

O que todo mundo quer
* Por Rosana Hermann
O ser humano moderno tem basicamente três desejos: comer sem engordar, transar sem procriar e ganhar sem trabalhar.
O primeiro desejo vem sendo buscado na marra, à base de lipos, dietas e, como soubemos recentemente, de anfetaminas, já que o Brasil além de líder em cirurgias plásticas estéticas é também o maior consumidor do mundo de 'bola' para emagrecer. A obesidade é um problema de saúde pública mas emagrecer, em última instância, é uma tarefa de foro íntimo.
Para realizar o segundo desejo, os casais têm buscado métodos como a pílula e, principalmente, a camisinha, usada até mesmo em lugares totalmente inconvenientes, como o parque do Ibirapuera, que foi transformado em motel a céu aberto e boca fechada. De qualquer forma, excetuando-se o atentado ao pudor público, a questão sexual só interessa ao casal envolvido.
O problema maior, porém, está no terceiro objetivo do homem moderno, o de ganhar sem trabalhar. Para alcançar este sonho, muita gente tem tentado transformar a justiça em fonte de renda, processando pessoas físicas e jurídicas atrás de qualquer tipo de indenização, com ou sem bom senso. Mas a questão mais grave, endêmica é aquele método de enriquecer sem o suor do trabalho, o método mais disseminado em nossas entranhas, a corrupção.
A corrupção, a roubalheira, os crimes de colarinho branco, o suborno, a sonegação, deveriam ser considerados como crimes hediondos, porque roubar dinheiro público também é assassinato. A diferença entre o desvio de verba do povo e uma bala de revólver é apenas de escala e de tempo. O tiro tem uma correspondência biunívoca e aguda: para cada pessoa, um tiro, que mata na hora. A corrupção é coletiva e crônica: mata muita gente, a longo prazo, em filas de hospital, pela falta de escola e oportunidades ou pelo desemprego. Qualquer pessoa que já tentou usar um serviço público de saúde sente que chegou ao outro extremo das notícias de corrupção.
Mas o cenário desolador da nossa realidade não está dissociado de cada um de nós. Por isso, hoje, quando vemos reportagens mostrando crianças armadas que trabalham para o tráfico, falando da morte como um amigo de infância, devemos ver ali, também, o resultado da loucura dos nossos desejos. Não há como separar a perversidade doentia do ser humano da exploração sexual de homens, mulheres e crianças; nem como separar a compulsão patológica do tráfico de drogas; a vaidade está ligada ao mercado negro de remédios assim como a ambição desmedida é irmã da corrupção. No fundo, vivemos uma grande ilusão: a de que se formos lindos, atraentes, poderosos, tudo vai dar certo na nossa vida.
Devem estar certos os budistas que dizem que só o desapego e a eliminação da ignorância, do sofrimento, da ilusão e do desejo podem nos levar à iluminação e à paz. Sem isso, vamos continuar atolados, pisando num acelerador que só nos faz afundar mais sem sair do lugar, no meio da lama onde estamos hoje.
*Rosana Hermann é Mestre em Física Nuclear pela USP de formação, escriba de profissão, humorista por vocação, blogueira por opção e, mediante pagamento, apresentadora de televisão.
* Por Rosana Hermann
O ser humano moderno tem basicamente três desejos: comer sem engordar, transar sem procriar e ganhar sem trabalhar.
O primeiro desejo vem sendo buscado na marra, à base de lipos, dietas e, como soubemos recentemente, de anfetaminas, já que o Brasil além de líder em cirurgias plásticas estéticas é também o maior consumidor do mundo de 'bola' para emagrecer. A obesidade é um problema de saúde pública mas emagrecer, em última instância, é uma tarefa de foro íntimo.
Para realizar o segundo desejo, os casais têm buscado métodos como a pílula e, principalmente, a camisinha, usada até mesmo em lugares totalmente inconvenientes, como o parque do Ibirapuera, que foi transformado em motel a céu aberto e boca fechada. De qualquer forma, excetuando-se o atentado ao pudor público, a questão sexual só interessa ao casal envolvido.
O problema maior, porém, está no terceiro objetivo do homem moderno, o de ganhar sem trabalhar. Para alcançar este sonho, muita gente tem tentado transformar a justiça em fonte de renda, processando pessoas físicas e jurídicas atrás de qualquer tipo de indenização, com ou sem bom senso. Mas a questão mais grave, endêmica é aquele método de enriquecer sem o suor do trabalho, o método mais disseminado em nossas entranhas, a corrupção.
A corrupção, a roubalheira, os crimes de colarinho branco, o suborno, a sonegação, deveriam ser considerados como crimes hediondos, porque roubar dinheiro público também é assassinato. A diferença entre o desvio de verba do povo e uma bala de revólver é apenas de escala e de tempo. O tiro tem uma correspondência biunívoca e aguda: para cada pessoa, um tiro, que mata na hora. A corrupção é coletiva e crônica: mata muita gente, a longo prazo, em filas de hospital, pela falta de escola e oportunidades ou pelo desemprego. Qualquer pessoa que já tentou usar um serviço público de saúde sente que chegou ao outro extremo das notícias de corrupção.
Mas o cenário desolador da nossa realidade não está dissociado de cada um de nós. Por isso, hoje, quando vemos reportagens mostrando crianças armadas que trabalham para o tráfico, falando da morte como um amigo de infância, devemos ver ali, também, o resultado da loucura dos nossos desejos. Não há como separar a perversidade doentia do ser humano da exploração sexual de homens, mulheres e crianças; nem como separar a compulsão patológica do tráfico de drogas; a vaidade está ligada ao mercado negro de remédios assim como a ambição desmedida é irmã da corrupção. No fundo, vivemos uma grande ilusão: a de que se formos lindos, atraentes, poderosos, tudo vai dar certo na nossa vida.
Devem estar certos os budistas que dizem que só o desapego e a eliminação da ignorância, do sofrimento, da ilusão e do desejo podem nos levar à iluminação e à paz. Sem isso, vamos continuar atolados, pisando num acelerador que só nos faz afundar mais sem sair do lugar, no meio da lama onde estamos hoje.
*Rosana Hermann é Mestre em Física Nuclear pela USP de formação, escriba de profissão, humorista por vocação, blogueira por opção e, mediante pagamento, apresentadora de televisão.
Queria ver onde aquele infeliz iria enfiar
ResponderExcluiro dinheiro se as cuecas fossem descartáveis...
Abraços