domingo, 16 de agosto de 2009




Canção da mais alta torre

Por Arthur Rimbaud

Inútil beleza
a tudo rendida,
por delicadeza
perdi minha vida.
Ah! Que venha o instante
que as almas encante.

Eu me digo: cessa,
que ninguém te veja:
e sem a promessa
do que quer que seja.
Não te impeça nada,
excelsa morada.

De tanta paciência
para sempre esqueço:
temor e dolência
aos céus ofereço,
e a sede sem peias
me escurece as veias.

Assim esquecidas
vão-se as primaveras
plenas e floridas
de incenso e de heras
sob as notas foscas
de cem feias moscas.

Ah! Mil viuvezas
da alma que chora
e só tem tristezas
de Nossa Senhora!
Alguém oraria
à Virgem Maria?

Inútil beleza
a tua rendida,
por delicadeza
perdi minha vida.
Ah! Que venha o instante
que as almas encante!

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