terça-feira, 15 de dezembro de 2009


Leitura e absorção

Caríssimos leitores, boa tarde.
Absorvemos muito pouco do conteúdo de um texto se o lermos sem método, mesmo que nos concentremos ao máximo no que estivermos fazendo. Querem uma prova? Façam o teste. Releiam um livro, qualquer um, que vocês tenham lido, digamos, há dez anos, sem fazer anotações à margem e muito menos ficha de leitura. Qual o resultado? Ele lhes parecerá inédito. Apenas um trecho ou outro lhes soará como vagamente familiar. Não precisam acreditar em mim. Façam vocês mesmos a experiência.
Pior será se o conteúdo contiver idéias que divirjam das suas. Aí vocês não absorverão absolutamente nada mesmo. Por isso, não exagerei quando publiquei, aqui no Literário, uma crônica em que defendo a tese de que “leitura é um ato de fé” (que tem, propositalmente, este título). Você tem que acreditar no autor para ler o livro até o fim. E, principalmente, para fazer a leitura de outras obras que ele tenha escrito.
Lemos, basicamente, por três motivos. O primeiro como uma forma de lazer (e para mim não há nenhuma outra que se lhe compare sequer de longe). Para tanto, escolhemos leitura amena, que não nos exija muito raciocínio, como um romance de aventura, por exemplo, ou um conto policial ou alguma novela de amor.
O segundo motivo que nos leva a ler é o desejo de enriquecimento intelectual e, sobretudo, espiritual. É a busca por beleza e transcendência. É o confronto de idéias que nos induz à reflexão e a descobertas tanto do mundo que nos cerca e das multidões que o habitam, quanto de nós mesmos. Aliás, esta última descoberta pode ser compensadora ou traumática, dependendo de como somos de fato.
Pablo Neruda advertiu a propósito: “Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, idefectivelmente, encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas”. E pode mesmo.
Neste caso, quando a leitura se destina ao enriquecimento intelectual, espiritual e, não raro, moral, quanto mais método tivermos, melhor proveito tiraremos do que viermos a ler. É aqui que entra a questão da “fé” no autor.
E, finalmente, lemos exclusivamente para aprender. Para tanto recorremos aos livros didáticos e paradidáticos. Aqui, se nos limitarmos apenas à leitura, sem um estudo metódico, acurado e atencioso, não aprenderemos coisíssima alguma. Seremos reprovados na escola ou na faculdade e perderemos tempo, dinheiro e, pior, oportunidades de crescimento profissional na vida.
Comportamento pitoresco, referente à leitura, para o qual eu não havia atinado, levantado pelo escritor austríaco Robert Musil, em seu livro “Homem sem qualidades”, é o fato de suprimirmos, automática e subsconscientemente do texto que estivermos lendo, o que não nos convém.
Fiz o teste e constatei que esse autor tem razão. Ele afirma, em determinado trecho: “O que você faz quando lê? Vou dar-lhe já a resposta: a sua leitura deixa de lado o que não lhe convém. O mesmo já fez o autor antes. Omitem-se também coisas nos sonhos e na imaginação. Daqui concluo: a beleza ou a excitação aparecem no mundo por omissão”.
Curiosa essa observação, posto que, no meu entender, verdadeira. Espero, pois, não ter escrito, nestas considerações de hoje, nada que não lhe convenha. E que, sobretudo, você deposite “fé” no que escrevo e não fuja nunca dos meus textos, por mais extensos e aparentemente complexos que sejam, como o conto que publiquei no domingo, intitulado “Um caso de amor”, que não mereceu um mísero e solitário comentário de quem quer que fosse.

Boa leitura.

O Editor.

4 comentários:

  1. Pedro, há um outro fenômeno na leitura talvez mais poderoso: é o que fica guardado, lá no mais íntimo do espírito, e não nos damos conta. Na releitura de O Som e a Fúria estou percebendo isso. Da minha primeira leitura ficaram coisas de que eu não me dava conta, coisas tais que "aproveitei" em textos que eu julgava fossem apenas meus, absolutamente originais. É claro, isso não se dá somente a literatura. Pintores, músicos e artistas "recuperam" momentos de outros nas próprias obras, mas não como uma citação consciente: pura reinvenção inconsciente.
    Quanto ao seu conto, Pedro, eu desconfio de uma razão pela ausência de comentário: o conto era extenso. A leitura na tela da internet tende a ser rápida e preguiçosa. Acho até que raros leriam Faulkner na tela.
    Forte abraço.

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  2. Peguei o gosto pela leitura muito menina ainda.
    Vários autores chegaram em minhas mãos e com o dicionário sempre do meu lado, tentava transitar
    sozinha no universo literário.
    Já reli vários livros do Jorge Amado e hoje é claro que o entendimento é diferente...mas graças aos céus nunca fui impedida de lê-los.
    E sim, Pedro eu li o seu conto. Aliás, sempre
    leio tudo o que é postado aqui.
    Abraços

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  3. A primeira poesia que aqui postei não mereceu
    nem um único e mísero comentário. Mas caso houvesse, para mim seria precioso, mesmo que
    único.
    Hoje, já posto com mais tranquilidade e entendo
    que temos afinidades não somente com pessoas, mas também com nossas escolhas literárias...
    Gosto muito do que tu escreves meu caro editor.
    Beijos

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  4. Eu li e comentei o conto. Mas o li de duas vezes, por isso não pude deixar a minha opinião no dia da postagem. Ler temas com opinões divergentes das nossas, pelo menos para mim, é como catar pedra em feijão. Vou fazendo os montinhos. Algumas coisas que me chocam, acredito que esqueço rapidamente. Visões opostas às minhas podem ficar num cantinho e em algum tempo ocupar o centro. A sua abordagem foi feliz, e com frases dignas de releitura, um hábito que tenho desde menina, embora não escreva nas orelhas e nem costume sublinhar livros não didáticos, ou fazer anotações. Posso vir a aprender. Adorei a citação de Pablo Neruda. O medo da solidão, de acordo com ele, é o medo e ficarmos a sós com nós mesmos. Mas gesto de artista mesmo, tenho eu, que leio a revista Veja inteira há 30 anos e tenho o pensamento político oposto ao dela.

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