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Arte da biografia
A biografia é um dos gêneros literários mais fascinantes, trabalhosos, nobres e perigosos que existem. Exige do biógrafo pleno conhecimento (dentro das circunstâncias possíveis) do biografado. Requer, além disso, aguçado senso crítico, para não transformar sua obra em mero discurso laudatório. Submete, aos que aceitam tamanho desafio, a anos e mais anos de exaustivos estudos, examinando toda a sorte de documentos, interpretando-os e deles extraindo os episódios que interessem.
Ainda quando o personagem que se propõe a biografar é vivo, ou conta com muitos parentes próximos que conhecem sua trajetória, a tarefa fica um pouco facilitada. Mas só um pouquinho. Por que? Porque pode entrevistá-los e extrair, diretamente da fonte, informações que só eles dispõem. Há, claro, o risco de ser influenciado pela personalidade do entrevistado e acabar sendo parcial na redação biografia que se propõe a escrever.
Na maioria dos casos, porém, o biógrafo tem que se valer, apenas, de documentos e de referências esparsas sobre seu personagem. Em alguns casos, tem que ler, classificar, selecionar e absorver informações e mais informações de uma tonelada de papéis. Convenhamos, é trabalho dos mais exaustivos, diria, estafantes.
No Brasil, tivemos e temos muitos escritores especializados nesse tipo de literatura que não ficam nada a dever a seus colegas do Exterior.. Claro que este espaço não comporta a menção da imensa maioria deles. Aliás, isso se torna desnecessário, pois o leitor, certamente, conhece vários e vários desses biógrafos.
Ademais, há escritores cuja especialidade não é essa, mas que, por um motivo ou outro, lá um belo dia se aventuram a redigir uma biografia. É o caso específico de Fernando Sabino (ao qual sempre apreciei não só como literato de mão cheia, mas, sobretudo, como magnífica figura humana, que tive a honra e o privilégio de conhecer), que “biografou” a ex-ministra Zélia Cardoso de Mello.
Para alguns, o querido escritor mineiro se “queimou” com isso. Discordo. Não se pode transferir ao biógrafo a antipatia que o biografado eventualmente desperte no público. O máximo que os leitores podem fazer, e é lícito que o façam, é não comprar o livro da figura que repudia. Mas marcar o escritor por isso descamba para o campo da sacanagem explícita. Foi o que tentaram fazer com Sabino. Zélia sim ficou marcada na sociedade brasileira por uma atitude que poucos desconhecem. Ou seja, pelo confisco da poupança da população, nos primeiros dias de governo de Fernando Collor de Mello.
Entre os biógrafos mais conhecidos do País e ainda em plena atividade, destaca-se o jornalista Ruy Castro, do qual sou ardoroso admirador. Suas biografias mais recentes são: “O anjo pornográfico”, abordando a trajetória do inesquecível (e folclórico, por que não) Nelson Rodrigues; “Estrela solitária. Um brasileiro chamado Garrincha”, sobre o segundo maior jogador de futebol de todos os tempos, abaixo, apenas, de Pelé, livro que lhe trouxe contratempos com a família do craque das pernas tortas; e “Carmem, uma biografia”, abordando a “pequena notável”, Carmem Miranda.
Fernando de Morais, igualmente jornalista, também se insere entre os grandes biógrafos nacionais. Seu livro “Chatô, o rei do Brasil”, tratando das peripécias de Assis Chateaubriand, fez enorme sucesso e já virou filme. De sua autoria, também, é o relato sobre o escritor Pedro Nava, entre outros.
Isabel Lustosa, com seu instigante livro “D. Pedro I. Um herói sem nenhum caráter”, é outro grande destaque no gênero. Aliás, por falar no “pai” da nossa independência, não se pode esquecer o livro de Paulo Setúbal, “As maluquices do imperador”. ´É uma delícia de texto.
Para mim, porém, o maior biógrafo brasileiro (sem nenhum demérito aos demais, citados ou não), foi o jornalista e escritor Raimundo Magalhães Junior. Tenho quase todos os livros biográficos que escreveu e parte considerável do meu conhecimento dos ases da literatura brasileira devo a ele. Foi um estudioso incansável. Causa pasmo a sua produção literária, tão copiosa e, sobretudo, de tão elevada qualidade.
Entre seus perfis biográficos, apesar da lista ser extensíssima, faço questão de mencionar os seguintes livros: “Artur Azevedo e sua época” (1953); “Idéias e imagens de Machado de Assis” (1956); “Machado de Assis funcionário público” (1958); “Machado de Assis desconhecido” (1955); “O fabuloso Patrocínio Filho” (1957); “Deodoro a espada contra o império” (1957); “Poesia e vida de Cruz e Sousa” (1961); “Poesia e vida de Álvares de Azevedo” (1962); “Poesia e vida de Casimiro de Abreu” (1965); “Rui, o homem e o mito” (1964); “A vida turbulenta de José do Patrocínio” (1969); “Martins Pena w sua época” (1971); “José de Alencar e sua época” (1971; “Olavo Bilac e sua época” (1974); “Poesia e vida de Augusto dos Anjos” (1977) e “A vida vertiginosa de João do Rio” (1978).
Vai aqui uma pitadinha de polêmica para agitar o sábado seu, inteligente leitor. O psicanalista argentino, Emílio Rodriguez, um dos biógrafos de Sigmund Freud, observou certa feita: “Os escritores desse gênero são impiedosos. O biógrafo nato é um sujeito cruel, ávido por anedotas”. Você concorda? Da minha parte, considero-o, isso sim, um sujeito generoso, que resgata a memória de pessoas que muito fizeram em suas atividades e que correm (ou corriam) o risco de serem esquecidas para sempre pela conhecida falta de memória da população. O que você acha?.
Boa leitura.
O Editor.
A biografia é um dos gêneros literários mais fascinantes, trabalhosos, nobres e perigosos que existem. Exige do biógrafo pleno conhecimento (dentro das circunstâncias possíveis) do biografado. Requer, além disso, aguçado senso crítico, para não transformar sua obra em mero discurso laudatório. Submete, aos que aceitam tamanho desafio, a anos e mais anos de exaustivos estudos, examinando toda a sorte de documentos, interpretando-os e deles extraindo os episódios que interessem.
Ainda quando o personagem que se propõe a biografar é vivo, ou conta com muitos parentes próximos que conhecem sua trajetória, a tarefa fica um pouco facilitada. Mas só um pouquinho. Por que? Porque pode entrevistá-los e extrair, diretamente da fonte, informações que só eles dispõem. Há, claro, o risco de ser influenciado pela personalidade do entrevistado e acabar sendo parcial na redação biografia que se propõe a escrever.
Na maioria dos casos, porém, o biógrafo tem que se valer, apenas, de documentos e de referências esparsas sobre seu personagem. Em alguns casos, tem que ler, classificar, selecionar e absorver informações e mais informações de uma tonelada de papéis. Convenhamos, é trabalho dos mais exaustivos, diria, estafantes.
No Brasil, tivemos e temos muitos escritores especializados nesse tipo de literatura que não ficam nada a dever a seus colegas do Exterior.. Claro que este espaço não comporta a menção da imensa maioria deles. Aliás, isso se torna desnecessário, pois o leitor, certamente, conhece vários e vários desses biógrafos.
Ademais, há escritores cuja especialidade não é essa, mas que, por um motivo ou outro, lá um belo dia se aventuram a redigir uma biografia. É o caso específico de Fernando Sabino (ao qual sempre apreciei não só como literato de mão cheia, mas, sobretudo, como magnífica figura humana, que tive a honra e o privilégio de conhecer), que “biografou” a ex-ministra Zélia Cardoso de Mello.
Para alguns, o querido escritor mineiro se “queimou” com isso. Discordo. Não se pode transferir ao biógrafo a antipatia que o biografado eventualmente desperte no público. O máximo que os leitores podem fazer, e é lícito que o façam, é não comprar o livro da figura que repudia. Mas marcar o escritor por isso descamba para o campo da sacanagem explícita. Foi o que tentaram fazer com Sabino. Zélia sim ficou marcada na sociedade brasileira por uma atitude que poucos desconhecem. Ou seja, pelo confisco da poupança da população, nos primeiros dias de governo de Fernando Collor de Mello.
Entre os biógrafos mais conhecidos do País e ainda em plena atividade, destaca-se o jornalista Ruy Castro, do qual sou ardoroso admirador. Suas biografias mais recentes são: “O anjo pornográfico”, abordando a trajetória do inesquecível (e folclórico, por que não) Nelson Rodrigues; “Estrela solitária. Um brasileiro chamado Garrincha”, sobre o segundo maior jogador de futebol de todos os tempos, abaixo, apenas, de Pelé, livro que lhe trouxe contratempos com a família do craque das pernas tortas; e “Carmem, uma biografia”, abordando a “pequena notável”, Carmem Miranda.
Fernando de Morais, igualmente jornalista, também se insere entre os grandes biógrafos nacionais. Seu livro “Chatô, o rei do Brasil”, tratando das peripécias de Assis Chateaubriand, fez enorme sucesso e já virou filme. De sua autoria, também, é o relato sobre o escritor Pedro Nava, entre outros.
Isabel Lustosa, com seu instigante livro “D. Pedro I. Um herói sem nenhum caráter”, é outro grande destaque no gênero. Aliás, por falar no “pai” da nossa independência, não se pode esquecer o livro de Paulo Setúbal, “As maluquices do imperador”. ´É uma delícia de texto.
Para mim, porém, o maior biógrafo brasileiro (sem nenhum demérito aos demais, citados ou não), foi o jornalista e escritor Raimundo Magalhães Junior. Tenho quase todos os livros biográficos que escreveu e parte considerável do meu conhecimento dos ases da literatura brasileira devo a ele. Foi um estudioso incansável. Causa pasmo a sua produção literária, tão copiosa e, sobretudo, de tão elevada qualidade.
Entre seus perfis biográficos, apesar da lista ser extensíssima, faço questão de mencionar os seguintes livros: “Artur Azevedo e sua época” (1953); “Idéias e imagens de Machado de Assis” (1956); “Machado de Assis funcionário público” (1958); “Machado de Assis desconhecido” (1955); “O fabuloso Patrocínio Filho” (1957); “Deodoro a espada contra o império” (1957); “Poesia e vida de Cruz e Sousa” (1961); “Poesia e vida de Álvares de Azevedo” (1962); “Poesia e vida de Casimiro de Abreu” (1965); “Rui, o homem e o mito” (1964); “A vida turbulenta de José do Patrocínio” (1969); “Martins Pena w sua época” (1971); “José de Alencar e sua época” (1971; “Olavo Bilac e sua época” (1974); “Poesia e vida de Augusto dos Anjos” (1977) e “A vida vertiginosa de João do Rio” (1978).
Vai aqui uma pitadinha de polêmica para agitar o sábado seu, inteligente leitor. O psicanalista argentino, Emílio Rodriguez, um dos biógrafos de Sigmund Freud, observou certa feita: “Os escritores desse gênero são impiedosos. O biógrafo nato é um sujeito cruel, ávido por anedotas”. Você concorda? Da minha parte, considero-o, isso sim, um sujeito generoso, que resgata a memória de pessoas que muito fizeram em suas atividades e que correm (ou corriam) o risco de serem esquecidas para sempre pela conhecida falta de memória da população. O que você acha?.
Boa leitura.
O Editor.
Não li tantas biografias. Umas vinte, se tanto, mas aprecio o gênero. O ruim para o biógrafo é quando ele é fã do biografado. Aí corre o risco de falar apenas como tiete, o que empobrece a biografia. É um ramo difícil, pois mesmo com várias fontes, e uma tentativa de imparcialidade, é bem provável que as características sejam ampliadas ou minimizadas por um ou outro que narre o fato, e ainda o escritor que é o fiel da balança.
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