segunda-feira, 15 de junho de 2009




Garras de harpia

Por Daniel Santos

Tanto as amigas avisaram (e pressionaram!) que uma noite ela resolveu ir até o boteco pôr tudo em pratos limpos. Se o marido estivesse, de fato, com a outra, a tal loura, tiraria sangue dos dois sem piedade.

E foi. E viu: ele e a dita-cuja – umazinha de sobrancelha escura com um enorme letreiro na testa dizendo VADIA. Ah, aquela não enganava ninguém, não mesmo! Mas levou-lhe o marido, enfeitiçou-o.

A tipa esbanjava vulgaridade; na certa, uma dessas das calçadas que bebem cerveja no gargalo e se rebolam lascivas, sem pudor, em qualquer batuque com um shortinho mais justo que a mais premente necessidade.

Ah, aquilo era demais para a esposa! Pois avançou neles com garras de harpia e fúria de medéia. Deformados de medo e tapas, muitos, correram do boteco à rua e, daí, para nunca mais, sabe-se lá até onde.

Ela, não. Retirou-se num vagar só glórias, imperial. Mas lembrou-se da louça ainda a lavar e correu a casa. Enganara-se. Cozinha em ordem, cheiro de saponáceo na pia, pratos já limpos no escorredor: estava quites.

* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.

9 comentários:

  1. Mais uma lição de como narrar bem determinada situação sem palavras supérfluas. Texto preciso, enxuto, cirúrgico e, sobretudo, criativo. Parabéns, como sempre, amigão!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Acerto de contas é por tudo em pratos limpos na vida e na pia. Essa foi uma vingança boa, porém ainda insuficiente, na minha contabilidade. Os adjetivos para classificar a desclassificada tiveram o tom amargo do ciúme, mas lhe cairam muito bem, como sempre Daniel.

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  4. Essa é da carpintaria do Daniel. Justa e envolvente como um laço.

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  5. Essa peleja foi ali no Brás. Eu também estava no boteco e vi tudo!

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  6. Quando a " relação" chega a esse ponto, é hora de arrumar as malas e cair fora. A fila anda....
    Pra quê gastar energia com gente inútil ?

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  7. Meu amigo e guru Daniel, sua pena também é garra afiada, a nos vingar, com o texto enxuto de sempre, de tanta porcariada que encontramos www afora. Obrigado por mais este presente.

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  8. Mas este texto está demais, Daniel.Li mais nas entrelinhas do que nas linhas. Isto é que é talento! Benza Deus!
    Beijos

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  9. Pedro, Mara, Murta, Fábio, Celamar, Marcelo e Risomar (puxa, que time!), obrigado pela visita amorosa que deixa sempre no ambiente um perfume para mim muito grato. E voltem e voltem e voltem.

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