Os fantasmas
Você
acredita em fantasmas? Ora, ora, ora, fazer esse tipo de pergunta a
leitores esclarecidos e bem informados, que leem jornais, revistas,
livros de todos os tipos, que têm celular, computador, tabletes e
toda essa parafernália tecnológica de comunicação, e ainda mais
em pleno início da segunda década do século XXI, chega a ser
sacanagem. Claro que a resposta, certamente, será “não!”, salvo
alguma honrosa exceção . Mas será mesmo? Será que você não
acredita de fato neles ou está, apenas, tentando preservar sua
reputação de realista? Você é capaz, por exemplo, de cruzar um
cemitério à meia-noite, e em noite de lua cheia (ou, pior,
tempestuosa e por isso sem lua nenhuma) sem sentir, sequer, um
ligeiro arrepio de medo? Então você é um herói.
Ademais,
há milhares e milhares (quiçá milhões, talvez, até, mais de um
bilhão) de pessoas que creem sem pestanejar em assombrações e que
ficarão furiosas caso você tente, mesmo que disfarçadamente,
ridicularizá-las por essa crença. Há quem não somente acredite,
mas até esteja disposto a uma convivência, se possível harmoniosa,
com fantasmas. Na Inglaterra, por exemplo, determinadas residências,
ao serem vendidas, chegam a custar bem mais caro caso tenham fama de
mal-assombradas. Em muitas cidadezinhas norte-americanas do interior
dos Estados Unidos isso também acontece. Claro que dificilmente você
encontrará esse tipo de comportamento em megalópoles tipo Nova
York, Los Angeles, Chicago ou Boston. Mas... Nunca se sabe.
Diga
a essas pessoas que fantasma não existe! No mínimo elas lhe
contarão infinidade de histórias, que supostamente viveram ou
testemunharam, na tentativa de provar que você está errado. Como
existem mentirosos nesse mundo!!! E sequer me refiro a políticos
que, se tivessem o encantamento do boneco Pinocchio, famoso
personagem do escritor Colodi, teriam narizes com, no mínimo, meio
metro de comprimento. Mas... Deixa pra lá.
Acreditando
ou deixando de acreditar, o fato é que fantasmas são temas
recorrentes de excelentes livros de escritores até consagrados. Nem
é preciso citar nenhum conto ou novela, digamos, de Edgar Allan Poe,
“pai” das histórias de mistério e terror e também de caráter
policial. Querem outro autor que explorou bem o tema? Pois lá vai:
Henry James. Leiam seu clássico “A outra volta do parafuso”.
Duvido que consigam fazer a leitura indiferentes, sem um só arrepio
de medo, mesmo que não acreditem em fantasmas (ou pelo menos
apregoem aos quatro ventos essa descrença).
Mas,
não são apenas os ficcionistas que urdem histórias arrepiantes
acerca das supostas (e inexistentes, na verdade) almas penadas. Os
poetas também exploram amiúde o tema. Aliás, fazem-no mais do que
escritores de ficção. É verdade que seus “fantasmas” são
metáforas daquelas lembranças amargas, que todos temos, e que
desejamos esquecer, mas que, volta e meia, emergem, à nossa revelia,
à memória (essa “velha louca, que joga comida fora e guarda
trapos velhos”) para nos atormentar.
Quando
menino, influenciado pelos mais velhos, com suas histórias
escabrosas e arrepiantes de assombrações, contadas sempre em
primeira pessoa (que tremendos mentirosos!!), cheguei a acreditar
nelas. Claro que tão logo perdi a inocência, fiquei morrendo de
vergonha por minha ingenuidade e credulidade infantis. Mas não
descartei liminarmente os inexistentes fantasmas. Fiz deles, também,
como tantos outros poetas, metáforas de poemas e mais poemas que
compus, em meio século de exercício da arte de “poetar”.
Nestes, os metafóricos, ainda acredito e sinto que jamais deixarei
de acreditar.
Mário
Quintana também tratou deles. Num dos poemas (no que reproduzo
abaixo), acusou-os até mesmo de espionagem. Irritou-se com sua
intolerável intromissão em sua vida, em seus gestos, atitudes e até
pensamentos. Veja com quanta graça e beleza referiu-se aos seus
fantasmas. (Pudera! Foi um gênio!).
O espião
“Bem
o conheço. Num espelho de bar,
numa
vitrine, ao acaso do footing,
em
qualquer vidraça por aí,
trocamos
às vezes um
súbito
e inquietante olhar.
Não,
isso não pode continuar assim.
Que
tens tu de espionar-me?
Que
me censuras, fantasma?
Que
tens a ver com os meus bares,
com
os meus cigarros,
com
os meus delírios ambulatórios,
com
tudo o que não faço na vida?”
Da
minha parte, também tive minhas rusgas e embates com minhas
atrevidas assombrações. Claro que tratei delas da minha maneira um
tanto canhestra de poetar, sem nada que lembre, sequer remotamente, a
graça, a beleza e a inteligente ironia do meu conterrâneo Mário
Quintana. Querem conhecer algum poema meu tratando do tema? Pois lá
vai:
Meus fantasmas
“Quando
a noite vai chegando,
lentamente,
de mansinho,
de
mansinho, de mansinho,
quase
imperceptivelmente,
meus
fantasmas aparecem,
de
mansinho, lentamente
e
se acomodam.
Tomam
posse
da
mente vazia,
da
vida solitária,
de
uma cadeira vaga,
da
biblioteca,
da
escrivaninha em desordem,
dos
blocos em branco,
da
caneta esquecida,
da
mão esquerda
e
escrevem, escrevem tolices
que
me serão imputadas.
A
noite, boitatá voraz,
pisca
seus olhos de fogo,
arrasta-se
pelo tempo
e
é consumida pela serpente
de
outro dia vazio.
E
meus fantasmas, bonachões,
partem
silenciosos, de mansinho,
levando
novos fantasmas
que
a noite, moribunda, gerou.
Um
dia, quando o Tempo
consumir
todo o meu tempo,
e
quando a infiel boitatá
devorar
os olhos meus,
com
cada novo fantasma,
que
em tanta noite nasceu,
partirá
a última sombra:
e
essa sombra... serei eu”.
Agora
responda-me, sinceramente, sem nenhum medo de cair em ridículo
diante dos amigos, conhecidos e desconhecidos (que certamente
mentirão descaradamente ao responderem à também pergunta): você
acredita em fantasmas? Sim ou não? Por que?
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Eu acredito, porque convivi com alguém que via montes deles o tempo todo, mas não tenho medo. Na verdade, não estou nem aí para fantasmas, mas a minha mãe tinha pavor.
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