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Dzi Croquettes é um documentário pungente
* Por Marco Albertim
No documentário Dzi Croquettes não há promiscuidade entre a cena e seu captor. Promiscuidade, aqui, não no sentido de sugerir relações promíscuas entre os treze atores e bailarinos do grupo; sequer um viés de afinidade ideológica é visto ou percebido. Ressalta o propósito dos diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez, de resgate de uma irreverência com características próprias. Propósito necessário a todo documentarista que se estime, sobretudo no caso. Por falar em ideologia, a dos Dzi Croquettes remete à busca de afirmação de um perfil rompendo valores de comportamento – a moral burguesa de invólucro severo e conteúdo hipócrita -, inda que com uma relação amistosa com os padrões formais da sociedade. Os Dzi Croquettes chocaram; não podia ser de outro modo, visto que se depararam com a moral autoritária advinda do golpe militar de 64. Chocaram e se chocaram, posto que Cláudio Tovar, chamado a responder pelo grupo às perguntas e acusações do censor, ouviu horrores do moralista de plantão. Sem a compreensão do significado político de então, defendeu-se com os bons modos do amor à arte inofensiva. Em casa, restou o consolo do próprio choro. Não se lhes podia exigir outra reação; e reagiram a seu modo, viajando de navio para a Europa com dois mil quilos de bagagens, incluindo cenários, roupas e três quilos de “baseado”. De lembrança, uma performance no cais para o chefe da alfândega permitir o embarque sem inspeção nas malas. O guru, o norte-americano Lenie Dale, tão rigoroso no palco quanto porra-louca fora da ribalta.
Não são gratuitas as infusões do proscênio com cenas de repressão policial, vítimas prostradas na calçada, feições de generais inóspitos. Bem que o AI-5 poderia dar conta da trilha sonora de erros e acertos dos Dzi, de seus êxitos e fracassos. Entre os 45 depoimentos que emolduram a curta trajetória do grupo, não há quem o faça com o estofo do conhecimento histórico da intervenção militar urdida em Washington. O de Lisa Minnelli orna-os com a licença do show business internacional. O de Marília Pêra, o da vítima entre os atores do Teatro Opinião. Por aí segue. Toda a cena, o trajeto dos Dzi Croquettes foram seguidos de perto por aficionados da representação em teatros.
O documentário prova que o grupo fez escola, a influência das performances e das nuances do comportamento fora dos palcos. O final, não há que se negar, é pungente; como pungente foi o fim dos Dzi Croquettes. Treze artistas, alguns poliglotas; oito já mortos, quatro com a AIDS, três assassinados e um de AVC.
O trabalho foi premiado em onze festivais.
* Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
* Por Marco Albertim
No documentário Dzi Croquettes não há promiscuidade entre a cena e seu captor. Promiscuidade, aqui, não no sentido de sugerir relações promíscuas entre os treze atores e bailarinos do grupo; sequer um viés de afinidade ideológica é visto ou percebido. Ressalta o propósito dos diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez, de resgate de uma irreverência com características próprias. Propósito necessário a todo documentarista que se estime, sobretudo no caso. Por falar em ideologia, a dos Dzi Croquettes remete à busca de afirmação de um perfil rompendo valores de comportamento – a moral burguesa de invólucro severo e conteúdo hipócrita -, inda que com uma relação amistosa com os padrões formais da sociedade. Os Dzi Croquettes chocaram; não podia ser de outro modo, visto que se depararam com a moral autoritária advinda do golpe militar de 64. Chocaram e se chocaram, posto que Cláudio Tovar, chamado a responder pelo grupo às perguntas e acusações do censor, ouviu horrores do moralista de plantão. Sem a compreensão do significado político de então, defendeu-se com os bons modos do amor à arte inofensiva. Em casa, restou o consolo do próprio choro. Não se lhes podia exigir outra reação; e reagiram a seu modo, viajando de navio para a Europa com dois mil quilos de bagagens, incluindo cenários, roupas e três quilos de “baseado”. De lembrança, uma performance no cais para o chefe da alfândega permitir o embarque sem inspeção nas malas. O guru, o norte-americano Lenie Dale, tão rigoroso no palco quanto porra-louca fora da ribalta.
Não são gratuitas as infusões do proscênio com cenas de repressão policial, vítimas prostradas na calçada, feições de generais inóspitos. Bem que o AI-5 poderia dar conta da trilha sonora de erros e acertos dos Dzi, de seus êxitos e fracassos. Entre os 45 depoimentos que emolduram a curta trajetória do grupo, não há quem o faça com o estofo do conhecimento histórico da intervenção militar urdida em Washington. O de Lisa Minnelli orna-os com a licença do show business internacional. O de Marília Pêra, o da vítima entre os atores do Teatro Opinião. Por aí segue. Toda a cena, o trajeto dos Dzi Croquettes foram seguidos de perto por aficionados da representação em teatros.
O documentário prova que o grupo fez escola, a influência das performances e das nuances do comportamento fora dos palcos. O final, não há que se negar, é pungente; como pungente foi o fim dos Dzi Croquettes. Treze artistas, alguns poliglotas; oito já mortos, quatro com a AIDS, três assassinados e um de AVC.
O trabalho foi premiado em onze festivais.
* Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
Inusitado, irreverente, inesperado
ResponderExcluire insubstituível...
Eu assisti a entrevista da Tatiana na
televisão e mais do que um documentário
mostra que eles não vieram à passeio
mas sim pra dar uma cutucada na sociedade.
Boa homenagem.
Abraços Marco