores e atrizes
* Por Juarez José Viaro
Resolvi caminhar. Ir até o
mercadinho, sei lá, comprar pasta de dente, andar para ver se passava aquela
angústia. Sabia que era a ansiedade, minha velha amiga, me visitando. Já tinha
tomado um ansiolítico, mas ainda não surtira efeito. Caminhava perto de casa, a
pé. Na esquina da padaria, uma senhora sentada no meio-fio, chorando. Passei,
olhei, quase parei. Olhei para os lados, pra ver se não era nenhuma
'pegadinha' de algum programa de televisão, não vi câmeras. Pensei que seria um
sinal, mas já tinha passado pela senhora.
O que significava aquela pessoa
sentada na sarjeta, chorando? Talvez fosse um sinal para eu deixar de me
preocupar com minha angústia e pensar nos problemas alheios. Um sinal de Deus
para eu ajudar o próximo? Não sei, continuei andando, não parei, me arrependi.
Cheguei até o mercadinho, não comprei nada, voltei. Desejei que aquela senhora
ainda estivesse sentada ali na sarjeta daquela esquina. Estava. Senti-me
aliviado pela indecisão da ida ao mercado e resolvi parar na volta.
Sentei-me ao seu lado, conversei.
Ela chorava por não ter dinheiro para cobrir seu barraco na favela e tinha sido
denunciada por manter filhos no barraco, sem telhado. Tentei confortá-la,
chegou outra pessoa, uma senhora negra, que ficou em pé. Também tentou
reconfortá-la. Perguntei se tinha ido à Promoção Social da Prefeitura, mesmo
não sabendo se isso existia. Disse que sim, que não resolveram. Continuava
chorando.
Disse de um empréstimo de 200
reais para cobrir o barraco, que alguém tinha negado. E só tinha 150. Nisso a
senhora em pé se retirou, fiquei sozinho com aquela dívida. Conversei mais,
disse que tudo se resolveria, me condenando por uma frase tão inútil naquele
momento. Ofereci 10 reais para comprar algo para os filhos e me levantei. Ela
agradeceu, mas continuou chorando.
Minha angústia permanecia.
Atravessei o cruzamento e fui até o jornaleiro em frente à padaria. Havia uma
senhora que não soube me atender para vender o jornal, mas disse que o
jornaleiro estava chegando. O jornaleiro chegou com um cachorro, tinha ido
passear. O cão era da senhora que ficara na banca de jornal.
Relatei para os dois o ocorrido
com a senhora que chorava. A dona do cachorro contou que também tinha
presenciado algo semelhante, ofereceu-se para ajudar, colocou a mulher no carro
para que ela levasse até o barraco, mas ela fugiu do carro. Disse que parecia
ser a mesma pessoa. Fiquei frustrado. Nunca tentei ajudar alguém, quando ajudo,
é uma vigarista, que conta uma história de perder filhos, barraco sem telhado.
Aleguei para o jornaleiro que eu
tinha feito a minha parte e que, se tudo aquilo fosse encenação, ela que
responderia para sua consciência. O jornaleiro concordou comigo e reconheceu
que eu tinha feito a coisa certa. Voltei com o jornal e minha angústia debaixo
do braço. Pensei no que li uma vez que pessoas deprimidas podem deixar sua
fortuna toda para outras pessoas. Ainda bem que só deixei 10 reais.
Senti-me enganado, mas por um bom
motivo. A senhora que chorava é uma atriz nata. Ou não? Não sei, pelo menos a
história me rendeu esse conto. Afinal, numa cidade como São Paulo, todos
enganam todos com seus problemas fictícios ou verdadeiros. Somos todos grandes
atores com papéis medíocres.
* Juarez José Viaro é jornalista e escritor. Publicou o livro de poemas
“Aroma de Amora” e participou de movimentos literários em Osasco e São Paulo.
Tem um romance inédito, “Viagem ao Interior”.
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