quinta-feira, 3 de julho de 2014

Façam bom proveito de seu caos!

* Por Fernando Yanmar Narciso

Nelson Mandela acreditava que, dentre todas as formas de se expressar, o esporte tem uma estranha capacidade de rir da cara das diferenças entre as pessoas e sintonizá-las em torno de um objetivo em comum. Só o esporte pode anuviar a alma e reavivar a esperança onde antes havia só desespero. Foi com essa ideia que ele uniu negros e africâneres em torno da Copa do Mundo de Rugby em 1995, evento que ele tratou de politizar e usar como o instrumento de redenção das vítimas da apartheid.

Faltando dois dias para o primeiro apito da Copa no Brasil, praticamente o mundo todo tinha certeza absoluta que nosso pobre e incapaz país estava a ponto de passar uma vergonha fenomenal. Os atrasos nas obras de infra-estrutura e dos estádios- perdão, “arenas”, eram alvo de terrorismo não apenas da imprensa nacional como da mundial. Então, vieram as mais que previsíveis acusações de roubalheira e superfaturamento de obras, greves de motoristas de ônibus e metroviários, a também compreensível ameaça de caos aéreo e dos movimentos anarquistas de rua e a hecatombe era uma certeza.

Nada iria funcionar no evento esportivo mais megalomaníaco do planeta. Houve até quem previsse um surto de dengue durante o torneio, que infectaria milhares de turistas gringos e os confinaria em nossos premiados postos do SUS até a morte. Isso sem falar em punições piores como a praga de gafanhotos, o granizo de fogo e a imolação de recém-nascidos... O que foi que fizemos pra merecer tamanho castigo?

A grande imprensa resolveu endossar esse terrorismo na esperança que o fracasso do evento manchasse ainda mais a imagem da presidente e do governo diante do mundo, e que isso de alguma maneira facilitasse o retorno da oposição ao poder. O clima no país, aparentemente, não podia ser menos propício para realizar um evento da magnitude de uma copa... E aqui estamos nós, comprovando novamente cada palavra do saudoso Mandela, mergulhados de cabeça nessa que, como Saddam Hussein provavelmente concordaria, é “a mãe de todas as copas”!

Os continentes estão apaixonados pelo nosso espetáculo, pelos estádios suntuosos, pela calorosa hospitalidade brasileira. Até parece que um país que produz desfile de escolas de samba todo ano não conseguiria dar conta de uma copinha à toa dessas! Já dizem aos quatro ventos que a copa do Brasil é simplesmente a mais grandiosa copa da história do torneio, algo de que o fundador Jules Rimet se orgulharia. Mas como a imprensa internacional mudou de opinião tão depressa? Por que nenhuma das previsões catastróficas feitas desde o ano passado se concretizou? Como provara Mandela anos atrás, o esporte prevaleceu.

Se é que podemos considerar caótica alguma coisa nessa copa, talvez seja o próprio futebol. Por muitas gerações não houve esporte mais previsível. A Europa e a América do Sul praticamente monopolizavam os torneios, os gols eram quase um artigo de luxo. Não havia um time que não jogasse na retranca e qualquer país sem grande representatividade no futebol só vinha às copas para “passear”, como o fanzine conhecido como Revista Veja tentou defini-los às vésperas do mundial.

E, rapaz, como eles estavam equivocados! A alegria do povo mostra-se agora irreconhecível! Caso tenham se esquecido, antes de a copa começar, o segundo favorito ao título, atrás do Brasil, era a toda-poderosa e jebalhuda Espanha, que vinha canibalizando o futebol mundial desde que o técnico Pep Guardiola introduziu a tal tiki-taka no Barcelona há bons seis anos, apontou o caminho para fazer a Fúria campeã em 2010 e rapelou duas Eurocopas nos últimos quatro anos.

Posso não entender muito de bola, mas acompanhei a semifinal entre Espanha e Itália na Copa das Confederações ano passado e fiquei pasmo: Como é que alguém pode ter achado que a tiki-taka era o futuro do esporte bretão? Parecia mais que eu estava vendo uma mesa de pebolim! Perdoem-me seus defensores, se é que sobrou algum depois do atual fiasco, mas perder para o Brasil na final das Confederações ano passado deveria ter acendido o sinal de alerta para o técnico catalão Vicente Del Bosque, mas o sósia do Sr. Leôncio parece ser tão teimoso quanto o Felipão!

Como o jogador italiano Pirlo disse, não existem mais “gatas borralheiras” no futebol mundial. Seleções antigamente inexpressivas provaram ao mundo que podem apertar suas trincheiras e segurar qualquer outra seleção, seja ela Honduras ou Holanda. O que falta em técnica para, digamos, Costa Rica, Argélia ou Suíça, sobra de raça e coração. Já tinha percebido na copa da África do Sul que alguns times estavam tão bem preparados que se anulavam uns aos outros em campo, e o atual campeonato é a prova cabal disso. Quem poderia imaginar, em qualquer era, assistir às quedas de Portugal, Espanha e Itália, os três países devoradores de torneios, logo na 1ª fase?

* Escritor e designer gráfico. Contatos:
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