quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Fim de ano

* Por Marco Albertim

Um hacker clonou minha senha no facebook. Com a sanha de um cão raivoso, desferiu dentadas em oito pessoas de minha relação. Insultos sonoros, de fazer inveja a lúmpens. A indignação fez corar o rosto da doce Carol Gondim. Vi-a pequena, de passos curtos, a imaginação tão viçosa quanto palpitante de curiosidade sobre os amigos de seus pais. Quase segui seu crescimento até vê-la coberta do recato próprio de uma matrona. O rosto se mantém suave, digno de um vento promissor. No primeiro instante, ela acreditou como sendo de minha lavra o mau uso da escrita. Bruno Albertim, meu filho, também objeto dos insultos, logo se deu conta da impostura; no mesmo face, fez ver a Carol de que alguém se apossara de minha senha. Não segui os minutos de transição no rosto de Carol Gondim, inda que seja fácil distinguir as nuances do susto, da repulsa, cederem à serenidade dos traços originais.

Sua mãe, Lilian Gondim, reagiu com a inquietação própria de quando fora militante contra a ditadura. Há algum tempo não nos vemos. Ela se pôs em guarda contra mim, pronta para repelir o ataque de um inimigo que, até então atento às regras do bom convívio, súbito se mostrara de baixo preço. Ler a ameaça de processo judicial, na caixa postal onde cato novidades, turvou a expectativa sã de todas as manhãs. Senti-me julgado pela humanidade, experimentando o fel da execração. Não tinha seu telefone para pôr tudo a nu. Socorro-me com Urariano Mota, àquela altura ausente de casa. Luanda, sua filha, por certo perplexa com o atropelo de minhas sílabas, acode-me do outro lado da linha.

Enfim, ouço a voz de Lilian Gondim, a mesma que canta com paixão telúrica a Evocação nº 1
- Foi hackeado... Já sei.

Não tem mais o ímpeto do contra-ataque. É um balbucio de alívio, feliz, a prosa que restabelece o bem-bom. Graças à intervenção da filha. O balbucio de Lilian, no entanto, não obstrui o estorvo de meu incômodo. Sinto que num canto de sua boca há um riso de zombaria tímida, como alguém que flagra uma criança no alvoroço de gritar inocência.
- Relaxe.

Um médico não seria tão terapêutico.
- Um beijo.

Um beijo carregado de lembranças, feito o bloco na marcha-regresso, no frevo imaginoso de Nelson Ferreira.
- Outro.

Respondo sinistro, pouco afeito a arroubos.

A informação me fora dada pelo meu filho Breno Albertim, o primeiro a se dar conta da astúcia ruinosa do hacker.
- Redefina sua senha no facebook!

Eu não tinha ideia precisa do estrago. Só quando abri a caixa postal destilando indignação em vez de votos de feliz ano novo. Respondi a todos num ritmo desproporcional aos batimentos cardíacos; tão sôfregos quanto a busca pelo modo como operar a redefinição da senha.

Augusto Semente, o comunista avesso a sustos, assustou-me com sua voz que ouvi pela primeira vez no telefone. Fora insultado no sossego de seu gabinete na sede do Partido. Também Dinha, sua camarada na rotina de mulheres comunistas no bairro do Totó. Ele logo se dera conta agressão apócrifa. Ela, nem tanto.

A essa altura da lembrança, convém não mencionar o nome de outra vítima. É um escritor de roteiros de filmes sobre o Recife do rio Capibaribe; resgata com elogios e respeito personagens esquecidos pela historiografia. Respondeu-me pelo facebook, usando a mesma língua do hacker. Já está inteirado de tudo. Logo tomaremos uma cerveja juntos.

*Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem três livros de contos e um romance.

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