Presa fácil
* Por
Marco Albertim
O apito vindo da
fábrica estourou primeiro nos ouvidos de Mousinho. Convencera-se disso há pouco
mais de três meses, quando fora despedido, surpreendido pelo dedo em riste do
chefe da manutenção, por ter desbastado um milímetro a mais, no torno, um pino
de aço que serviria de ligação entre a base de um estampo e sua navalha, acima,
para o corte de chapas de ferro, quadradas, pequenas, com laterais de igual
comprimento.
Acostumara-se ao
estouro do apito enquanto estava empregado, visto que a sonoridade alegre vinda
do cimo do bueiro, saudava-o, lembrando a utilidade de sua vida, inda que a
rotina dos dias fosse tão cinzenta quanto as paredes de adobe seco da casa onde
morava.
Agora, sem a agudeza de
antes, a sirene estrugiu densa, trazendo o dorso largo abaixo do rosto duro,
frio, do chefe da manutenção. Mousinho não se olhou no espelho, não precisava;
o couro seco de sua pele morena contraíra, feito uma aderência lenta, sem
freios, à mesma cor ressecada das paredes sem reboco, só com a crosta com
pontas desiguais, de baixo para cima do teto, junto às telhas expostas.
Pensou em tomar um
café, pensou com olhos sombrios e selvagens, sorvendo o cheiro quente, fumaçado,
vindo dos fundos da casa. Ao lado da cozinha sem móveis, a vizinha já espremera
o pano de café, despejara-o no bule de ágata, pusera-o na mesa onde se juntava
ao marido de bigode basto, tão escasso de palavras que perdera o jeito de dar
bom-dia. E ainda os dois filhos, enteados dele; o mais velho, cobrador de
ônibus, tão tagarela, que se referia ao dinheiro passado em suas mãos, como se
estivesse amealhando para si próprio. O colóquio, inda que seu salário fosse de
curta duração, também bulia de cobiça os olhos da mãe e do padrasto. O filho
mais novo, submisso ao silêncio impositivo do padrasto, mastigava mudo o cuscuz
quente com a língua já encourada pela comedoria muita, sem a sustância de
proteínas.
Mousinho teve o cuidado
de pentear os cabelos com a escova de cerdas grossas; o penteado para trás
serviria de disfarce às maquinações mal contidas na fronte de fauno. Depois, o
bom-dia na voz submissa, deixando escapar um indício de urbanidade, ocultaria o
rebuliço dos sonhos já esquecidos. Ele passou rumo ao banheiro de uso comum;
impossível não se dar conta dos urdumes daquela família, àquela hora também
espreitando a marcha sem surpresas do dia mal anunciado; sobretudo os urdumes
de Tércia Tiara, a quem cabia receber o dinheiro do aluguel pago por Mousinho.
Despedido há três meses, não dera conta do ócio involuntário à proprietária
cinquentona, de cabelos lisos, estirados, escondendo a nuca ainda lisa,
resistente à tensão de segurar com uma das mãos a alça dos baldes cheios
d´água, puxada com a ajuda da bomba manual nos fundos do quintal.
Mousinho cobriu-se da
água esfriada da manhã sem calor. Quando saiu do banho, aliviou-se vendo a
cadeira vazia do velho que nunca respondera a seus cumprimentos; a do velho, a
do enteado falastrão e a do caçula com o juízo tolhido pelo medo inconfesso. Só
Tercia Tiara, ainda recolhendo pratos, talheres, uns restos do cuscuz, e
prestes a fazer uso da bomba na beira do poço, na lavação das louças.
Mousinho, com o que
recebera da indenização, não deixara de pagar o aluguel. Tércia Tiara, sem
contar a pecúnia recebida, recolhia-a ao bolso do vestido, na altura da coxa
grossa, do mesmo marrom escuro de seu queixo torneado.
O macacão de uso na
fábrica, Mousinho pendurara-o depois de lavado, de espremer com sabão grosso as
camadas de óleo e graxa no dia a dia gorduroso na oficina de manutenção da
metalúrgica. A secagem no varal dos fundos, beneficiava-se do mesmo calor nas
calcinhas de largura plena de Tércia Tiara.
Ele saiu. O macacão
ficou para trás, guardando o viço da limpeza e a impropriedade de não voltar a
se engordurar de óleo. Foi para a frente da fábrica, ali mesmo, a dois
quilômetros da rua onde morava, no meio da população rala da Vila do Pirambu.
Pendurada no gradil de ferro, na entrada da fábrica, viu a placa anunciando
vagas, sem precisar o ofício; por certo mais um ferramenteiro, com habilidades
no fabrico de peças com medidas de precisão. Um milímetro a mais no desbaste do
aço bruto, o anúncio de outra vaga seria posto sem pompa, inda que com o
cálculo seguro de quem mira o primeiro desempregado do outro lado da rua.
Sentou-se no banco do
abrigo da parada de ônibus. Trocou duas palavras com a velha a quem comprara
fiado pães, bolachas e doces. A velha cumprimentou-o feliz com os olhinhos
miúdos. Ofereceu-lhe café sem nada cobrar, posto que soubera de sua dispensa.
Ao meio-dia, a sirene
estrugiu o aviso para o almoço. O chefe da manutenção, sem fazer uso do
refeitório, cruzou a rua para subir no ônibus, almoçar em casa.
- Ainda está desempregado? – quis saber de
Mousinho.
Viu no desânimo do
ex-subordinado, uma presa fácil para entregar à gerência uma captura pouco
onerosa à folha de pagamentos.
- Tenho uma vaga para
você. Para trabalhar como ajudante de ferramenteiro, e não como
ferramenteiro...
*Jornalista e escritor.
Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife.
Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do
concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em
concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite,
integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”.
Tem três livros de contos e um romance.
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