Façam bom proveito de seu caos!
* Por
Fernando Yanmar Narciso
Nelson Mandela
acreditava que, dentre todas as formas de se expressar, o esporte tem uma
estranha capacidade de rir da cara das diferenças entre as pessoas e
sintonizá-las em torno de um objetivo em comum. Só o esporte pode anuviar a
alma e reavivar a esperança onde antes havia só desespero. Foi com essa ideia
que ele uniu negros e africâneres em torno da Copa do Mundo de Rugby em 1995,
evento que ele tratou de politizar e usar como o instrumento de redenção das
vítimas da apartheid.
Faltando dois dias para
o primeiro apito da Copa no Brasil, praticamente o mundo todo tinha certeza
absoluta que nosso pobre e incapaz país estava a ponto de passar uma vergonha
fenomenal. Os atrasos nas obras de infra-estrutura e dos estádios- perdão, “arenas”,
eram alvo de terrorismo não apenas da imprensa nacional como da mundial. Então,
vieram as mais que previsíveis acusações de roubalheira e superfaturamento de
obras, greves de motoristas de ônibus e metroviários, a também compreensível
ameaça de caos aéreo e dos movimentos anarquistas de rua e a hecatombe era uma
certeza.
Nada iria funcionar no
evento esportivo mais megalomaníaco do planeta. Houve até quem previsse um
surto de dengue durante o torneio, que infectaria milhares de turistas gringos
e os confinaria em nossos premiados postos do SUS até a morte. Isso sem falar
em punições piores como a praga de gafanhotos, o granizo de fogo e a imolação
de recém-nascidos... O que foi que fizemos pra merecer tamanho castigo?
A grande imprensa
resolveu endossar esse terrorismo na esperança que o fracasso do evento
manchasse ainda mais a imagem da presidente e do governo diante do mundo, e que
isso de alguma maneira facilitasse o retorno da oposição ao poder. O clima no
país, aparentemente, não podia ser menos propício para realizar um evento da
magnitude de uma copa... E aqui estamos nós, comprovando novamente cada palavra
do saudoso Mandela, mergulhados de cabeça nessa que, como Saddam Hussein
provavelmente concordaria, é “a mãe de todas as copas”!
Os continentes estão
apaixonados pelo nosso espetáculo, pelos estádios suntuosos, pela calorosa
hospitalidade brasileira. Até parece que um país que produz desfile de escolas
de samba todo ano não conseguiria dar conta de uma copinha à toa dessas! Já
dizem aos quatro ventos que a copa do Brasil é simplesmente a mais grandiosa
copa da história do torneio, algo de que o fundador Jules Rimet se orgulharia.
Mas como a imprensa internacional mudou de opinião tão depressa? Por que
nenhuma das previsões catastróficas feitas desde o ano passado se concretizou?
Como provara Mandela anos atrás, o esporte prevaleceu.
Se é que podemos
considerar caótica alguma coisa nessa copa, talvez seja o próprio futebol. Por
muitas gerações não houve esporte mais previsível. A Europa e a América do Sul
praticamente monopolizavam os torneios, os gols eram quase um artigo de luxo.
Não havia um time que não jogasse na retranca e qualquer país sem grande
representatividade no futebol só vinha às copas para “passear”, como o fanzine
conhecido como Revista Veja tentou defini-los às vésperas do mundial.
E, rapaz, como eles
estavam equivocados! A alegria do povo mostra-se agora irreconhecível! Caso
tenham se esquecido, antes de a copa começar, o segundo favorito ao título,
atrás do Brasil, era a toda-poderosa e jebalhuda Espanha, que vinha
canibalizando o futebol mundial desde que o técnico Pep Guardiola introduziu a
tal tiki-taka no Barcelona há bons seis anos, apontou o caminho para fazer a
Fúria campeã em 2010 e rapelou duas Eurocopas nos últimos quatro anos.
Posso não entender
muito de bola, mas acompanhei a semifinal entre Espanha e Itália na Copa das
Confederações ano passado e fiquei pasmo: Como é que alguém pode ter achado que
a tiki-taka era o futuro do esporte bretão? Parecia mais que eu estava vendo
uma mesa de pebolim! Perdoem-me seus defensores, se é que sobrou algum depois
do atual fiasco, mas perder para o Brasil na final das Confederações ano
passado deveria ter acendido o sinal de alerta para o técnico catalão Vicente
Del Bosque, mas o sósia do Sr. Leôncio parece ser tão teimoso quanto o Felipão!
Como o jogador italiano
Pirlo disse, não existem mais “gatas borralheiras” no futebol mundial. Seleções
antigamente inexpressivas provaram ao mundo que podem apertar suas trincheiras
e segurar qualquer outra seleção, seja ela Honduras ou Holanda. O que falta em
técnica para, digamos, Costa Rica, Argélia ou Suíça, sobra de raça e coração.
Já tinha percebido na copa da África do Sul que alguns times estavam tão bem
preparados que se anulavam uns aos outros em campo, e o atual campeonato é a
prova cabal disso. Quem poderia imaginar, em qualquer era, assistir às quedas
de Portugal, Espanha e Itália, os três países devoradores de torneios, logo na
1ª fase?
*
Escritor e designer gráfico. Contatos:
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Uma crônica muito bem urdida e com argumentos irrefutáveis. Parabéns!
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