Por Mara Narciso
Que destino triste aquele de Ana. Tão pequena e lhe morre a mãe. O pai casa-se novamente e lá se vai a coitada ser vítima das pancadas da madrasta. A malvada bateu tanto na cabeça da pobre, que ficou marcada, e não conseguiu aprender a ler. Na roça, ainda no escuro, quando mal alcançava o fogão, já enchia os pulmões para acender o fogo. Morena, magra, cabelos crespos, sem atrativos físicos ou intelectuais, nem de longe supunha encontrar Pedro João, rapaz bonito, que com ela se casou mal a menina fez 15 anos.
O seu marido levou-a para a cidade, na qual trabalhava num modesto cargo público. Tiveram seis filhos, e Ana, mansa e feliz, cuidava de tudo, com muito asseio e capricho. Pedro João a tratava com um carinho que dava gosto ver. Tão dócil e atento, não lhe deixava faltar nada, nem mesmo amor. Desdobrava-se para agradá-la, que, de cara boa, se mostrava contente da vida.
Dos filhos, tinha os seus preferidos, o mais velho e a mais nova. Mas protegia a todos. E os netos foram chegando, assim como problemas de saúde. Ana manifestou angina, que é uma dor no coração. Precisava de controles periódicos, mas isso não era problema, pois seu marido, agora já aposentado, a levava, de bom grado, para consultórios, laboratórios, clínicas e farmácias.
O filho mais velho desenvolveu insuficiência cardíaca por Doença de Chagas, e vivia mais internado do que em casa. O sofrimento adicional foi ver a nora o traindo, e deixando as crianças de lado. Ana viu seu filho morrer, e logo a viúva dele adoecer devido à vida desregrada, e que também veio a falecer, com seus netos ficando ao deus-dará. Ana sofreu muito, mas, corajosa, cuidou de todos.
Há tempos não sabia que dia era, nem do mês e nem da semana. Falava muito no filho morto, mas não sabia o ano da morte dele. Aliás, não sabia nem a data de hoje. Chorava muito, e, fervorosa, achava na religião consolo para suas dores. Venceu a depressão, e a vida continuou com Pedro João, o restante dos filhos e netos.
O seu grande prazer era cozinhar para o marido, que a elogiava, sem jamais lhe fazer a mínima crítica. Ana também não. Amava e era amada. Pouco saía, exceto para o médico e igreja. Mas teve de sair às pressas para o hospital, junto com seu xodó, a filha mais nova, que já tinha lhe dado um neto. Era para reconhecer um filho morto num acidente. Não a deixaram vê-lo. Muito jovem, o rapaz deixou viúva e filhos pequenos. Sua mãe ficou despedaçada, quase morta pela segunda vez, como se fosse possível morrer duas vezes.
Emagreceu muito com essa perda. Chorou até lhe faltar forças. Todo o sofrimento da saudade do primeiro filho voltou, e quem a conhecia achou que ela nunca mais sorriria. Mas tinha a filha mais nova, que se agarrou a Ana, levando-a para todos os lugares, atenta às necessidades da mãe.
Forte e disposto, tempos depois Pedro João ficou acabrunhado, não comia o que Ana lhe preparava, e também emagreceu, mas não se queixava. Levava a esposa aos lugares, mas, discreto, deixava Ana à vontade. Depois de terminada a conversa, aparecia.
E não é que Pedro João resolve adoecer? Amanheceu paralisado da cintura para baixo, e ainda assim não quis ir ao hospital. Mas a filha o obrigou a ir, ficando ao lado dele. Em uma semana estava morto. Foi um câncer de estômago que ele sabia existir há um ano, e que ocultou para não ser tratado. Ana tinha notado seu emagrecimento. Para que ela não sofresse, esperando pelo pior, ele a poupou.
Morto o marido, Ana demorou a conseguir se levantar, largada na cama sob efeito de calmantes. Dormia muito e não comia. Só falava em morrer. Quando se recuperou parcialmente da realidade tormentosa, e conseguiu forças para abrir os olhos, encontrou na filha mais querida um suporte, um consolo, uma esperança. A filha estava ao seu lado, como que atada a ela, ajudando-a em tudo. Morava perto e orientou o seu filho, já rapazinho, que passasse a dormir na casa da avó. Tomou conta da casa, carro, compras, contas, documentos, e retiradas da pensão, lhe dando também presença e carinho. Com voz suave e sorriso frequente, passou a mão nas receitas, organizou a tomada dos remédios, um problema grande para quem não sabe ler.
Tempos depois começaram a faltar coisas para Ana. Da pensão que permitia viver com folga, agora não dava mais. Busca daqui, procura dali, os outros filhos entraram na história para decifrar o sumiço do dinheiro. Mas as pancadas sobre a cabeça de Ana ainda não tinham terminado. Desde a morte do marido, a filha vinha roubando-lhe a pensão. Sem a mãe perceber, fora reformando a própria casa, trocando móveis, e também fez um empréstimo consignado. Como não havia mundo algum para desabar, pois tudo já havia ruído, Ana desabou.
Ah, como pode ser amarga a vida! Seu coração não resistiu. Sim, essa dor a matou.
*Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade” – blog http://www.teclai.com.br/
Quanta tristeza, mas ao mesmo tempo quanta realidade. Narrativa dura, Mara, porém um retrato da vida. Abraços.
ResponderExcluirA lei que permite aposentados fazer empréstimos acordou os espertalhões, que não têm vergonha alguma em fazer dívidas para pais e avós, que ficam acuados e sem o mínimo para o seu sustento. Quando entre o assunto dinheiro, boa parte do amor filial desaparece. Obrigada, Marcelo, pelo comentário.
ResponderExcluirTriste realidade, Mara. Parabéns pelo texto. Abraço!
ResponderExcluirSoube depois que a filha comprou carro e foi à praia com o dinheiro da mãe. Revoltante! Obrigada pela passagem e comentário, Sayonara.
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