domingo, 15 de junho de 2014

O renascimento de dona Assunta

* Por Cecília França

Dona Assunta terminou de passar o café, colocou o bule na bandeja, ao lado do pão com manteiga, pegou o jornal no portão e seguiu para a sala onde padre Egídio aguardava o rotineiro desjejum. Pousou a bandeja sobre as pernas do velho – ela, que também já passara dos setenta – e alcançou seus óculos na prateleira para dar início à leitura do periódico.

Apesar dos graves problemas de visão, o padre mantinha-se lúcido e interessava-se pela vida da comunidade. Mas naquele dia pediu que ela pulasse as páginas iniciais e encontrasse aquela reportagem que ele aguardava para ouvir. Era uma surpresa também para a sua fiel companheira, que durante mais de 40 anos dedicara-se à conservação dos objetos da paróquia e dele próprio.

Na foto, o padre apontava as relíquias tão bem guardadas por dona Assunta e que agora haviam sido reunidas em um mini-museu, instalado em um dos cômodos da casa dele. A reportagem ganhara destaque maior do que ele imaginara e a expectativa aumentava do velho à medida que sua companheira avançava pelos escritos.

Pedira a ele que não tocasse em seu nome, era discreta, nunca gostara de exibição. No entanto, ele, numa forma de agradecimento, declarou à repórter que aquele empreendimento só estava se tornando realidade por força dela, por sua dedicação. O padre estava ansioso por ver sua reação.

"Todos os objetos foram guardados sob o carinho e cuidado de dona Assunta Olivieri, hoje já falecida". Leu a senhora. Segundos de pausa se seguiram. Ela, absorvendo a notícia da própria morte no jornal; ele, tentando entender o que ocorrera. Continuou lendo a reportagem até o final, sem visível abalo. Quando terminou, fechou o jornal, pegou a bandeja e seguiu para a cozinha.

O padre, sem saber se a confusão fora decorrente de sua senilidade ou da juventude excessiva da repórter, esqueceu-se do assunto e dormiu na poltrona. Notando a indiferença do velho, Dona Assunta pôs-se a pensar. Avaliou suas conquistas e derrotas e notou que não havia muitas a serem contabilizadas.

Não perdera parentes próximos fora de hora – os pais morreram quando ela já era uma jovem senhora –, não sofrera problemas com filhos, pois nunca os tivera; não se casara; nunca se apaixonara; nunca fora a um baile, nem bebera nada alcoólico. Sua vida fora dedicada à paróquia e ao padre – apesar de também nunca ter entrado para a vida religiosa.

O que construíra? Aquele mini-museu. Era seu e não dele! Era tudo que ela tinha e ele não lhe dera os créditos merecidos. Citara seu nome à repórter como o de uma coadjuvante, como se estivesse fazendo um favor. Agora entendia que não passara de uma ajudante para ele.

Por ironia, o dia de sua morte anunciada também era o de seu aniversário. E ele lembrara? Não. Estava preocupado demais com sua velhice para lembrar. Pegou o telefone, ligou na paróquia e pediu à secretária que confirmasse sua morte a quem quer que ligasse – era conhecida dos fiéis, certamente ligariam. A jovem hesitara, mas não teve argumentos diante da imposição da velha senhora.

Dona Assunta então correu para o quarto, arrumou suas roupas na pequena mala e saiu. Levou apenas uma foto, da primeira missa que padre Egídio celebrara na paróquia. Trancou a porta e jogou a chave por baixo. Desapareceu sem deixar rastros, tornando real a errônea informação do jornal.

* Jornalista. Mantém o blog http://jornalogia.blogspot.com

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