Análise
da política brasileira após a
prisão de Lula
prisão de Lula
*
Por Bruno Lima Rocha
Terminado
o pior da ressaca desde o tuite do general Eduardo Villas Bôas,
passando pela sessão do STF que julgou o HC de Lula e o negou e
culminando com o decreto de prisão por Sérgio Moro e a entrega do
ex-presidente no sábado dia 07 de abril, abrem-se mais dúvidas do
que certezas.
Perguntas
incômodas
Poderíamos
ficar listando perguntas cujas respostas são desencontradas, e neste
momento, em abril de 2018, impossíveis de serem respondidas. Um fato
é inequívoco. O status político do ex-presidente Lula se equipara
ao de Getúlio Vargas, com todos os seus méritos, limitações e
contradições. Daí que o posicionamento do nacionalismo popular,
trabalhismo, centro-esquerda, esquerda eleitoral e esquerda classista
gira e gravita de forma mais ou menos próxima ou distante da figura.
Isso também ocorreu com Getúlio, mas sem a curva descendente de seu
partido, o antigo PTB, ao contrário do que hoje ocorre com o PT.
Lula, mito sem partido com a mesma penetração, logo, legado em
disputa, ainda que o mito esteja em vida e falando.
As
cenas de São Bernardo em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do
ABC transcendem a vontade ou a decisão de não resistir e fragmentar
de vez a hoje frágil institucionalidade brasileira. E por aí
seguimos em raciocínios mais prolongados em futuras postagens. Vai
ser difícil retomar o ordenamento da Constituição de 1988, mesmo
porque hoje, importantes setores dos estamentos do Ministério
Público, da Magistratura, dos delegados da PF e da oficialidade de
alta patente, ou não o querem mais ou a minoria que fala aparenta
falar pelas instituições. Assim morreu, de morte matada, o Estado
Social de Direito que consta no texto constitucional. Terminou, por
assassinato, o ciclo onde o aparelho de Estado intermediava - de
forma seletiva é verdade - as reivindicações sociais e tolerava
apenas - pelo seu perfil de classe - maravilhosos textos normativos
de caráter legal, tais como o ECA (Estatuto da Criança e do
Adolescente) e o fantástico Estatuto das Cidades.
Desde
sempre se soube e se sabe. Os direitos são de quem os conquista e de
quem os exerce. Mas ainda assim há uma diferença substantiva em ter
direitos reconhecidos - ainda que parcialmente materializados - e não
ter mais direitos reconhecidos, como ocorreu com a famigerada
"reforma" trabalhista. Melhor seria "desatucanar"
a linguagem e assumir; "a restauração anterior aos anos ’30".
Que
sirva de lição. As direitas brasileiras não são "liberais
conservadores vitorianos", não mais. Talvez os barões da
mídia, e ainda assim às vezes. Aqui levaram Vargas ao suicídio e
prenderam Lula. Ou seja, combatem os conciliadores, os que buscam um
centro e um consenso nacional. O que pretendem com a massa, o povo,
com as maiorias? Palmares e Pindorama caminharão por um lado e os
herdeiros dos Orleans e Bragança, da República dos Coronéis e dos
Neocolonizados tentarão pisar nos nossos calcanhares. Simples e
terrível assim.
É
possível uma política de governadores?
A
visita de nove governadores (das regiões Norte e Nordeste) e mais
três senadores à Curitiba, tentando fazer uma homenagem e
reconhecimento da condição de Lula como preso político esbarrou na
Execução Penal. Ou seja, por mais legítimos que sejam os poderes
da república e os poderes Executivos subnacionais, não houve caso.
A magistrada não permitiu a visita! Imaginem se Lula tivesse optado
por "esperar" o decreto de prisão em um estado governado
por um correligionário ou aliado? O que poderia acontecer?
Teria
capacidade o governo Temer de decretar Intervenção Federal em mais
dez estados membros da União? Falo União, pois me parece um
"sacrilégio" denominar o Brasil como federação. Mas,
voltando, seria possível fazer uma política de governadores a
partir de 2019? E se esta não for feita, o novo presidente ou
presidenta, caso venha do trabalhismo, centro-esquerda ou esquerda
eleitoral, manterá a relação assimétrica onde o Poder Executivo
atua como equivalente da Alemanha para a União Europeia? Sendo muito
franco, não vejo como quebrar as amarras da centralidade e do fato
da Política estar como refém do Banco Central e do Conselho de
Política Monetária sem quebrar as bases do Presidencialismo de
Coalizão ou do Quase Parlamentarismo.
Como
sempre é possível que esta manobra parlamentarista venha a ser
tirada da gaveta, logo, as relações para além das bancadas no
Congresso ou o constrangimento do estamento togado e MP, precisaria
de duas vias, que podem ser ou não complementares:
O
problema é assumir os dados de realidade. Existe um excessivo
protagonismo de estamentos do Estado, algo que na década de ’50
até o golpe de ’64, ou durante o período que vai da queda de
Vargas em ’45 (e o Movimento Queremista) até o 1º de abril de
1964 - e caso queiramos esticar a linha, até o 13 de maio de 1968 -
as elites políticas civis sempre contaram com setores militares mais
ou menos alinhados à constelação de partidos majoritários da
época, indo do PCB a UDN. No decorrer deste período, a formação
de dois setores militares, dois "partidos-facções"
interna corporis (como a "Sorbonne" X "Linha Dura")
girou o polo da centralidade, sendo quase tudo resolvido dentro do
próprio estamento.
Hoje,
além do retorno paulatino do generalato à vida política - ao menos
através de comunicações oficiais e no auxílio ao governo
ilegítimo - tivemos uma experiência nova. A "república dos
bacharéis" criou seu novo-velho estamento, marcadamente
alinhado com aventureiros, meritocratas, orientados politicamente
pelos EUA e com privilégios quase de mandarinato ou de janízaros do
decadente Império Otomano. Mas, ao contrário dos militares,
magistrados e procuradores não têm uma centralidade nem política e
tampouco com hierarquia tão definida.
Logo,
tudo fica mais difícil; a política está a jato, cada vez mais as
camadas sociais baixas são receptoras de comunicação política
viralizadas e sem intermediários sólidos; e temos bolhas bastante
difíceis de serem ultrapassadas. No meio deste embate sem fim,
qualquer postagem pode ser criminalizada, o que implica uma campanha
com um dedo digitando e um alerta no jurídico. Ao contrário dos
anos ’50, fica mais difícil abrir cunhas no Poder Judiciário,
embora esta agenda seja urgente.
Parece
absurdo tamanho retrocesso em tão pouco tempo. Talvez possamos
afirmar: aqui jaz a Constituição de 1988 e o Estado Social de
Direitos (de 4ª geração). Agora é tudo de novo e em bases sociais
novas. E haja fôlego.
Concluo
esta breve série passando por temas de risco, antecipando cenários
eleitorais possíveis
Primeiro:
não há um grau de certeza, quiçá de favoritismo, mas hoje podemos
afirmar - no período pré-eleitoral - que as chances de Jair
Bolsonaro, concorrendo através do PSL e com o até agora declarado
apoio do empresário da fé alheia Silas Malafaia, são muito
grandes.
Segundo:
com ou sem este favoritismo, Bolsonaro tem ao redor de 15 a 20% de
apoio estimado, mais o entusiasmo de suas bolhas autoconvocadas,
colocando o conflito em uma dimensão que ultrapassa o nível
simbólico.
Terceiro:
o evento do "suposto pescotapa" (na era da pós-verdade,
este é um absoluto, a suposição do fato quase ocorrido) onde o
produtor audiovisual ligado ao MBL coloca sua bateria virtual e
distorcida contra o pré-candidato do trabalhismo, Ciro Gomes, em
evento empresarial na PUCRS (abril 2018). Isto implica no
reconhecimento - por parte dos recursos disponíveis para a direita
mais entreguista - da capacidade de Ciro disputar o "centro da
política" e galvanizar os votos orientados pelo empresariado
brasileiro restante, incluindo o agro, através da adesão da
senadora Kátia Abreu (TO) no PDT.
Quarto:
o debate antecipado, onde a centro-esquerda pode fechar já no
primeiro turno o mal menor e adiar a transferência de votos de Lula
para seu preposto (talvez Fernando Haddad). Neste sentido, na disputa
desesperada entre a sobrevivência e a coerência, é possível que o
PT opere como fiador da não agressão entre o aliado PC do B e o
partido que fez oposição por esquerda, o PSOL, e ao mesmo tempo,
cave uma posição de vice na chapa encabeçada por Ciro.
Quinto:
teremos possivelmente duas campanhas simultâneas por esquerda. Uma,
àquela que faz o embate anti-fascistas e anti-liberal, sendo ou não
esta campanha protagonizada por legendas eleitorais ou esquerda
classista - dentro e fora das eleições. Ao mesmo tempo, um
comprometimento cada vez maior com a reversão das medidas que nos
retiraram direitos constitucionais, a começar pela PEC do Teto dos
Gastos, que de fato passa por cima de uma cláusula pétrea do
controle social do orçamento.
Sexto:
o tema do bonapartismo pode estar presente através da possível
candidatura de Joaquim Barbosa, puxador da fila de uma série de
futuras iniciações de egressos de carreiras jurídicas e com
protagonismo na magistratura como no MP. Barbosa complica todo o
cenário e pode gerar um reforço no sistema de crenças no ativismo
judiciário como fonte de soluções extra-políticas. Assim, o
absurdo da condenação sem provas na Ação Penal 470 (a do
Mensalão) pode fazer da falha virtude na urna eletrônica.
Sétimo:
as articulações do arrivismo do STF - com o ativismo a pleno
pulmão -, da reinterpretação da Constituição segundo a
pressão da opinião publicada e a existência de facto da "República
de Curitiba" pode criar o antagonismo necessário para alguma
solução extra-eleitoral ou extra-política. Esta "solução"
pode ocorrer tanto no segundo semestre de 2018 - com uma pouco
provável candidatura de Lula ou de candidatos mais à esquerda -
como no primeiro semestre de 2019, na prática e em conluio com as
oligarquias do Congresso, isso sem contar com as possíveis pressões
da caserna.
Concluo
dizendo que o mais temerário de fazer análise ao correr dos
acontecimentos é ter pouca precisão. O inverso é mais perigoso. Ao
não fazer, corremos o risco de só debater fatos consumados,
verdades pós-fatos depois que quase tudo foi perdido justo por quase
ninguém arriscar quase nada. Os tempos são complicados mesmo, mas é
preciso seguir adiante, com rigor analítico e fervor pela causa do
povo
*
Professor
de relações internacionais e de ciência política.
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