segunda-feira, 3 de março de 2014

Em marcha

* Por Daniel Santos

  
Certa manhã em que saí ao trabalho, uma série de acontecimentos inesperados e até hoje inexplicáveis me ensinaram que, além das fatalidades, há quem delibere sobre nós sem sequer desconfiarmos.

Cheguei à avenida onde tomaria o ônibus, mas policiais, muitos deles, nos desviaram para ruas paralelas e, daí, à litorânea, longe dos transportes coletivos e onde proibiam-se também carros de passeio.

Surpresos com tal aparato, perguntávamos sobre a razão daquilo, mas todos pareciam mal-humorados, ameaçadores até!, não bastassem os cães amestrados que rosnavam sem parar e o rasante de aviões furiosos.

Após uma hora de caminhada, muitos pediam para descansar, mas os soldados ameaçavam os fracotes a baionetas. E quem alegava importante nome de família para se safar ouvia gargalhadas de escárnio.

Mas tudo terminou ainda naquela manhã. Os policiais se foram sem explicar o que também não lemos nos jornais e nenhuma autoridade jamais confirmou: que, um dia, por algumas horas, nos sujeitaram por completo.

* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.




Um comentário:

  1. Pesadelo, delírio ou realidade perpetrada por algum comandante louco? Ameaças por todos os lados, desde superbactéria e gripe H1N1, até dengue, vírus HIV ou Ebola, além do terremotos. Não temos saída para os vários tipos de violência. Esqueci alguma? Calazar, mas tem mais.

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