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Gerânios em Perigo
* Por Isabel Vieira
Dia desses, abri a janela do meu escritório (o quarto da frente, onde trabalho) e levei um susto. Meus lindos gerânios, moldura verde que amenizava minimamente a aridez dos prédios ao redor, tinham sido arrasados por um trator. Não cortados ou podados, me entendam bem; os tocos desolados sobre a terra nua me diziam que os pobrezinhos haviam sido extirpados com a fúria digna do melhor Stallone.
Além da revolta, o mistério: que Rambo teria acesso à floreira de um décimo quarto andar?
Atordoada, levei alguns minutos para deduzir que o exterminador só poderia ser o Homem Pendurado nas Cordas. Há dias, desde que começara a pintura do edifício, ele vinha nos atacando por todos os flancos e com as armas mais insólitas. Uma janela entreaberta num banheiro, num quarto? Pois lá ia uma mangueirada d'água violentíssima, arrastando a fuligem paulistana para dentro de casa. Civis desarmados à mercê de guerrilheiros na selva, de nada adiantava tentar prever a estratégia dos ataques. Onipresente, o Homem das Cordas podia surgir a qualquer hora em qualquer das faces do prédio.
Mas agora ele tinha extrapolado. Nos reunimos, os moradores, indignados. Eu não fora a única vítima. De facão em punho, o alpinista assassino havia decepado as floreiras dos dezoito andares. No térreo, diante de condôminos consternados, jaziam rendas portuguesas, hortênsias, samambaias, heras, rosas. E a azaléia de dona Otília, velhinha corajosa. Tinha enfrentado o tipo num perigoso corpo-a-corpo, ela do lado de dentro, ele com o facão na janela. Implorou-lhe que poupasse a plantinha, xodó do marido morto. Em vão. Ele tinha recebido ordens de "limpar" tudo antes de pintar o prédio, insistira o Homem.
Um ooohhh!!! cheio de augúrios varreu a platéia. Ordens de quem?!... O pobre síndico nem precisou jurar inocência. Bastou exibir, quase chorando, seu janelão desértico onde antes havia uma densa floresta, para sabermos que o Homem das Cordas agira por conta própria. Foi mandado embora, coitado.
Digo isso porque me sinto, agora, meio culpada. Há razões de sobra para fazê-lo tão mal-humorado. Tem um trabalho perigoso e mal pago, mora longe, pega condução lotada, e por aí vai. De sua posição estratégica, mirando nossa classe média, deve sentir um impulso irresistível de nos agredir. Como esperar que respeite a vida, se não sentir que sua própria vida é respeitada? Nossos gerânios (tomara fossem só eles!) continuarão em perigo enquanto cada brasileiro não tiver uma casa com floreiras na janela.
O que me consola é que somos uns fortes. Hoje notei, surpreendida, que a terra ressequida, que desisti de regar, nem assim ficou estéril. Cada toco sobrevivente ostenta minúsculos tufos verdes, crescendo em velocidade espantosa. Ainda não os vejo daqui, de onde escrevo, porque nem alcançam o peitoril da janela. São folhinhas incipientes, mirradas. Sem-vergonha como os humanos, sempre prontos a recomeçar depois de sofrer qualquer crueldade.
*A paulista Isabel Vieira foi editora das revistas Capricho e Claudia. É autora de 20 romances juvenis, entre eles “Em busca de Mim” (FTD, Prêmio Orígenes Lessa - FNLIJ), “E agora, mãe?” (Moderna), “O verão tem gosto de sal” (Moderna) e “O ano em que fizemos greve de amor” (FTD, Prêmio Adolfo Aizen - UBE).
* Por Isabel Vieira
Dia desses, abri a janela do meu escritório (o quarto da frente, onde trabalho) e levei um susto. Meus lindos gerânios, moldura verde que amenizava minimamente a aridez dos prédios ao redor, tinham sido arrasados por um trator. Não cortados ou podados, me entendam bem; os tocos desolados sobre a terra nua me diziam que os pobrezinhos haviam sido extirpados com a fúria digna do melhor Stallone.
Além da revolta, o mistério: que Rambo teria acesso à floreira de um décimo quarto andar?
Atordoada, levei alguns minutos para deduzir que o exterminador só poderia ser o Homem Pendurado nas Cordas. Há dias, desde que começara a pintura do edifício, ele vinha nos atacando por todos os flancos e com as armas mais insólitas. Uma janela entreaberta num banheiro, num quarto? Pois lá ia uma mangueirada d'água violentíssima, arrastando a fuligem paulistana para dentro de casa. Civis desarmados à mercê de guerrilheiros na selva, de nada adiantava tentar prever a estratégia dos ataques. Onipresente, o Homem das Cordas podia surgir a qualquer hora em qualquer das faces do prédio.
Mas agora ele tinha extrapolado. Nos reunimos, os moradores, indignados. Eu não fora a única vítima. De facão em punho, o alpinista assassino havia decepado as floreiras dos dezoito andares. No térreo, diante de condôminos consternados, jaziam rendas portuguesas, hortênsias, samambaias, heras, rosas. E a azaléia de dona Otília, velhinha corajosa. Tinha enfrentado o tipo num perigoso corpo-a-corpo, ela do lado de dentro, ele com o facão na janela. Implorou-lhe que poupasse a plantinha, xodó do marido morto. Em vão. Ele tinha recebido ordens de "limpar" tudo antes de pintar o prédio, insistira o Homem.
Um ooohhh!!! cheio de augúrios varreu a platéia. Ordens de quem?!... O pobre síndico nem precisou jurar inocência. Bastou exibir, quase chorando, seu janelão desértico onde antes havia uma densa floresta, para sabermos que o Homem das Cordas agira por conta própria. Foi mandado embora, coitado.
Digo isso porque me sinto, agora, meio culpada. Há razões de sobra para fazê-lo tão mal-humorado. Tem um trabalho perigoso e mal pago, mora longe, pega condução lotada, e por aí vai. De sua posição estratégica, mirando nossa classe média, deve sentir um impulso irresistível de nos agredir. Como esperar que respeite a vida, se não sentir que sua própria vida é respeitada? Nossos gerânios (tomara fossem só eles!) continuarão em perigo enquanto cada brasileiro não tiver uma casa com floreiras na janela.
O que me consola é que somos uns fortes. Hoje notei, surpreendida, que a terra ressequida, que desisti de regar, nem assim ficou estéril. Cada toco sobrevivente ostenta minúsculos tufos verdes, crescendo em velocidade espantosa. Ainda não os vejo daqui, de onde escrevo, porque nem alcançam o peitoril da janela. São folhinhas incipientes, mirradas. Sem-vergonha como os humanos, sempre prontos a recomeçar depois de sofrer qualquer crueldade.
*A paulista Isabel Vieira foi editora das revistas Capricho e Claudia. É autora de 20 romances juvenis, entre eles “Em busca de Mim” (FTD, Prêmio Orígenes Lessa - FNLIJ), “E agora, mãe?” (Moderna), “O verão tem gosto de sal” (Moderna) e “O ano em que fizemos greve de amor” (FTD, Prêmio Adolfo Aizen - UBE).
Tudo se renova quando não cortam
ResponderExcluirsuas raízes...
Teimosia? Não...vontade de viver.
Abraços
Pobre homem e mais pobres ainda plantinhas. Mas em breve estarão de volta às jardineiras.
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