segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A saga dos meus quero-queros

* Por Harry Wiese

Asas de quero-quero são como coração de mãe. Esta é uma constatação régia e verdadeira. Eram quatro filhotes já bem crescidos; veio um, veio outro e todos se acolheram debaixo das asas da mamãe quero-quero. Olhando de longe parecia uma tartaruga gorda e inerte no meio do gramado verde. Os filhotes estavam protegidos contra o frio e o perigo de morte anunciada: as corujas.

No ano passado, na mesma época, o destino foi fatal. De repente apareceram três filhotes de quero-queros, pequeninos e ágeis a se movimentarem no gramado que fica ao lado da Universidade onde trabalho. Durante dias fiquei a observá-los, sempre com medo que alguma coisa de ruim pudesse acontecer. Um dia cheguei, olhei e o gramado estava vazio. À noitinha, ouvi um grito ameaçador e vi uma coruja cruzando os ares, à procura de mais um petisco: filhote de quero-quero.

Agora, um ano depois, apareceu nova ninhada: quatro quero-queros, lindos e ágeis a correrem pelo mesmo espaço verde. Preocupado com a sobrevivência dos bichinhos, fui falar com professores de Biologia, docentes que haviam dado uma demonstração de preservação da vida em uma reunião acadêmica, quando no meio dos presentes, apareceu uma perereca, pulando de desespero nas pernas das mulheres. Entre gritos e tapas, com a perereca jurada de morte, apareceram os biólogos, pegaram a “coitada”, fizeram um carinho nela e a colocaram a salvo numa árvore ali nas proximidades. Isto sem antes dar uma bronca nas mulheres inimigas da “bichinha”. Foi um verdadeiro ato de amor à vida.

Crente no auxílio dos bondosos professores de Biologia, perguntei-lhes sobre uma estratégia para salvar os pequenos quero-queros das corujas famintas. Decepcionado eu recebi a resposta:
– Não faça nada, quanto menos interferir, melhor! Deixe a natureza decidir por si mesma a sorte dos quero-queros.
– Tenho medo que as corujas façam o estrago novamente – voltei a interferir, mas o veredicto veio trágico: – se as corujas não comerem os quero-queros, elas vão morrer de fome. Deixe a natureza fazer o equilíbrio entre as espécies.

Levei algum tempo para entender a complicada relação e competição entre os seres vivos.

Mesmo assim, decepcionado com os biólogos, antes tão a favor da vida e agora tão pragmáticos e realistas, ignorando as corujas, eu acompanhei o desenvolvimento dos quatro filhotes de quero-quero. Todo dia, antes do trabalho, fui lá contar: um, dois, três, quatro. Às vezes, só tinha dois ou três, mas de repente, não sei de onde vinham, estavam todos lá, procurando comida nas pequenas galerias de larvas e minhocas no gramado.

Em caso de perigo, os pais dos bichinhos davam o sinal. Enquanto o macho fazia rondas no ar disposto a atacar a quem aparecesse, a mãe abria as asas e, um a um, os filhotes-aprendizes de viver se punham a salvo debaixo das asas. Eles já eram bem crescidinhos, mas ainda não conseguiam voar.

Com o tempo passando ficaram mais fortes, mas enfrentaram peripécias nunca vistas antes: neve, seca, enchente, cachorros, gatos, gambás e o escambau. Driblaram as dificuldades como os quero-queros que vivem nos campos de futebol driblam a bola e os jogadores em momentos de jogos.

Um dia quando fui vê-los, antes do trabalho, a decepção foi grande. O gramado estava vazio. Cadê os quero-queros? O que fizeram com eles?

Surpreso eu os encontrei na rótula do trevo principal de Indaial. Estavam todos ali a espreitar as palmeiras indaiás e carros e caminhões passando. Como chegaram lá não sei, pois tinham que atravessar a rodovia e os filhotes, embora já fizessem ensaios de voos, ainda não conseguiam locomover-se pelos ares. São coisas da natureza, com certeza!

Você pensa que acabaram os problemas dos quero-queros? Três dias depois, vieram os homens da limpeza pública, com suas potentes máquinas de cortar grama e os bichinhos mais uma vez tiveram que driblar o destino. E o fizeram com competência entre protestos e ataques às máquinas e homens.

Agora minha esperança é que em pouco tempo estejam aptos a voar e que possam morar nos mais diversos gramados de Indaial. No ano que vem, se nada mudar, tenho certeza de que novos filhotes nascerão e se aquecerão debaixo das asas da mamãe quero-quero. Vou ficar de olho!
* Harry Wiese é escritor que reside em Ibirama - SC. É autor de vários livros, dentre eles A sétima caverna, romance premiado pela Academia Catarinense de Letras.



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