quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Cem dias em dez

* Por Fernando Yanmar Narciso

Já dizia Maquiavel: Mantenha os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda. Quando duas pessoas parecem ter simplesmente nascido em pólos opostos, parece não haver nada que as faça conviver em harmonia. Javert, o policial implicante de Os Miseráveis, dedicou vinte anos de sua vida a odiar, perseguir e tramar a prisão de um homem que, no fim das contas, não estava nem aí para ele. Apesar de não ser homem de muitas amizades e averso a brigas, tenho minha pequena coletânea de “Javerts”...

Com a separação de meus pais, o mundo pareceu desaparecer embaixo de meus pés e dos de meu pai. Naquele ano horrível, qualquer pessoa que ambos trouxessem para minha vida seria visto como um intruso, um ser extraterrestre pertencente aos laboratórios de Roswell. Foi nessas condições que fui apresentado à namorada de meu pai. Creio que não nos demos bem desde o primeiro encontro, culpa de minha língua descontrolada e do gênio desumanamente difícil dela. Ela é do tipo de gente que basta encontrar o papel higiênico posto no gancho pela direção errada que já sai tocando o terror.

Após alguns bate-bocas e tentativas frustradas de socialização, pai chegou à conclusão que não ia dar certo o convívio entre eu e ela. Há sete anos, ele virou o Muro de Berlin separando as duas Alemanhas. Quando há um programa na família da mulher, como ir ao clube, à roça ou uma excursão para a praia, ele nunca me convida. Costuma dizer que eu não ia gostar dos programas da família dela, coisa e tal. Pensava que eram como as desculpas da raposa que não consegue pegar as uvas, mas ano passado descobri que talvez seja uma decisão das mais sensatas que ele nos mantenha afastados.

Era o mês de dezembro, e como de costume, meu pai planejava nossa viagem habitual ao nordeste, para passar as festas com a família. A princípio iríamos de avião, como das outras vezes, mas eis que a mulher cisma de vir junto, mesmo morrendo de medo de avião. Conversa vai, conversa vem e muita encheção de saco mais tarde, ficou decidido que viajaríamos os três, só que de carro! Para ele era uma grande oportunidade, afinal tinha curiosidade para saber o estado de nossas maravilhosas cidades, e usaria o convívio forçado para tentar a reconciliação entre eu e ela, para quem vivia prometendo uma viagem à Natal desde que se conheceram. Inocente, chegou a comprar um carro 0 Km só para levar a “esposa” numa romântica lua-de-mel.

Apesar das longuíssimas horas de estrada, contando com buraqueira, temporais, estradas bloqueadas para reparo, engarrafamentos, pedágios mil, postos de beira de estrada infectos e o escambau, a “esposa” aguentou a viagem relativamente numa boa, sem implicâncias ou discussões sérias. Mas ao chegarmos ao nosso destino o caldo engrossou de vez. Como se tivesse reservado as energias até ali, bastou eu e pai tomarmos a decisão de eu ficar junto com eles no hotel, ao invés de me hospedar na a casa de uns tios como havíamos combinado, pra tal lua-de-mel dos sonhos dela descer pelo ralo.

Bem que tentamos formar algum vínculo no início, mas nos seis dias que ficamos em Natal, ela parecia possuída por um cruzamento de Dona Florinda com o Diabo da Tasmânia! Nothing, absolutamente nada prestou pra ela. Punha defeito em tudo o que via. Sugeríamos programas, ela vestia a máscara de carranca e virava uma fortaleza impenetrável. A gente ia comer, ela fazia cara de quem virou um frasco de Plasil. Na praia, praguejava até contra o vento. Nem eu nem pai conseguíamos entender o motivo de tanta marrentice, mas num dia ou dois ficou bem claro: Era minha presença. O fato de eu não ter deixado meu pai só pra ela e não ter ficado com meus tios a irritou profundamente, ao ponto que numa ocasião ela disse que só iria andar de bugre nas dunas se eu ficasse no hotel. Pode isso, Arnaldo?

Bem, para ser muito justo, a viagem não foi infernal por culpa exclusivamente dela. Houve alguns atritos entre nós, uns sérios e outros nem tanto, mas a reação selvagem que a prima-donna demonstrou no litoral permanece descabida e carecendo de um pedido de desculpas pro meu pai e para mim, afinal ela sepultou nossas férias. Apesar de tantas rusgas, rabugice e troca de farpas entre nós, nessa Guerra das Rosas que atravessou praticamente uma década, minha natureza razoavelmente pacífica ainda me leva a crer na possibilidade de uma reconciliação, num futuro talvez não tão distante.

Se até Nina e Carminha ficaram de boa no fim da novela, se os Gungans chegaram a um acordo com os Naboos, se Mandela conseguiu unir brancos e negros e se até a Dona Florinda já perdoou Seu Madruga algumas vezes, por que não conseguiríamos resolver essa situação? Afinal, Madruguinha ensinou a várias gerações que as pessoas boas devem amar os seus inimigos. Ou, no mínimo, sentar-se ao lado deles e resistir à tentação de voar no pescoço um do outro.

*Designer e escritor. Sites:


Um comentário:

  1. Quando a madrasta não é boa, resulta numa viagem cheia de agonia. Juntar inimigos, esta é a sua proposta final, porém sugiro que seja só muito de vez em quando e de preferência, por alguns minutos, apenas.

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