quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O preço da civilização e da vida confortável

* Por Mara Narciso

Por volta dos meus dez anos, na minha casa tinha geladeira, chuveiro elétrico, televisão (aqui não falamos televisor), batedeira, rádio, ferro elétrico e enceradeira. Num certo período não tinha telefone. Recado, só pessoalmente. Poucos anos antes, na casa da minha avó Maria do Rosário de Souza Narciso tinha as mesmas coisas, exceto televisão e batedeira. Tinha também liquidificador. Com a melhora do salário mínimo em relação ao dólar, o aumento do poder aquisitivo da população e crédito fácil, a presença de eletrodomésticos, que até recentemente servia ao IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística- para determinar as classes sociais, não mais determina a estratificação social. Quase todos podem ter motocicleta, máquina de lavar, TV com controle remoto, telefone celular, e muitos têm carro com vidro elétrico.

O preço dessas comodidades é a necessidade de frequentar academias de ginástica para reverter a alta incidência e gravidade da obesidade. A minha avó pesava 46 quilos a vida toda, mesmo depois de ter tido onze filhos. Quando solteiras as suas filhas a ajudavam, e sempre teve empregada doméstica, mas lá tinha escovão para dar brilho ao assoalho, a roupa era lavada à mão, nada era descartável. Após o uso era preciso lavar para reaproveitar. Havia fogão e forno a lenha. Não tinha spray. Moía carne com a força do braço. Doces e biscoitos eram feitos em casa. Matava-se e depenava-se o frango. Havia seis quartos, escadas, jardim e quintal grandes para serem limpos, com muitas árvores e plantas. Íamos a pé a uma chacrinha que vovó possuía, a uns 5 km, aonde plantávamos um pomar. Não havia calorias suficientes para suprir, gastar nas tarefas domésticas e engordar, embora a minha avó quisesse ganhar peso, pois admirava as carnes de sua irmã gorda e fizesse superalimentação para isso.

Andar de carro, de elevador, usar vidro elétrico, controle remoto na TV, máquina de lavar, telefone celular e fralda descartável nos impedem da gastar energia. Estamos nos tornando uns inválidos. Não damos um passo a pé, e quem não faz o serviço doméstico de limpeza precisa comer muito pouco para conseguir manter o peso. A nossa fome é do tempo das cavernas e o acesso a comida é fácil e farto, com montes de calorias em recheios, molhos, gorduras, açúcar e porções gigantes. Como fazer para não ultrapassar os limites, considerando que o controle da fome é igual ao de nossos ancestrais que corriam de onças e leões?

Penso em como explicar o motivo para a maneira escandalosa com a qual as pessoas estão engordando. Muitos ganharam 5 a 10 quilos em dezembro. Repito que fotos antigas quase não mostram pessoas obesas. Os estudantes iam a pé para a escola, mesmo que tivessem de caminhar 30 ou 40 minutos. Muitos nadavam nas férias e não saíam de cima da bicicleta. Brincar de correr nas ruas era costume local. Não é de se estranhar que os estudos mostrem que as crianças de hoje são maiores, porém muito mais fracas fisicamente e perderiam feio caso disputassem com seus pais ou avós meninos, num cabo de guerra. Como fazer para mudar isso? Produzirmos comida e confortos e não os utilizar?

Como criar coragem de largar o sofá e ir se mexer? Será preciso deixar a TV, o computador e o videogame e fazer uma visita a pé a algum amigo, dar uma volta na praça, deixar os alimentos industrializados e privilegiar saladas e frutas. O sabor está nas gorduras, assim é um desafio abandonar os alimentos mais calóricos.

Estamos alargando o nosso olhar, pois as nossas crianças estão a cada dia ocupando maior espaço. Não só elas, mas principalmente os adultos. Olhando uma foto de salvamento nos Estados Unidos, impressionou-me a largura dos uniformes dos homens do corpo de bombeiros. Caso seus antecessores pesassem 80 a 90 quilos em 1m85, os atuais pesam mais de 120 quilos. Os uniformes estão gastando muito mais tecido e estudos podem confirmar a minha despretensiosa observação. Pessoas com mais de 150 quilos não são incomuns. A frequência da obesidade já não causa espanto, mas sim estranheza aos obesos quando se declina qual seria o peso correto, considerando-se o IMC - Índice de Massa Corporal, da Organização Mundial de Saúde, conhecido por todos.

Decretar que pesar mais não faz mal a saúde, ou mudar os critérios de peso adequado, não influenciam no resultado. Estamos ampliando os modelos e manequins, mundo afora. Será que veremos os avanços da civilização ser condenados? Isso se as montanhas de lixo e entulho produzidos e a poluição não nos direcionar novamente para as cavernas. Lá não mais teremos de correr dos mamutes, pois já acabamos com eles. E que não acabemos com nós mesmos, numa patética autofagia. Minha teoria é simplista, mas que tem lógica, isso tem.

Os ganhos em longevidade estão escapulindo pelas mãos da obesidade. Precisamos mudar rápido, pois apenas agindo diferente teremos outro resultado. Começando hoje, amanhã já será o segundo dia.


*Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade” – blog http://www.teclai.com.br/

3 comentários:

  1. Ótima reflexão, Mara. Aquela campanha do "mexa-se", lá dos anos 70, precisa voltar à mídia. Um grande abraço!

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    1. Ando assustada com a velocidade do ganho de peso das pessoas. Ganham fácil 6 a 10 kg num mês. Vejo uma mulher emagrecer 20 kg em seis meses, fazer plástica de mama e abdome, ficar toda contente, e ... Poucos meses depois a encontro com mais de 100 kg. É preciso fazer alguma coisa para evitar essa catástrofe, Marcelo. Vamos lá?

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  2. O progresso trouxe facilidades, e com elas o ganho de peso, bom texto e nos remete a uma reflexão sobre o nosso modo de vida...

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