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A história de A1 e A2
* Por João Batista Melo
A1 e A2.
Eventos arbitrários que se realizam num mesmo instante. Apenas se a intersecção de suas próprias probabilidades resultarem distintas de zero.
A1 e A2.
A voz da professora circula em torno de Marcelo como um ciclone. Ventos que zumbem ameças de ruídos, as palavras de misturando sem que cheguem a um concenso sobre qual era o seu sentido.
Na verdade, Marcelo está com sono, a voz da professora um acalanto, reforçando o cansaço do dia entre as planilhas e clientes da agência bancária. Números o dia todo se acoplando agora aos números da aula de estatística.
Das nove da manhã às seis da tarde ouvindo telefonemas acerca de contas, aplicações, resgates, ouvindo as orientações do chefe, pacientes e pedagógicas, e nem por isso menos cansativas, ouvindo os colegas reclamarem do salário ou se impacientarem com os clientes antes de se sentarem sorridentes nas mesas de atendimento, o sorriso pairando como num quadro da Gioconda.
E faz um ano, em vez de encerrar tudo e correr para casa, o filho pequeno, a mulher, o filme no dêvêdê, a cerveja resfriando o dia, ele se ergue exausto, a pastinha gasta de executivo na mão, e sai com o carro acelerado para se aninhar na cadeira da sala de aula. Depois encara a noite, os sinais de trânsito piscando amarelos, as ruas escuras, os vultos passando sob as marquises. A mulher sempre o espera antes de dormir, preocupada com os assaltos, a violência, a noite da cidade grande, mas às vezes ela não resiste e Marcelo a encontra ressonando, o livro caído no travesseiro.
Há tempos sem um emebiei não se escala organogramas nas empresas e ele sucumbiu, vinte anos depois de receber um quase supérrfluo diploma de graduado, e agora gasta suas noites e todos os dias de sábado para ouvir palavras de marketing e erreagá e estatística e então Marcelo está ali, sonhando que lê histórias para o filho, ouvindo a bela e inteligente professora falar de Heisenberg e de axiomas. Incertezas. Sonolências. A1 e A2.
O entrevistado tem os olhos fixos na câmara e não no entrevistador. Explica aos telespectadores que na cidade não é tão grande o número de pessoas que morrem por ano vítimas de armas de fogo. A maior parte desse número não corresponde a assaltos, mas a brigas e suicídios, agressões às mulheres, eventos fatais com crianças que vasculham, quase inocentes, o fundo de armários e gavetas. Naquele município, ele ressalta, registraram-se trinta e cinco vírgula cinco homicídios por cem mil habitantes, número inferior a cidades do nordeste do país, onde se notificaram até mais de 49 homicídios para cada cem mil pessoas. Percentualmente, o número de mortos em assaltos torna-se assim muito pequeno quando se pensa num município com dois milhões de habitantes. O apresentador acena afirmativamente com a cabeça concordando com a linha de raciocínio do entrevistado. Ao término da frase do entrevistado, ergue o dedo indicador pedindo o início dos comerciais. A1 e A2.
Debaixo da marquise, Beto desvia os olhos da tevê de plasma que lança luzes coloridas na vitrine no magazine na esquina. Contempla a garoa espelhando as luzes da avenida. Treme um pouco, efeito da droga que se aplicou antes de sair de casa, mas também efeito da brisa que acompanha a chuva. Enfia a mão no bolso conferindo o que lhe resta de dinheiro. Há três dias não consegue mais grana e, aliás, nem tentara obter recursos para pagar os fornecedores, tanto os de ácido quanto os de comida, o cara do boteco na esquina nem lhe cobra, somente dá um sorriso desolado quando ele para ali na hora do almoço e se assenta à espera do almoço. Precisa dar um jeito na vida, mudar de cidade, procurar um trabalho, talvez até se livrar da droga, mas isso sempre fica para o dia seguinte. Enquanto não chega esse dia que nunca chegará, a sobrevivência quotidiana o espera, como naquela noite, debaixo da marquise chuvosa.
Ele espera paciente o fluxo de carros diminuir, contemplando distraído o semáforo trocar as luzes. Verde, amarelo, vermelho. Então os carros param e esperam o trânsito da outra avenida fluir pelo cruzamento. Os clarões dos faróis se arrastam velozes nas duas mãos e, então, de repente se estancam parados diante da faixa de pedestres, que já não passam mais por ali, adormecidos ou confinados em outras partes da cidade.
Depois de algum tempo, apenas um único carro pára no sinal à espera de que a luz verde lhe abra o acesso ao muro de carros na outra avenida. Detrás do vidro fechado, Marcelo boceja, o olhar desviando do tráfego para as cores do semáforo. Sob a marquise, Beto enfia a mão no bolso da blusa e atravessa a rua. Estende o revólver para Marcelo que se assusta e pisa no acelerador. Beto atira.
Eventos arbitrários que se realizam num mesmo instante. Quando a intersecção de suas próprias probabilidades resultarem distintas de zero.
A1 e A2.
*Mestre em Multimeios, pela Unicamp, fez crítica de cinema e literatura para diversos jornais e dirigiu os curtas “A quem possa interessar” e “Tampinha”. É autor das coletâneas de contos “Um pouco mais de swing” (Rocco), “As baleias do Saguenay” (Rocco) e “O Inventor de Estrelas” (Lê) e do romance “Patagônia” (Rocco), e participou da antologia “Geração 90: Manuscritos de Computador” (Boitempo).
* Por João Batista Melo
A1 e A2.
Eventos arbitrários que se realizam num mesmo instante. Apenas se a intersecção de suas próprias probabilidades resultarem distintas de zero.
A1 e A2.
A voz da professora circula em torno de Marcelo como um ciclone. Ventos que zumbem ameças de ruídos, as palavras de misturando sem que cheguem a um concenso sobre qual era o seu sentido.
Na verdade, Marcelo está com sono, a voz da professora um acalanto, reforçando o cansaço do dia entre as planilhas e clientes da agência bancária. Números o dia todo se acoplando agora aos números da aula de estatística.
Das nove da manhã às seis da tarde ouvindo telefonemas acerca de contas, aplicações, resgates, ouvindo as orientações do chefe, pacientes e pedagógicas, e nem por isso menos cansativas, ouvindo os colegas reclamarem do salário ou se impacientarem com os clientes antes de se sentarem sorridentes nas mesas de atendimento, o sorriso pairando como num quadro da Gioconda.
E faz um ano, em vez de encerrar tudo e correr para casa, o filho pequeno, a mulher, o filme no dêvêdê, a cerveja resfriando o dia, ele se ergue exausto, a pastinha gasta de executivo na mão, e sai com o carro acelerado para se aninhar na cadeira da sala de aula. Depois encara a noite, os sinais de trânsito piscando amarelos, as ruas escuras, os vultos passando sob as marquises. A mulher sempre o espera antes de dormir, preocupada com os assaltos, a violência, a noite da cidade grande, mas às vezes ela não resiste e Marcelo a encontra ressonando, o livro caído no travesseiro.
Há tempos sem um emebiei não se escala organogramas nas empresas e ele sucumbiu, vinte anos depois de receber um quase supérrfluo diploma de graduado, e agora gasta suas noites e todos os dias de sábado para ouvir palavras de marketing e erreagá e estatística e então Marcelo está ali, sonhando que lê histórias para o filho, ouvindo a bela e inteligente professora falar de Heisenberg e de axiomas. Incertezas. Sonolências. A1 e A2.
O entrevistado tem os olhos fixos na câmara e não no entrevistador. Explica aos telespectadores que na cidade não é tão grande o número de pessoas que morrem por ano vítimas de armas de fogo. A maior parte desse número não corresponde a assaltos, mas a brigas e suicídios, agressões às mulheres, eventos fatais com crianças que vasculham, quase inocentes, o fundo de armários e gavetas. Naquele município, ele ressalta, registraram-se trinta e cinco vírgula cinco homicídios por cem mil habitantes, número inferior a cidades do nordeste do país, onde se notificaram até mais de 49 homicídios para cada cem mil pessoas. Percentualmente, o número de mortos em assaltos torna-se assim muito pequeno quando se pensa num município com dois milhões de habitantes. O apresentador acena afirmativamente com a cabeça concordando com a linha de raciocínio do entrevistado. Ao término da frase do entrevistado, ergue o dedo indicador pedindo o início dos comerciais. A1 e A2.
Debaixo da marquise, Beto desvia os olhos da tevê de plasma que lança luzes coloridas na vitrine no magazine na esquina. Contempla a garoa espelhando as luzes da avenida. Treme um pouco, efeito da droga que se aplicou antes de sair de casa, mas também efeito da brisa que acompanha a chuva. Enfia a mão no bolso conferindo o que lhe resta de dinheiro. Há três dias não consegue mais grana e, aliás, nem tentara obter recursos para pagar os fornecedores, tanto os de ácido quanto os de comida, o cara do boteco na esquina nem lhe cobra, somente dá um sorriso desolado quando ele para ali na hora do almoço e se assenta à espera do almoço. Precisa dar um jeito na vida, mudar de cidade, procurar um trabalho, talvez até se livrar da droga, mas isso sempre fica para o dia seguinte. Enquanto não chega esse dia que nunca chegará, a sobrevivência quotidiana o espera, como naquela noite, debaixo da marquise chuvosa.
Ele espera paciente o fluxo de carros diminuir, contemplando distraído o semáforo trocar as luzes. Verde, amarelo, vermelho. Então os carros param e esperam o trânsito da outra avenida fluir pelo cruzamento. Os clarões dos faróis se arrastam velozes nas duas mãos e, então, de repente se estancam parados diante da faixa de pedestres, que já não passam mais por ali, adormecidos ou confinados em outras partes da cidade.
Depois de algum tempo, apenas um único carro pára no sinal à espera de que a luz verde lhe abra o acesso ao muro de carros na outra avenida. Detrás do vidro fechado, Marcelo boceja, o olhar desviando do tráfego para as cores do semáforo. Sob a marquise, Beto enfia a mão no bolso da blusa e atravessa a rua. Estende o revólver para Marcelo que se assusta e pisa no acelerador. Beto atira.
Eventos arbitrários que se realizam num mesmo instante. Quando a intersecção de suas próprias probabilidades resultarem distintas de zero.
A1 e A2.
*Mestre em Multimeios, pela Unicamp, fez crítica de cinema e literatura para diversos jornais e dirigiu os curtas “A quem possa interessar” e “Tampinha”. É autor das coletâneas de contos “Um pouco mais de swing” (Rocco), “As baleias do Saguenay” (Rocco) e “O Inventor de Estrelas” (Lê) e do romance “Patagônia” (Rocco), e participou da antologia “Geração 90: Manuscritos de Computador” (Boitempo).
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