sábado, 16 de janeiro de 2010




Palavras ao vento

* Por Anna Lee


O episódio em que o nosso ministro da Cultura, Gilberto Gil, recitou um cordel com críticas ao ministro das Comunicações, Hélio Costa, me fez lembrar de Bartleby, o Escriturário, de Melville. É bem verdade que num caminho inverso, mas lembrou.

O bate-boca entre os dois, Gil e Costa, foi reportado com detalhes pelos jornais e, provavelmente, o leitor conhece o conteúdo. Mesmo assim, vou mencioná-lo brevemente por achar necessário para estabelecer a relação que pretendo – entre a pendenga ministerial e Bartleby.

Gil, convidado a dar uma aula inaugural na Escola de Comunicação da UFRJ, declamou o texto de uma autora pernambucana para uma platéia de cerca de 300 pessoas: “O governo federal/ muito mal representado/ tem ministro de Estado teu empresário boçal/ O tal ministro citado/ que se chama Hélio Costa/ de fato somente aposta/ no monopólio privado”. E continuou: “Três modelos são usados em países estrangeiros/ Falta agora o brasileiro que já vem sendo estudado/ mas não é incentivado pelo ministro Hélio Costa/ que com uma conversa bosta/ só quer saber da imagem e do que traz de vantagem o comércio de resposta”.

O cordel é uma crítica à discussão que vem se arrastando há um bom tempo sobre a definição do padrão de TV digital que o Brasil deve adotar – se japonês, americano ou europeu – e a defesa de um modelo brasileiro.

Ofensa feita ao colega, Gil justificou o incidente dizendo que pegou de última hora o texto dentro de uma pasta em que guarda documentos sobre TV digital e não teve tempo de ler antes de recitar. Quando se deu conta das referências a Hélio Costa, já era tarde. E, então, se desculpou e afirmou que não teve intenção de insultar o ministro das Comunicações. Já Hélio Costa reagiu dizendo que “não é à toa que alguns amigos dele (de Gil) o chamam de Gilberto vil” e que agora entendia o porquê.

O que Bartleby tem a ver com isso? Bem, vamos lá. Um advogado de Wall Street o contrata para que os outros dois empregados que já mantinha no escritório não ficassem sobrecarregados. Ele é admitido sem nenhuma referência, após uma breve conversa, porque o patrão julga que seu aspecto “lívido” é sinônimo de uma constância capaz de compensar a irregularidade dos outros escreventes.

Como explica Deleuze, num texto sobre o livro de Melville, desde o primeiro dia o advogado coloca Bartleby num estranho “agenciamento”: determina que ele permanecerá em seu próprio gabinete, perto das portas do fundo que o separam do escritório dos outros empregados, entre uma janela que dá para uma parede vizinha e um biombo “verde como um prado”, como se fosse importante que Bartleby pudesse ouvir, mas não ser visto.

Deleuze prossegue: “Se é uma inspiração do advogado ou um acordo depois de curta conversa, jamais o saberemos. O fato é que, tomado nesse agenciamento, Bartleby invisível faz um trabalho ‘mecânico’ considerável”.

No entanto, à primeira solicitação do patrão para que abandone seu biombo, ele reage lançando a “fórmula”: “Preferiria não”, no original, “I would prefer not to”. Fórmula da qual, a partir de então, ele fará uso inúmeras vezes, seja quando o advogado quer mandá-lo fazer um serviço externo, seja para responder à mais simples das perguntas: “Bartleby, quer me dizer onde nasceu?”

Mais uma vez Deleuze explica: “Nota-se inicialmente um certo maneirismo, certa solenidade: prefer raramente é empregado nesse sentido, e nem o patrão de Bartleby, o advogado, nem os escreventes o utilizam habitualmente ('uma palavra esquisita, quanto a mim jamais a emprego...'). A fórmula comum seria antes I had rather not. Mas sobretudo a extravagância da fórmula extrapola a palavra em si: sem dúvida, ela é gramaticalmente correta, sintaticamente correta, mas seu término abrupto, not to, que deixa indeterminado o que ela rechaça, lhe confere um caráter radical, uma espécie de função-limite”.

Ou seja, algo que poderia soar como passividade diante das demandas que, indubitavelmente, as relações e o mundo impõem a todos tem o efeito arrebatador do indivisível. Dali não há mais para onde ir, a não ser jogar-se no abismo da não-palavra que, em sua falta essencial guarda múltiplas possibilidades.

Fico aqui pensando se o ministro Gil ao se deparar com o verso “... ministro Hélio Costa/ que com uma conversa bosta/...” tivesse parado e dito: “Preferiria não... continuar, prosseguir, falar”.Vou mais longe. Fico aqui pensando se Hélio Costa no lugar de ter reagido dissesse: “Preferiria não... comentar, rebater, contestar”.

Mas não. Um e outro preferiram insistir na única possibilidade das palavras ao vento das quais tem sido feita a política nacional. Para terminar, vou roubar a última frase do livro de Melville: “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!” E acrescento: Ah, politicagem!


*Jornalista, mestranda em Literatura Brasileira, autora, com Carlos Heitor Cony, de "O Beijo da Morte"/Objetiva, ganhador do Prêmio Jabuti/2004, entre outros livros. Colunista da Flash, trabalhou na Folha de S. Paulo e nas revistas Quem/Ed.Globo e Manchete.


2 comentários:

  1. Críticas ao vento são tão perniciosas quanto elogios ao vento. Ser contido, discreto e sério pode ser uma maneira menos letal do que alguns faladores.

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  2. Gosto da literatura de cordel.
    Seus versos são simples mas
    diretos como um soco no queixo.
    Abraços

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