quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Arystarch

* Por Rubem Costa

Enviado pela autora, chega-me às mãos o livro de Raquel Bueno — Arystarch, o Arquiteto dos Deuses. Volume ricamente ilustrado com fotos de Gustavo Olmos, reflete o trabalho emblemático de um artista que se debruçou na persecução mística de sentimentos sacros. Arregimentando imagens com a persistência de crente, a autora procura traduzir na obra a impressionante existência de um ser que, vencendo os percalços cruéis do mundo, ressurgiu das próprias cinzas para, tal fênix rediviva, proclamar no átrio dos templos a grandeza de Deus. Um ser que, no rumo do seu destino, viu inscrita a sombra dos predestinados, criaturas que o Criador promove para alcançar por linhas tortas a reta última de sua vontade.

Desígnio que exala do impenetrável, de onde deflui o mistério das origens a demonstrar que o impossível não existe e o irrealizável é termo que sobrevive apenas no dicionário dos vencidos e desalentados. Porém, Inútil é tentar compreender o segredo das coisas inimaginadas pelo homem. Daí, nas veredas da existência, o sortilégio do imponderável nos leva à reflexão de Shakespeare quando põe na boca de Hamlet a máxima que atravessa os séculos como um alerta à nossa insciência: — “muita coisa há entre o céu e a terra, que ignora a nossa vã sabedoria”. Lição cediça, mas infinita.

É o enigma que vindo de raízes ignotas da criação, transforma a vida no espanto que dobra o ser diante do inexplicável. E mais genuflexos ainda ficamos quando esfumada no imponderável aparece a mágica da repetição do fenômeno. Eis que, tanto quanto Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que tinha mãos entravadas, Arystarch, vitralista, mosaiquista, mestre do sgrafiatto (baixo relevo), artes que brotam das mãos, era igualmente maneta. Dele, de seu infortúnio e de sua vitória, a mais próxima informação está no livro expositivo de Raquel.

Em síntese, nele se aprende a história comovente de um homem, cuja vida seria outra, se não fosse a tragédia da Polônia, ao tempo da segunda grande guerra, quando numa explosão de bomba teve as duas mãos decepadas, além de ficar cego do olho esquerdo. “Un uomo finito”, talvez terão dito os céticos que o viram prostrado em terra. Um homem acabado. Um ser infinitamente só na sua degradação física, sem ter ao menos onde repousar a cabeça viva.

Aventurou-se a pedir asilo ao Brasil, em que, por felicidade — apesar de haver então lei proibindo a entrada de deficientes físicos — foi acolhido. O melhor que Vargas poderia ter feito em favor da arte. E assim a nação ganhou o talento imenso que, vencendo o horror de um momento, fez de sua arte uma oferenda a Deus.

Numa marcha peregrina, povoou as igrejas do país com os mais belos vitrais, mosaicos e sgrafiattos até hoje conhecidos. Para encantar nossos olhos, a lente de Gustavo Olmos captou-os em magníficas fotos. Raquel Bueno os descreve. Admirado, eu os contemplo. E de repente, diante da surpresa de uma visão inesperada, meu espírito caminha célere para a Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, ali no Taquaral, onde me defronto com a imagem da santa no trono, com o cetro na mão e o menino Jesus no colo. Um mosaico de nove metros de altura confeccionado com mais de trezentas mil pastilhas coloridas.

E eu, pasmo diante da arte gotejante, me envergonho de minha indolência, do pecado de ignorar, até então, que ali se encontrava um dos monumentos mais belos da arte sacra no Brasil. Mosaico que, na sua mudez irônica parecia que estava a me dizer sarcástico o verso clássico de Goethe: “perto estou, de ti tão longe embora”, que equivale, por anacoluto, a uma avessa constrição mordaz: “perto estás de mim tão longe embora”. E aí, pela repreensão, diante do pito que me aplicou o mosaico, me rendo à obra imensa desse polonês genial que transformou as vicissitudes de uma guerra em oferenda de amor à humanidade.

@@@

Para bem esclarecer, o livro de Raquel Bueno representa uma pesquisa cultural cuja manifestação primeira se deu em estudos feitos em 1997. Mas se impôs como uma contribuição inestimável na divulgação da história da arte no Brasil. Muitos dele, desse livro, já falaram — e muito ainda falarão — porque é fadado a representar em nossa bibliografia um termo de descoberta, a elucidação da obra de um artista que, sem a tenacidade da pesquisadora, ficaria sepultada sem nome nos vitrais das igrejas. Disseminados pela nossa extensão territorial, são múltiplos esses trabalhos Em multiplicados lugares onde cabem sentimentos místicos; a arte do polonês se manifesta na combinação mirificante de vidros coloridos, conjunção caleidoscópica de partículas por onde a luz do sol transita para projetar na nave silenciosa uma comovente mensagem de paz. Ou na agregação de pastilhas aos milhares que se agrupam em arco-íris num painel para recordar a história milenar do cristianismo.

@@@

Raquel Bueno telefonou-me, ontem. Informa-me que tem em mãos novos e multiplicados elementos — históricos e ilustrativos — para um segundo volume sobre a vida e a obra de Arystarch no Brasil. Uma duplicação numérica que alarga o que já foi divulgado. A primeira parte, essa de que falei, foi patrocinada pelo Eletropaulo que reconheceu a importância de uma tarefa de tão alto porte. E agora? Quem se habilita a financiar o prosseguimento desse trabalho por todos os títulos indispensável á história da Arte no Brasil?

* Rubem Costa é escritor e membro da Academia Campinense de Letras

Nenhum comentário:

Postar um comentário